Histórias de Migração: Svenja Fritsch

Olá, eu sou Svenja e nasci em Lübeck, uma cidade no estado de Schleswig-Holstein, no norte da Alemanha. Morar fora sempre foi um desejo meu. Eu sempre fui muito curiosa para conhecer outras culturas, outras realidades e outros contextos geográficos também.

A migração está muito presente na minha história familiar. Minha mãe é austríaca e meu pai nasceu em uma cidade que, hoje, pertence à Polônia. Ainda quando bebê, ele e sua família fugiram para o sul da Alemanha. Viagens para visitar a família sempre foram muito comuns na minha infância, ou seja, desde muito cedo eu tinha consciência de que existiam outras realidades e outras culturas. Eu sou uma pessoa com um histórico de migração, mas isso frequentemente passa despercebido aqui na Alemanha pelo fato de eu ser uma mulher branca que fala alemão sem sotaque.

Minha primeira experiência morando fora da Alemanha foi através de um estágio de 6 semanas em Viena, na Áustria. Este estágio, em uma agência de intercâmbio internacional, fez aumentar em mim a vontade que já existia de viajar e conhecer novas culturas. Nessa época eu conheci pessoas muitos legais, mas eu senti uma conexão toda especial com as da América do Sul.

Aproveitando as oportunidades que a minha faculdade proporcionava, tratei logo de organizar mais um estágio, desta vez no Chile. A minha temporada no Chile deveria durar uns 6 meses e eu acabei estendendo por um ano para realmente poder viver de forma bem intensa tudo o que Valparaíso tinha para me oferecer. Uma curiosidade: Valparaíso me lembra muito Salvador, mas deixa que eu já conto como foi que se deu a minha experiência com o Brasil.

Em agosto de 2009, eu tinha terminado a faculdade e estava muito cansada do mundo acadêmico. Sentia que precisava ganhar distância. Estava numa fase meio de crise, sem saber exatamente o que eu queria para a minha vida. Eu meditava muito. Um dia, escutando uma música de um documentário, eu tive uma espécie de visão. As imagens que me vinham naquele momento me lembravam a Bahia. Não tive dúvida: comprei a passagem para o Brasil e, por via das dúvidas, marquei a viagem de volta pra seis meses depois, saindo de Santiago do Chile, que eu já conhecia e onde tinha amigos.

Minha ida para a Bahia foi como uma espécie de chamado. Depois disso, foram muitas coisas se sincronizando e me mostrando que seria a decisão certa ir para lá. Chegando no Brasil, eu fui me deixando levar pelos acontecimentos. Prorroguei meu visto de turista, deixei minha passagem vencer e fui ficando. Morei em Salvador, na Chapada Diamantina, e em Imbassaí, que pertence ao município de Mata de São João. Eu trabalhava em troca de alojamento e ia me virando como dava.

Voltei para a Alemanha somente porque meu pai estava completando 70 anos e eu queria fazer uma surpresa para ele. Nessa ocasião, já estava bem claro para mim que, depois da festa de meu pai, eu organizaria minhas coisas e migraria de vez para o Brasil. Foi exatamente isso o que eu fiz. Voltei pra Bahia e fiquei lá por um ano. Acabei voltando outra vez para a Alemanha porque, depois de um término bem complicado de relacionamento, eu precisava me recuperar tanto emocionalmente quanto economicamente.

Morar no Brasil, para mim, foi como um processo de cura. A Bahia e a Alemanha estão, no meu ponto de vista, em dois polos extremos e eu gostei muito de ter aprendido uma forma diferente de conviver. Aprendi muito sobre solidariedade, gostei da leveza que as pessoas têm para se entregarem às coisas e como a arte é presente em tudo na Bahia. Além disso, eu gosto muito da culinária baiana e até hoje sinto falta.

A religiosidade de matriz africana da Bahia também me encanta. A presença de rituais que têm um sentido mais profundo. A conexão com a natureza e com a vida é muito mais forte no Brasil. Fico muito tocada em ver como as pessoas de lá se conectam com suas ancestralidades. Acho que, aqui na Alemanha, a gente vive de forma muito desconectada com nossas origens. Morar fora me ajudou a refletir sobre a minha própria origem. A Bahia me fez entender muito sobre a minha própria cultura.

Por outro lado, é muito difícil conviver com tanta violência. O forte racismo, assaltos, ataques contra a população LGBTQIA+ e a presença sempre constante da polícia me incomodavam muito. Uma vez, eu presenciei uma perseguição policial na qual os policiais dispararam tiros contra os fugitivos, sem se importarem com as pessoas (muitas crianças) que estavam em volta. Também não me sentia muito bem com a constante desconfiança das pessoas, resultado da sua história violenta, de uma realidade marcada por tanta injustiça social e pela clara corrupção.

Mesmo assim, o Brasil continua sendo muito importante para mim. Eu falo cinco idiomas e sinto que cada parte de minha personalidade se revela de forma diferente quando falo cada um deles.

Com o português, eu sinto que posso expressar uma parte muito forte de minha personalidade. O Brasil tem um status muito especial para mim, pois foi lá que eu consegui entrar em contato com minhas paixões de dança, de música e de culinária. O Brasil me ajudou a me conectar com minha alma. Aqui na Alemanha muita gente me pergunta se eu sou brasileira e eu respondo “não no passaporte, mas no sentimento sim”.

Eu sou Svenja e essa é a minha história de migração. Qual é a sua?

*Depoimento transcrito por Cris Oliveira

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