Giro pelo Mundo: Buenos Aires

Ao falar de Buenos Aires, começo pela minha avenida preferida: Corrientes. As primeiras quadras, especialmente as que estão entre as Avenidas 9 de Julio e Callao, são cheias de cafés, livrarias e cinemas. Quando chegar no cruzamento da Corrientes e 9 de Julio, verá o Obelisco, importante símbolo da cidade. Interessante que não é o centro geográfico de Buenos Aires, mas é o centro social, por assim dizer. Dali, é muito fácil mover-se, pois tem acesso a várias linhas de metrô e ônibus, é só escolher o seu destino e embarcar!

É possível desbravar Buenos Aires caminhando e isso é muito agradável! A maioria das ruas têm calçadas largas e são muito arborizadas. Além disso, como a cidade é basicamente plana, andar não cansa muito.  

Fim de semana

Vem passar um fim de semana em Buenos Aires? No sábado, uma boa pedida é o Palermo. Hoje em dia, é uma espécie de “shopping a céu aberto” com um monte de coisas pelos “zói da cara”, mas é um passeio legal mesmo assim, porque, além das lojas, tem bares, restaurantes, cafés e feirinhas de jovens designers e artesãos. O bairro em si é super agradável, combina arquitetura antiga e moderna, e fica bem movimentado. Qualquer dia à noite, na Plaza Serrano e seu entorno, vale a pena conhecer os bares, alguns com mesas na calçada. Durante a noite fica bastante movimentado, especialmente nos fins de semana (antes da pandemia, é claro).

Ainda em Palermo, tem o jardim botânico, que é lindo. Ele é cheio de árvores e gatos e fica bem no meio da cidade. Tem também os bosques de Palermo, onde fica o planetário (que parece um disco voador), o Rosedal (uma praça com rosas de todo tipo e espécie!), o jardim japonês (andava meio decadente quando eu fui, não sei como está agora). Esses são passeios bem tranquilos, coisas de caminhar e ver, sentar pra comer um sanduíche ou, como os argentinos, tomar um mate (chimarrão).

San Telmo, Buenos Aires / Foto:  Luis Petrini

No domingo, eu recomendaria um passeio em San Telmo. Nos fins de semana, acontecem feiras de antiguidade pelo bairro e está sempre cheio de gente, argentinos e turistas. Não tem muita coisa para comprar, a ideia é ver o movimento mesmo. Na Plaza Dorrego, depois que desarmam a feira (por volta das 17h), rola um show de tango e um monte de velhinhos vão dançar alíi mesmo, no meio da praça. É lindo de ver! Você também pode ir a La boca pela manhã e depois seguir pra lá, que é pertinho.

Gastronomia

Se for a La Boca, sugiro aproveitar para comer um choripan comprado na rua mesmo! Choripán é o cachorro-quente argentino: uma linguiça de churrasco cortada ao meio dentro de um pão francês! Geralmente se coloca um molho chamado chimi-churri, que é uma delícia!    

Choripan / Foto: Amigos Foods.

Já sobre restaurantes, a melhor dica que eu posso dar é: preste atenção se o lugar é frequentado por argentinos e não só por turistas. Os argentinos gostam de comer bem. Se o restaurante estiver cheio deles, a comida deve ser boa!

Ah! Se for comer uma das tradicionais pizzas, peça também uma fainá: massa de grão de bico. Aqui é o único lugar do mundo onde eu vi alguém comer pizza com acompanhamento, então, vale a pena pedir para conhecer! Faz assim: come um pedaço de cada ao mesmo tempo! Algumas pizzarias até  servem a fainá já em cima da pizza.

Outra dica importante, ainda no tema gastronômico: vá a uma sorveteria.Os sorvetes argentinos são maravilhosos! A sorveteria mais famosa da cidade é a Pérsico, seguida da Freddo, mas tem milhares de sorveterias artesanais espalhadas pela cidade. Se prefere uma dica mais “local”, eu recomendo uma sorveteria de bairro, chamada La Gruta. O sabor dulce de leche granizado é um clássico daqui.

Falando em doce de leite, cabe lembrar que os argentinos sentem muito orgulho pelos doces de leite deles. E com razão! Apesar dos alfajores Havanna serem os mais famosos, há outros tão ou mais gostosos – e mais baratos – em qualquer kiosko. Como boa amante de um doce, não posso deixar de recomendar os havanettes, que são uns cones de chocolate recheados de doce de leite. Uma delícia!

Tango

Vamos falar de tango? Uma boa dica é decidir com antecedência se vai querer ir a um dos shows tradicionais, como os que servem jantar antes do show, porque é necessário reservar. Esses são bem como uma peça de teatro, tipo Broadway, geralmente com cantores e banda ao vivo, além dos bailarinos. Tem de todos os preços, a depender do luxo da comida e do espetáculo, claro. Nunca provei, mas ouvi dizer que a comida não costuma ser lá grande coisa.

San Telmo, Buenos Aires / Foto:  Luis Petrini

 Se a ideia é dançar, uma boa opção são as casas de milonga, como La Viruta (http://www.lavirutatango.com/). São salões frequentados por gente que gosta de dançar, quase como uma espécie de “boate de tango”. Elas oferecem aulas de tango também.

Para os amantes do tango, recomendo também o boteco “Lo de Roberto”. Lá, você vai ouvir uns senhores cantando tango a plenos pulmões, acompanhados de violões. É uma experiência super interessante e todos escutam como se estivessem numa missa. É de arrepiar!  

Museu

O museu que eu mais gosto é o Malba, de arte latino-americana. O Abaporu, de Tarsila do Amaral, faz parte do acervo permanente.

Outro museu que amo e recomendo a visita é o Bellas Artes. Ele tem entrada gratuita e uma excelente coleção de arte moderna no segundo andar. De lá, ainda dá para caminhar em direção à Recoleta, onde está o famoso cemitério com o corpo de Evita Perón, além de uma feira de artesanato aos domingos.

Centro

Ah! Pra finalizar, não esqueça de visitar também a parte mais central de Buenos Aires, onde está Casa Rosada, e de caminhar pela Avenida de Mayo até a Praça do Congresso. Essa região é linda! As fachadas são incríveis, então, sugiro dar uma olhada para cima e conferir toda a beleza. É nessa região que fica o famoso Café Tortoni, que é mesmo muito bonito, mas já adianto: atendimento péssimo e muito caro.

Você já foi a Buenos Aires? Compartilhe com a gente as suas dicas imperdíveis para curtir a cidade!

*Por Silvia Ornelas

*Editado e revisado por Cris Oliveira, Daniele Stivanin e Lali Souza

Imagem de destaque: julian zapata por Pixabay.

O que fazer enquanto o visto de trabalho não sai? 4 dicas para aproveitar o tempo e acalmar a ansiedade.

Em muitos países para onde migramos, não é possível começar a trabalhar imediatamente por vários motivos. Muitas vezes, o novo país tem uma língua oficial diferente da nossa e as oportunidades de trabalho podem ser fortemente ligadas ao domínio do idioma local. Em muitos casos, também, nossos diplomas e qualificações do país de origem precisam passar por um processo de reconhecimento oficial antes que possamos, realmente, nos aventurarmos na busca de emprego. Além de tudo isso, outras vezes ainda precisamos esperar sair algum tipo de autorização de trabalho.

Todos esses processos, por serem muito burocráticos, podem demandar bastante tempo, o que acaba se tornando um grande desafio para a pessoa imigrante: ter paciência para esperar as coisas acontecerem. Isso pode ser ainda mais difícil para pessoas que migram em busca de melhores condições de trabalho, de carreira ou de estudos.

Sabemos que essa espera pode ser angustiante. Muita gente fica com a impressão de estar “parada” no tempo. Uma forma de controlar essa ansiedade é tentar uma mudança de perspectiva e lançar o olhar para uma série de coisas que podemos fazer enquanto esperamos.

Neste texto, trazemos algumas sugestões do que fazer enquanto as situações burocráticas ainda não se resolveram. Eperamos que, com isso, possamos dar uma controlada na sensação de estagnação que essa fase da migração pode gerar.

– Faça cursos.

Imagem: StockSnap por Pixabay

Existe uma oferta infinita de cursos online que podemos aproveitar. Muitos até são gratuitos! Enquanto a gente espera nosso visto sair, é possível nos especializarmos, mudar o foco e aprender coisas novas. A oferta é tão ampla que, hoje em dia, a maior dificuldade é escolher que curso fazer. A plataforma Coursera, por exemplo, tem centenas de cursos em parceria com diversas universidades internacionais, nas mais diversas áreas do conhecimento. Você pode fazer os cursos simplesmente para ampliar seus conhecimentos, como também para receber um certificado. Vale a pena dar uma olhada em seu catálogo.

Faça algum trabalho voluntário.

Você sempre pensou em se enagajar em alguma causa social ou política e nunca teve tempo? Enquanto você espera seu visto sair, pode ser o momento perfeito para você fazer isso. Além de te dar um outro foco, isso vai te proporcionar vivências e uma oportunidade valiosa de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. Busque associações, ONGS e causas locais para se engajar. A experiência é valiosa e ainda é uma forma de você entrar em contato com a comunidade que te acolhe e de criar vínculos no novo país.

– Aprenda a língua local ou algum outro idioma.

Aprender a língua local pode ser um desafio importante, que possibilitará maior independência e uma participação na vida da cidade de forma mais ampla. Além disso, nos próprios cursos que você fizer, pode conhecer outras pessoas e histórias de migração e, assim, constituir os seus primeiros vínculos no novo local. Isso também vai te ajudar a ampliar a perspectiva sobre os desafios e desejos que te conectam com o lugar onde você está.

– Conheça a cultura local.

Nos nossos novos lugares, podemos lançar um olhar atento a como são os hábitos, os valores e costumes locais. Podemos fazer descobertas belas e inusitada! Por exemplo, em Hamburgo, saber que todo sábado tem uma das maiores feirinhas de orgânicos do mundo debaixo de um viaduto (Isemarkt) ou então que uma comida de rua super típica da cidade é um sanduíche de peixe cru, com pele e tudo (Fischbrötchen)!

Sorrir e se surpreender ao conhecer o diferente ou reconhecer semelhanças podem ajudar a aumentar a sensação de pertencimento por perceber onde se está (e quando ligar para familiares ou receber amigos, poder contar “onde eu moro é assim”).

Aproveite para passear, visitar museus, andar por aí sem destino admirando as paisagens. Assim que o seu visto sair, a situação pode mudar e esses momentos de simples conexão com o lugar, um dia-a-dia leve, podem se tornar raros.

Esperamos que essas dicas sirvam de inspiração para vocês. No entanto, precisamos relembrar da dica mais importante de todas: tenha paciência.

O fato de que é possível ocupar nosso tempo com atividades diferentes como forma de controlar nossa ansiedade, não significa que a gente deva fazer isso o tempo todo. Lembre-se de que, na primeira fase da migração, essa pressão que sentimos para absorver tudo e a necessidade de nos ocuparmos o tempo inteiro é real. Porém, nossa psique também precisa de um descanso e espaço livre para se organizar. O ideal é encontrar um equilíbrio: nos mantermos em atividade, mas também preservarmos um espaço para deixar que as coisas aconteçam em seu tempo.

Neste processo de esperar por algo que não está nas nossas mãos, podemos sentir receio de não dar certo. Por isso, pode ser difícil nos envolvermos em novas atividades e relacionamentos, além de sermos guiados pela premissa: “depois que der certo, eu vou…”. Isso pode ser uma condicional dura e que inviabiliza apreciar e valorizar os pequenos passos diários de descobertas e superações.

Dito isto, finalizamos esse texto com um trecho que Guimarães Rosa escreveu em seu último livro publicado em vida: “a felicidade se acha em horas de descuido”. Durante a espera, pode haver vida, conexão, esperança e a brincadeira. Aproveite cada instante!

*Por Dani Stivanin

*Revisado por Cris Oliveira e Lali Souza

Imagem de destaque: Pexels por Pixabay

Canções de Migração: Retrovisor

Quem conhece o Continuidade, sabe que as Canções de Migração são temas que a gente adora trazer por aqui. Hoje, essa reflexão é ainda mais especial, porque vamos falar de uma música composta por amigos queridos. Retrovisor é uma criação de Têco Lopes, Eduardo Lubisco e Daniel Castelani, e nos faz pensar sobre as idas e vindas na vida do migrante, seja de pessoas ou até mesmo de sentimentos.

Quando ouvi Retrovisor pela primeira vez, pensei: “eu poderia ter escrito essa música”. Ela reflete exatamente como me sinto ao pensar nas coisas e nas pessoas que ficaram lá em casa, depois que eu decidi viver em outro pais. É uma nostalgia gostosa, que faz brotar um sorriso só de pensar nas tantas histórias vividas.

Pessoas pela vida afora

Algumas passam

E outras ficam

Tenho saudades até das brigas

Pessoas pela vida adentro

Algumas chatas

Já outras, exatas

Guardo no peito, pessoas amigas

A música segue e vem o aconchego de pensar que, apesar da saudade, tanta coisa (e tanta gente) boa veio junto com o novo lar. É importante não se deixar cegar pela saudade. Como eu disse, a nostalgia é até gostosa, mas ela deve somar com que é novo e não te prender ao passado (que muitas vezes nem era tão perfeito assim, né?).

Há lugares desconhecidos por nós dois, e eu corto a estrada

Tantas vidas, tantos rumos e eu não vejo nada

Ser imigrante também é juntar os caquinhos e seguir adiante. É encontrar força para continuar, mesmo quando a vontade de voltar para o quentinho do quarto é gigantesca. Por isso, o meu conselho é: busque essa força nos alicerces que você tem, mas siga adiante. Olhar para trás é uma excelente forma de aprender, mas é para frente que a vida anda.

A voz rouca de um velho amigo

Raras chegadas, e tantas partidas

Acelero mais, olho pra trás

No retrovisor, tantas despedidas

Depois do falatório vem a parte mais legal: curtir o som! Clica no link abaixo para ouvir Retrovisor e conhecer o time massa que fez essa música acontecer.

*Por Lali Souza

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FICHA TÉCNICA RETROVISOR

Composição:

Daniel Castelani, Eduardo Lubisco e Têco Lopes

Músicos:

Têco Lopes: voz e guitarras base

Lali Souza: voz

Luiz Caldas: guitarra solo

Luciano Leães: órgão hammond

Eduardo Lubisco: violão

Maul Beisl: baixo

Peu Deliege: bateria

Mixado e masterizado por Irmão Carlos no Estúdio Caverna do Som

Histórias de Migração: Daniele Stivanin

Olá! Moin Moin! (como dizemos de forma bem simpática e cantada aqui no Norte da Alemanha!).  Eu sou Daniele Stivanin, sou mineira de Poços de Caldas e estou morando em Hamburg, na Alemanha, há 02 anos. Nós aterrissamos aqui depois de muito pensar e desejar vivenciar outros estilos de vida e de uma boa oportunidade profissional que nos deu a possibilidade de escolher as terras germânicas como novo lar.

Colocamos dentro da mala, as nossas expectativas, ansiedades, dores e sonhos e mais algumas coisas queridas que nos lembrariam da nossa casa e dos nossos trabalhos no Brasil. Com uma saudade já antecipada, eu e meu esposo nos demos as mãos, e sentimos que não estamos entrando em um avião, mas sim topando pular de paraquedas.  Lá vamos nós!

Chegando aqui, encontramos uma rede de brasileiros, primeiramente da própria empresa (eram 05 casais), com os quais podíamos dividir as novas descobertas (como alugar um apartamento e dar conta dos documentos com tantos nomes diferentes). Juntos fizemos declarações de amor à IKEA, somamos os braços para carregar e montar os novos móveis, dividimos os receios e as saudades, e nos reunimos para brindar, conversar e cozinhar.  Encontramos amparo para iniciar a nossa caminhada e não nos sentirmos sós. E destes amigos, vieram outros tão queridos. A internet também nos ajudou muito a encontrar novos grupos e projetos por aqui. E como isso tem nos fortalecido!

O Continuidade foi um grande apoio, com as falas no podcast que me acompanhavam nas minhas caminhadas, ampliando o meu foco e me ajudando a nomear os inúmeros sentimentos e pensamentos.  Em seguida, vieram as trocas no workshop entre mulheres imigrantes, que me ajudaram a ampliar demais as minhas perspectivas e o meu aconchego. Seguimos juntas através do grupo de whatsapp e de outras trocas virtuais (que espero que em breve sejam presenciais também!). E agora, com uma felicidade sem fim, me somo à equipe!

Com essas redes  de apoio, me senti mais fortalecida para vivenciar alguns desafios, como não saber como as coisas funcionam, os costumes, não conhecer a língua e ver o alcance de se comunicar, opinar, e se explicar muito limitados, assim como algumas possibilidades de lazer que gostava tanto (como cinema, teatro, etc). Porém, tudo bem, hoje já conheço um pouco mais o funcionamento das coisas (embora tenha muito ainda para aprender) e com o tempo vamos nos desenvolvendo na língua e na participação social aqui.

Acho que já somos felizes e gratos por já ter aprendido tanto, por ver as nossas habilidades sociais e emocionais e o conhecimento de mundo (externo e interno) sendo refinados com essas experiências. Eu revi tantas coisas nestes últimos dois anos, de valores, história e perspectivas, que eu já não sou mais a mesma. Isso é um ganho permanente da imigração para mim!

Tanto que me sinto conectada com aqui, talvez porque me conectei aqui dentro. Espero estar aqui por um bom tempo, viver a vida, sabe, e cada vez mais pegando o jeito, escorregando no alemão, em alguns combinados sociais e culturais que não conheço, mas seguindo em frente. E no caminho, desejo encontrar satisfações, resiliência, condições de me desenvolver, de ter segurança no espaço público e ter um estilo de vida mais simples e orgânico, de me reencontrar profissionalmente e ampliar a minha rede de contato social. Desejo me sentir vivendo e participando da sociedade em que vivo. Sempre acompanhada da minha rede do Brasil, dessa terra que me tornou quem eu sou. E agora com refinamentos e com o coração já dividido entre os dois lares que temos, um brasileiro e um alemão!

Se precisasse usar uma única palavra para resumir a minha história de migração, acho que seria esperança. Acho que ela aquece o meu coração desde o primeiro frio na barriga da possibilidade de vir e quando acordo todas as manhãs aqui e escuto “ Moiinn” cantandinho!

Eu sou Daniele e essa é a minha história de migração. Qual é a sua?

As Capitais do Nordeste

Na semana do aniversário da cidade de São Paulo, a revista Veja, em sua edição local, apareceu com uma capa que acabou não homenageando paulistas e ofendendo nordestinos. A reportagem, que tentou fazer uma reverência às contribuições de uma nova geração de migrantes nordestinos à maior capital do Brasil, terminou por deixar um gosto amargo em sua ação ao fazer um retrato do Nordeste que o próprio nordestino não reconhece e por falhar em reconhecer a diversidade real da região que tentaram galantear. Isso revelou, no entanto, uma valiosa oportunidade de refletirmos sobre estereótipos, preconceitos e migração dentro de nosso próprio país.

Antes mesmo de ler a reportagem, a gente já consegue se chocar pela capa. O título da reportagem “A capital do Nordeste” já demonstra uma falta de reconhecimento à grande diversidade da região Nordeste. Falar de Nordeste como se fosse uma coisa só é tão problemático quanto falar da África como se fosse um único país. É impressionante como esse discurso ainda está impregnado na nossa forma de falar.

Nos episódios 7 e 9 da segunda temporada do Continuidade Podcast, falamos justamente sobre estereótipos e preconceitos na migração.

Clica pra ouvir: Episódio 7 – Parte I / Episódio 9 – Parte 2

O Nordeste é uma região plural e diversa, que ocupa 18% da extensão territorial do país e que incorpora 9 estados muito distintos entre si. O nordestino é rural, sertanejo, praieiro e urbano. A região abriga costumes, ritmos, culinárias, climas e falares diferentes em seus estados (e também dentro deles!). Cada um tem a sua cultura e a sua capital, das quais seus habitantes têm orgulho e que os diferencia dos demais. Tentar definir uma capital para essa região – pior ainda se essa cidade está fora dela – é ignorar toda a diversidade que ela tem dentro de si. É anular o seu protagonismo dentro da sua própria identidade.

Mas esse não é o único problema dessa “homenagem”. A reportagem se baseia em um modelo de “migração que deu certo”. Quem são os nordestinos e as nordestinas que aparecem nessa capa? Pessoas de “sucesso”, donas de startups, chefs, empresárias. Todas são pessoas, atualmente, ocupam um lugar de prestígio social e, em sua maioria, de pele clara.

É grave passar a mensagem de que esse é o tipo de migração que deu certo. Onde estão os nordestinos assalariados que vivem nas periferias da cidade? Onde estão os operários e as operárias que trabalham duro para manter a metrópole funcionando? O nordeste representado na capa não corresponde à maioria migrante dessa região. E mais: alcançar riqueza material não deve ser o único caminho para o sucesso, para “dar certo”.

Antes de se autointitular “A Capital do Nordeste”, seria interessante saber quantos nordestinos de fato se sentem em casa nessa “sua” capital. Será que a cultura local é tão receptiva e acolhedora a ponto de fazer com que essas pessoas tenham um sentimento de pertencimento ao local? Será que o ser nordestino pode encontrar reconhecimento na sua capital do Sudeste mesmo que ele não seja empresário e que não tenha tanta escolaridade? A interculturalidade pode ser uma coisa maravilhosa e enriquecedora, mas, para isso, pressupõe uma troca, uma via de mão dupla e um conhecimento mais profundo de todas as culturas envolvidas. Quanto ao Sudeste, ele realmente conhece o Nordeste?

*Por Cris Oliveira

*Revisão e contribuições de conteúdo: Daniele Stivanin e Lali Souza

Imagem de destaque: site Amigos Nordestinos

Perspectivas para 2021

Depois da surpresa impactante que 2020 nos trouxe, devemos ter muita cautela com os planos e a empolgação com os projetos para 2021. Ainda assim, sabemos que a esperança é um elemento central na migração e, por isso, não podemos deixar de sonhar, planejar e projetar algumas expectativas para esse ano. Vamos com cuidado, mas vamos!

É nesse clima que compartilhamos com vocês alguns de nossos planos e desejos para 2021:

  • O ano passado nos obrigou a buscar formas diferentes de nos conectarmos. Sendo assim, aulas e eventos online passaram a fazer parte da normalidade. Claro que nós não poderíamos ficar de fora e também temos pensado em eventos que podemos oferecer este ano para nos mantermos conectadas com vocês, ouvintes e leitoras/es. Isso nos leva diretamente para o segundo ponto.

Nos mantermos conectadas é fundamental para superarmos as dificuldades, sejam elas geradas pela migração ou por uma pandemia inesperada. O fato de ainda termos que ter cautela e manter o distanciamento social fisicamente não nos impede de nos mantermos juntas/os através das tecnologias que estão disponíveis para nós. Mas nos conectarmos com quem? Há tanta gente produzindo conteúdo de qualidade sobre migração que, muitas vezes, esse pessoal acaba passando despercebido pelo nosso radar. Criar uma rede para indicar pessoas, grupos ou associações e ajudar a divulgar os trabalhos desses profissionais é uma das nossas missões para 2020. Assim, esperamos fazer com que cada vez mais pessoas consigam o apoio que melhor se encaixa aos seus perfis e necessidades.

Imagem: Gerd Altmann por Pixabay.
  • Outro plano do Continuidade para este ano é chegar ainda mais perto de vocês, que nos acompanham. Queremos ouvir e ler suas histórias, saber quais temas lhes interessam, incomodam e despertam a curiosidade. Que tal nos escrever sugerindo temas para os episódios e para o nosso site?  Com certeza, todo mundo vai sair ganhando com essa troca. Eis aqui algumas formas de participar:

– Conte sua história de migração.

– Indique intituições e projetos que lidam com a temática da migração e do empoderamento de pessoas migrantes.

– Sugira temas relacionados à migração.

– Indique filmes, livros, músicas, séries, cursos, palestras e eventos que tratem dessa temática.

  • Queremos fazer do Continuidade um espaço nosso, coletivo. Um acalanto para pessoas migrantes com as suas mais diversas biografias. Para isso, também esperamos fazer muitas parcerias durante este ano, para que possamos chegar a novas pessoas. E nós contamos com o seu apoio para amplificar nossas vozes, compartilhando nosso conteúdo e espalhando as palavras do Continuidade por aí.

No final das contas, o maior desejo do Continuidade para este ano, o desejo que está na base de tudo, é que a gente consiga ter um ano com muita saúde, informação e leveza. Vem fazer o Continuidade junto com a gente!

*Por Cris Oliveira

Imagem de destaque: Free-Photos por Pixabay.

Feliz Natal!

O Continuidade Podcast entra também no espirito natalino e gostaria de desejar uma celebração de muita amorosidade com o próximo e de muitos abraços virtuais. Que os desafios enfrentados até agora possam nos fortalecer para entrarmos em 2021 com toda garra e coragem para viver as alegrias que estão por vir.

A gente vai também se recolher nas próximas semanas, para voltar em 2021 com toda energia para preparar episódios surpreendentes!

Nos vemos em 2021!

Canções de Migração: Na Volta Que o Mundo Dá

A canção Na Volta Que o Mundo Dá, que conhecemos na voz da cantora Vânia Abreu, parece ter sido feita para o Continuidade. A letra é linda e faz quase que um resumo das fases da migração, das quais a gente tanto falou nos primeiros episódios do nosso podcast.

A música retrata uma migração voluntária e começa falando daquele sentimento que, muitas vezes, não sabemos muito bem de onde vem. É aquele “chamado”, uma vontade de experimentar viver em outro lugar.

Um dia eu senti um desejo profundo

De me aventurar nesse mundo

Pra ver onde o mundo vai dar

Ao chegar no destino, é comum vivermos uma euforia deliciosa com as novas experiências. O novo pode ser bastante sedutor e a sensação de realizar um sonho é mesmo muito gostosa.

Pisei muito porto de língua estrangeira

Amei muita moça solteira

Fiz muita cantiga por lá

Varei cordilheira, geleira e deserto

O mundo pra mim ficou perto

E a terra parou de rodar

Passada a euforia inicial, vêm as dificuldades. É quando a realidade bate na porta e, muitas vezes, traz consigo a vontade de voltar para o que nos é familiar. Nesta fase, sempre alertamos sobre a importância de ter atenção aos nossos sentimentos e de buscar ajuda, se necessário. Mesmo que a tristeza seja algo normal e parte da vida, lembre-se que você não precisa enfrentar o mundo sozinha(o).

Com o tempo

Foi dando uma coisa em meu peito

Um aperto difícil da gente explicar

Saudade, não sei bem de quê

Tristeza, não sei bem por que

Vontade até sem querer de chorar

O luto na migração, como já vimos, pode vir de muitas formas. A dor de se sentir não pertencente a lugar nenhum pode ser uma delas. A gente fica meio perdido porque ainda não se sente em casa no país de acolhida, mas também percebe que já não se encaixa no lugar de onde viemos.

Angústia de não se entender

Um tédio que a gente nem crê

Anseio de tudo esquecer e voltar

Com o tempo (e com ajuda!) a gente espera que essas dores melhorem e que a gente possa, finalmente, chamar de lar o lugar onde escolhemos viver. Mesmo que esse lugar seja o mundo inteiro.

Agora aprendi por que o mundo dá volta

Quanto mais a gente se solta

Mais fica no mesmo lugar

Na Volta que o Mundo dá é uma canção de autoria de Vicente Barreto e Paulo César Pinheiro e, em 1988, foi gravada pela cantora Mônica Salmaso no seu disco Trampolim. A versão de Vânia Abreu foi gravada em 1999 e faz parte do disco Seio da Bahia.

Aperta o play pra ouvir Vânia Abreu cantando Na Volta Que o Mundo Dá!

10 perguntas para reavaliar seu ano e seguir em frente

Escrevi esse texto no início de 2019, quando nem sonhava com as reviravoltas e os desafios que 2020 traria! E ele segue tão atual que resolvi compartilhá-lo por aqui também. Espero que essas dicas sejam úteis para o seu ano novo. Boa leitura!

Mais um ano vem aí e promete ser conturbado. Todo ano faço questão de fazer meus rituais para alimentar em mim mesma a motivação de encarar os novos 365 dias como um ciclo cheio de oportunidades de crescimento. Ao longo dos anos, desenvolvi (tanto sozinha como com um grupo de amigas) uma série de exercícios para o final e início de ano que me ajudam a me manter focada durante o ano inteiro. Este ano resolvi primeiro fazer um balanço do que passou para melhor conseguir seguir em frente. Já vinha pensando nisso há um tempinho, quando um podcast me ofereceu uma ferramenta espetacular para realizar essa reflexão.

Imagem: Pixabay

O podcast Happy, Holy and Confident, que, apesar do nome em inglês, é em alemão, trata de temas relacionados à espiritualidade, equilíbrio emocional e desenvolvimento pessoal. Sua criadora, a coach Laura Malina Seiler, conta que uma amiga lhe ensinou este ritual que ela sempre realiza no dia de seu aniversário. Ele consiste em 10 perguntas que o membro mais velho da família faz ao aniversariante, que, por sua vez, tenta responder da forma mais sincera possível.

Eu achei a ideia fantástica, por isso fiz umas pequenas adaptações e agora acho que ele pode ser aplicado ao início de qualquer novo ciclo para relembrar e refletir sobre o que passou e determinar novos objetivos. Sendo assim, aqui estão 10 perguntas que podem nos ajudar a fazer uma avaliação pessoal de nosso 2020 e nos ajudar a ter clareza de para onde devemos dirigir nossa atenção em 2021. Eu sugiro que você pegue papel e caneta e anote suas respostas. Assim sempre poderá voltar a elas quando sentir que está perdendo o foco à medida que o ano for avançando.

Imagem: Pixabay

10 Perguntas para avaliar 2020 e achar sua direção para 2021

1. Quais foram minhas constatações mais importantes no ano que passou?
2. Pelo que eu posso agradecer?
3. Do que eu posso me orgulhar? 
4. Quais foram minhas decisões mais importantes?
5. Como foi meu relacionamento comigo e com as pessoas?
6. O que eu faria diferente se pudesse?
7. O que eu desejo para o novo ano?
8. Para o que eu quero contribuir este ano?
9. Para que eu gostaria de ter mais tempo?
10. O que eu gostaria de aprender?

Respire fundo e reserve tempo para responder com calma. Se for difícil, responda uma pergunta por dia para que você não se sinta sobrecarregada ou sobrecarregado com tanta reflexão de uma só vez. Se, com o passar do tempo, você se lembrar de mais coisas que não lhe ocorreram no início, não faz mal, simplesmente adicione o que lembrou à sua resposta. Você não precisa mostrar isso a ninguém já que se trata de um guia pessoal para começar o ano com o foco em seu próprio desenvolvimento. Encare suas respostas como um diálogo íntimo com você mesma ou com você mesmo e divirta-se com isso. 

Eu adoro rituais de fim de ano e de ano novo. Vocês tem algum? Como é? Me contem aí?

Pra quem entende alemão, aqui vai o podcast de Laura Malina Seiler. É uma injeção de ânimo e inspiração: https://lauraseiler.com/

*Por Cris Oliveira

*Este texto foi revisado por Marina Hatty e adaptado para 2020/2021 por Lali Souza.

*Imagem de destaque:  Free-Photos por Pixabay