Ser Mulher

Nesta semana comemoramos o Dia Internacional das Mulheres. Além das famosas rosas que são entregues nesta data, este dia nos lembra a luta de muitas mulheres que vieram antes de nós, as dores, os avanços e os papéis que podemos e queremos desempenhar, inclusive na imigração.

O dia 08 de março relembra a luta de mulheres operárias, que antes tinham poucas possibilidades de ter um papel social e laboral fora de casa. Quando elas foram para as fábricas, se depararam com horas exaustivas de trabalho e condições muito precárias para exercê-lo. Ao reivindicarem melhorias e direitos, tiveram uma forte resistência, inclusive com uma represália que causou a morte de muitas delas. Esse fato tornou a data um dia mundial de lembrar as lutas que tanto desejamos e o quão necessárias elas são.

Tiveram lutas antes, como por exemplo, de ter concepções ou habilidades diferentes, e serem consideradas “bruxas” ou “loucas”. Depois disso, tiveram que lutar para votar (e em alguns lugares, isso é um direito recente ou ainda não é concedido), de escolherem seus rumos sobre os relacionamentos, sobre ter filhos (quando e se querem tê-los), de serem aquelas que dizem o que pode ou não ser feito com os seus corpos (e serem escutadas) e de desejarem ser quem quiserem (e da forma que quiserem).

Huelga Feminista Madrid, 8 de Março de 2020 | Foto: Lali Souza

Nestas mudanças, desejos, dores e lutas, muito foi conquistado, embora ainda tenhamos muito de construir em um caminho de mais equidade nas empresas, na política e em casa, no respeito e na diminuição dos índices de violência contra a mulher. Enquanto isso somamos a este turbilhão de sentimentos, desejos e realidade, as representações sobre o que é ser mulher, que fomos aprendendo desde o que era falado e autorizado nas nossas famílias de origem e nas nossas comunidades, e o que aprendemos em seguida nos diversos grupos que participamos. Inclusive no contato com uma nova cultura, no caso da imigração.

A imigração pode trazer formas diferentes de ver o ser mulher, se comparado com o país de origem, com ampliação dos direitos ou ainda mais restrições. A vida no interior da casa também pode ser alterada, quando, por exemplo, um do casal vem empregado e o outro precisa construir habilidades com a língua e validar a sua experiência profissional, para se inserir no mercado de trabalho ou nos estudos no novo país. E isso sem contar com as redes de suporte que antes conhecia. Neste momento, pode vir o medo de estar “dando passos para atrás” ao ser “responsável” pelas casas e pelos filhos ou não ter atividade remunerada. E isso é ser menos mulher?

Nós, aqui, consideramos que ser mulher autêntica é ser a mulher que lhe faz sentido, que cabe ao seu momento e que pode ser tão valioso como ser nomeada CEO de uma empresa. Por exemplo, se a escolha é desprender os esforços em cuidar do seu filho, que representa cuidar de um novo cidadão ou nova cidadã, isso não é um papel e tanto? Dar um tempo para se adaptar no novo país, considerando as condições financeiras da família, também pode ser uma opção de respeito consigo. E muitos outros exemplos que vocês e nós poderíamos citar aqui, sem julgamento ou avaliando com olhos de quem classifica o que é válido ou vale mais.

As lutas feministas aconteceram e acontecem para que o poder de escolha seja real, validado e autêntico para cada um. E é isso que desejamos a nós todas neste dia: que a gente continue caminhando, pessoalmente e como comunidade, para garantir o direito de ser quem se é e da forma que desejar, e ser respeitada (e respeitar). Que todas nós possamos completar a nossa apresentação “brasileira (ou do país que for), imigrante e …” com tranquilidade e sendo acolhida e valorizada da forma que somos (inclusive por nós mesmas). 

*Por Daniele Stivanin

Imagem de destaque: Aryl Irudayam

Episódio #75 Multilinguismo na educação de crianças binacionais

No episódio desta semana conversamos sobre como é educar os filhos que estão crescendo em um ambiente multilíngue. Uma situação que oferece um tremendo desafio que muitas vezes vem acompanhado de inúmeras dificuldades e exigências especiais para toda a família.

Ressaltamos também as oportunidades que o multilinguíssimo oferece, principalmente na construção de uma identidade multicultural.

Você pode ouvir o podcast Continuidade em qualquer plataforma digital, escolhe uma e segue a gente:

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Episódio# 74 Continuidade Profissional: Flora

No episódio de hoje, Florinha nos conta como foi a sua trajetória para reconhecer seu diploma de Psicologia na Alemanha. Se você estudou Psicologia no Brasil e está morando no exterior ou pensando em ir morar fora, esse episódio vai traz algumas dicas do que esperar quando migrar e como se preparar para o reconhecimento de seu diploma.

Esse episódio faz parte de uma série que queremos manter aqui no nosso podcast, chamada Continuidade Profissional. Nessa série, queremos trazer informações sobre o reconhecimento de diplomas e o mercado de trabalho nas mais diversas profissões. Clica no play e vem escutar essa conversa.

Indicações:

Podcast: Diário da Sacerdotisa

Brochura do Bamf (Bundesamt für Migration und Flüchtlinge) em português.

https://www.bamf.de/SharedDocs/Anlagen/DE/Integration/WillkommenDeutschland/willkommen-in-deutschland_pt.pdf?__blob=publicationFile

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Giro pelo Mundo: Buenos Aires

Ao falar de Buenos Aires, começo pela minha avenida preferida: Corrientes. As primeiras quadras, especialmente as que estão entre as Avenidas 9 de Julio e Callao, são cheias de cafés, livrarias e cinemas. Quando chegar no cruzamento da Corrientes e 9 de Julio, verá o Obelisco, importante símbolo da cidade. Interessante que não é o centro geográfico de Buenos Aires, mas é o centro social, por assim dizer. Dali, é muito fácil mover-se, pois tem acesso a várias linhas de metrô e ônibus, é só escolher o seu destino e embarcar!

É possível desbravar Buenos Aires caminhando e isso é muito agradável! A maioria das ruas têm calçadas largas e são muito arborizadas. Além disso, como a cidade é basicamente plana, andar não cansa muito.  

Fim de semana

Vem passar um fim de semana em Buenos Aires? No sábado, uma boa pedida é o Palermo. Hoje em dia, é uma espécie de “shopping a céu aberto” com um monte de coisas pelos “zói da cara”, mas é um passeio legal mesmo assim, porque, além das lojas, tem bares, restaurantes, cafés e feirinhas de jovens designers e artesãos. O bairro em si é super agradável, combina arquitetura antiga e moderna, e fica bem movimentado. Qualquer dia à noite, na Plaza Serrano e seu entorno, vale a pena conhecer os bares, alguns com mesas na calçada. Durante a noite fica bastante movimentado, especialmente nos fins de semana (antes da pandemia, é claro).

Ainda em Palermo, tem o jardim botânico, que é lindo. Ele é cheio de árvores e gatos e fica bem no meio da cidade. Tem também os bosques de Palermo, onde fica o planetário (que parece um disco voador), o Rosedal (uma praça com rosas de todo tipo e espécie!), o jardim japonês (andava meio decadente quando eu fui, não sei como está agora). Esses são passeios bem tranquilos, coisas de caminhar e ver, sentar pra comer um sanduíche ou, como os argentinos, tomar um mate (chimarrão).

San Telmo, Buenos Aires / Foto:  Luis Petrini

No domingo, eu recomendaria um passeio em San Telmo. Nos fins de semana, acontecem feiras de antiguidade pelo bairro e está sempre cheio de gente, argentinos e turistas. Não tem muita coisa para comprar, a ideia é ver o movimento mesmo. Na Plaza Dorrego, depois que desarmam a feira (por volta das 17h), rola um show de tango e um monte de velhinhos vão dançar alíi mesmo, no meio da praça. É lindo de ver! Você também pode ir a La boca pela manhã e depois seguir pra lá, que é pertinho.

Gastronomia

Se for a La Boca, sugiro aproveitar para comer um choripan comprado na rua mesmo! Choripán é o cachorro-quente argentino: uma linguiça de churrasco cortada ao meio dentro de um pão francês! Geralmente se coloca um molho chamado chimi-churri, que é uma delícia!    

Choripan / Foto: Amigos Foods.

Já sobre restaurantes, a melhor dica que eu posso dar é: preste atenção se o lugar é frequentado por argentinos e não só por turistas. Os argentinos gostam de comer bem. Se o restaurante estiver cheio deles, a comida deve ser boa!

Ah! Se for comer uma das tradicionais pizzas, peça também uma fainá: massa de grão de bico. Aqui é o único lugar do mundo onde eu vi alguém comer pizza com acompanhamento, então, vale a pena pedir para conhecer! Faz assim: come um pedaço de cada ao mesmo tempo! Algumas pizzarias até  servem a fainá já em cima da pizza.

Outra dica importante, ainda no tema gastronômico: vá a uma sorveteria.Os sorvetes argentinos são maravilhosos! A sorveteria mais famosa da cidade é a Pérsico, seguida da Freddo, mas tem milhares de sorveterias artesanais espalhadas pela cidade. Se prefere uma dica mais “local”, eu recomendo uma sorveteria de bairro, chamada La Gruta. O sabor dulce de leche granizado é um clássico daqui.

Falando em doce de leite, cabe lembrar que os argentinos sentem muito orgulho pelos doces de leite deles. E com razão! Apesar dos alfajores Havanna serem os mais famosos, há outros tão ou mais gostosos – e mais baratos – em qualquer kiosko. Como boa amante de um doce, não posso deixar de recomendar os havanettes, que são uns cones de chocolate recheados de doce de leite. Uma delícia!

Tango

Vamos falar de tango? Uma boa dica é decidir com antecedência se vai querer ir a um dos shows tradicionais, como os que servem jantar antes do show, porque é necessário reservar. Esses são bem como uma peça de teatro, tipo Broadway, geralmente com cantores e banda ao vivo, além dos bailarinos. Tem de todos os preços, a depender do luxo da comida e do espetáculo, claro. Nunca provei, mas ouvi dizer que a comida não costuma ser lá grande coisa.

San Telmo, Buenos Aires / Foto:  Luis Petrini

 Se a ideia é dançar, uma boa opção são as casas de milonga, como La Viruta (http://www.lavirutatango.com/). São salões frequentados por gente que gosta de dançar, quase como uma espécie de “boate de tango”. Elas oferecem aulas de tango também.

Para os amantes do tango, recomendo também o boteco “Lo de Roberto”. Lá, você vai ouvir uns senhores cantando tango a plenos pulmões, acompanhados de violões. É uma experiência super interessante e todos escutam como se estivessem numa missa. É de arrepiar!  

Museu

O museu que eu mais gosto é o Malba, de arte latino-americana. O Abaporu, de Tarsila do Amaral, faz parte do acervo permanente.

Outro museu que amo e recomendo a visita é o Bellas Artes. Ele tem entrada gratuita e uma excelente coleção de arte moderna no segundo andar. De lá, ainda dá para caminhar em direção à Recoleta, onde está o famoso cemitério com o corpo de Evita Perón, além de uma feira de artesanato aos domingos.

Centro

Ah! Pra finalizar, não esqueça de visitar também a parte mais central de Buenos Aires, onde está Casa Rosada, e de caminhar pela Avenida de Mayo até a Praça do Congresso. Essa região é linda! As fachadas são incríveis, então, sugiro dar uma olhada para cima e conferir toda a beleza. É nessa região que fica o famoso Café Tortoni, que é mesmo muito bonito, mas já adianto: atendimento péssimo e muito caro.

Você já foi a Buenos Aires? Compartilhe com a gente as suas dicas imperdíveis para curtir a cidade!

*Por Silvia Ornelas

*Editado e revisado por Cris Oliveira, Daniele Stivanin e Lali Souza

Imagem de destaque: julian zapata por Pixabay.

Episódio #73 Decepções amorosas na migração

No episódio desta semana conversamos sobre relacionamentos interculturais com o foco nas decepções e dificuldades que brasileiros/as podem enfrentar em seus relacionamentos com seus/suas parceiros/as. 

Abordamos além das divergências interculturais, temas importantíssimos como comportamento abusivo e outras expressões de violência dentro dos relacionamentos. Ficou um episodio bem informativo que pode ajudar muitos/as migrantes com problemas conjugais.

Cris e Flora indicaram:

Conselhos de Cidadania, por exemplo, o de Zurique:

https://conselhozurique.wixsite.com/cdczurique

Buscar ajuda para questões do relacionamento intercultural na Binationaler Partnerschaft Verband e.V.

https://www.verband-binationaler.de/

O livro Amores Internacionais: Casei com um Estrangeiro e Agora de Liliana Bäckert.

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Fonte: http://incompetech.com/music/royalty-free/index.html?isrc=USUAN1100563

Artista: http://incompetech.com/

O que fazer enquanto o visto de trabalho não sai? 4 dicas para aproveitar o tempo e acalmar a ansiedade.

Em muitos países para onde migramos, não é possível começar a trabalhar imediatamente por vários motivos. Muitas vezes, o novo país tem uma língua oficial diferente da nossa e as oportunidades de trabalho podem ser fortemente ligadas ao domínio do idioma local. Em muitos casos, também, nossos diplomas e qualificações do país de origem precisam passar por um processo de reconhecimento oficial antes que possamos, realmente, nos aventurarmos na busca de emprego. Além de tudo isso, outras vezes ainda precisamos esperar sair algum tipo de autorização de trabalho.

Todos esses processos, por serem muito burocráticos, podem demandar bastante tempo, o que acaba se tornando um grande desafio para a pessoa imigrante: ter paciência para esperar as coisas acontecerem. Isso pode ser ainda mais difícil para pessoas que migram em busca de melhores condições de trabalho, de carreira ou de estudos.

Sabemos que essa espera pode ser angustiante. Muita gente fica com a impressão de estar “parada” no tempo. Uma forma de controlar essa ansiedade é tentar uma mudança de perspectiva e lançar o olhar para uma série de coisas que podemos fazer enquanto esperamos.

Neste texto, trazemos algumas sugestões do que fazer enquanto as situações burocráticas ainda não se resolveram. Eperamos que, com isso, possamos dar uma controlada na sensação de estagnação que essa fase da migração pode gerar.

– Faça cursos.

Imagem: StockSnap por Pixabay

Existe uma oferta infinita de cursos online que podemos aproveitar. Muitos até são gratuitos! Enquanto a gente espera nosso visto sair, é possível nos especializarmos, mudar o foco e aprender coisas novas. A oferta é tão ampla que, hoje em dia, a maior dificuldade é escolher que curso fazer. A plataforma Coursera, por exemplo, tem centenas de cursos em parceria com diversas universidades internacionais, nas mais diversas áreas do conhecimento. Você pode fazer os cursos simplesmente para ampliar seus conhecimentos, como também para receber um certificado. Vale a pena dar uma olhada em seu catálogo.

Faça algum trabalho voluntário.

Você sempre pensou em se enagajar em alguma causa social ou política e nunca teve tempo? Enquanto você espera seu visto sair, pode ser o momento perfeito para você fazer isso. Além de te dar um outro foco, isso vai te proporcionar vivências e uma oportunidade valiosa de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. Busque associações, ONGS e causas locais para se engajar. A experiência é valiosa e ainda é uma forma de você entrar em contato com a comunidade que te acolhe e de criar vínculos no novo país.

– Aprenda a língua local ou algum outro idioma.

Aprender a língua local pode ser um desafio importante, que possibilitará maior independência e uma participação na vida da cidade de forma mais ampla. Além disso, nos próprios cursos que você fizer, pode conhecer outras pessoas e histórias de migração e, assim, constituir os seus primeiros vínculos no novo local. Isso também vai te ajudar a ampliar a perspectiva sobre os desafios e desejos que te conectam com o lugar onde você está.

– Conheça a cultura local.

Nos nossos novos lugares, podemos lançar um olhar atento a como são os hábitos, os valores e costumes locais. Podemos fazer descobertas belas e inusitada! Por exemplo, em Hamburgo, saber que todo sábado tem uma das maiores feirinhas de orgânicos do mundo debaixo de um viaduto (Isemarkt) ou então que uma comida de rua super típica da cidade é um sanduíche de peixe cru, com pele e tudo (Fischbrötchen)!

Sorrir e se surpreender ao conhecer o diferente ou reconhecer semelhanças podem ajudar a aumentar a sensação de pertencimento por perceber onde se está (e quando ligar para familiares ou receber amigos, poder contar “onde eu moro é assim”).

Aproveite para passear, visitar museus, andar por aí sem destino admirando as paisagens. Assim que o seu visto sair, a situação pode mudar e esses momentos de simples conexão com o lugar, um dia-a-dia leve, podem se tornar raros.

Esperamos que essas dicas sirvam de inspiração para vocês. No entanto, precisamos relembrar da dica mais importante de todas: tenha paciência.

O fato de que é possível ocupar nosso tempo com atividades diferentes como forma de controlar nossa ansiedade, não significa que a gente deva fazer isso o tempo todo. Lembre-se de que, na primeira fase da migração, essa pressão que sentimos para absorver tudo e a necessidade de nos ocuparmos o tempo inteiro é real. Porém, nossa psique também precisa de um descanso e espaço livre para se organizar. O ideal é encontrar um equilíbrio: nos mantermos em atividade, mas também preservarmos um espaço para deixar que as coisas aconteçam em seu tempo.

Neste processo de esperar por algo que não está nas nossas mãos, podemos sentir receio de não dar certo. Por isso, pode ser difícil nos envolvermos em novas atividades e relacionamentos, além de sermos guiados pela premissa: “depois que der certo, eu vou…”. Isso pode ser uma condicional dura e que inviabiliza apreciar e valorizar os pequenos passos diários de descobertas e superações.

Dito isto, finalizamos esse texto com um trecho que Guimarães Rosa escreveu em seu último livro publicado em vida: “a felicidade se acha em horas de descuido”. Durante a espera, pode haver vida, conexão, esperança e a brincadeira. Aproveite cada instante!

*Por Dani Stivanin

*Revisado por Cris Oliveira e Lali Souza

Imagem de destaque: Pexels por Pixabay

Episódio #72 Entrevista com Heloísa /Faxina Podcast

Na entrevista deste mês, conversamos com Heloíza Barbosa, idealizadora do podcast Faxina. A paraense, que mora há mais de 30 anos nos Estados Unidos, é escritora, produtora e apresentadora. O podcast Faxina dá visibilidade a histórias que foram varridas pra debaixo do tapete. Aperta o play para ouvir a história da Heloíza e do seu lindo projeto.

Você pode ouvir o podcast Continuidade em qualquer plataforma digital, escolhe uma e segue a gente:

Home Base Groove de Kevin MacLeod é licenciada de acordo com a licença Atribuição 4.0 da Creative Commons. https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

Fonte: http://incompetech.com/music/royalty-free/index.html?isrc=USUAN1100563

Artista: http://incompetech.com/

Canções de Migração: Retrovisor

Quem conhece o Continuidade, sabe que as Canções de Migração são temas que a gente adora trazer por aqui. Hoje, essa reflexão é ainda mais especial, porque vamos falar de uma música composta por amigos queridos. Retrovisor é uma criação de Têco Lopes, Eduardo Lubisco e Daniel Castelani, e nos faz pensar sobre as idas e vindas na vida do migrante, seja de pessoas ou até mesmo de sentimentos.

Quando ouvi Retrovisor pela primeira vez, pensei: “eu poderia ter escrito essa música”. Ela reflete exatamente como me sinto ao pensar nas coisas e nas pessoas que ficaram lá em casa, depois que eu decidi viver em outro pais. É uma nostalgia gostosa, que faz brotar um sorriso só de pensar nas tantas histórias vividas.

Pessoas pela vida afora

Algumas passam

E outras ficam

Tenho saudades até das brigas

Pessoas pela vida adentro

Algumas chatas

Já outras, exatas

Guardo no peito, pessoas amigas

A música segue e vem o aconchego de pensar que, apesar da saudade, tanta coisa (e tanta gente) boa veio junto com o novo lar. É importante não se deixar cegar pela saudade. Como eu disse, a nostalgia é até gostosa, mas ela deve somar com que é novo e não te prender ao passado (que muitas vezes nem era tão perfeito assim, né?).

Há lugares desconhecidos por nós dois, e eu corto a estrada

Tantas vidas, tantos rumos e eu não vejo nada

Ser imigrante também é juntar os caquinhos e seguir adiante. É encontrar força para continuar, mesmo quando a vontade de voltar para o quentinho do quarto é gigantesca. Por isso, o meu conselho é: busque essa força nos alicerces que você tem, mas siga adiante. Olhar para trás é uma excelente forma de aprender, mas é para frente que a vida anda.

A voz rouca de um velho amigo

Raras chegadas, e tantas partidas

Acelero mais, olho pra trás

No retrovisor, tantas despedidas

Depois do falatório vem a parte mais legal: curtir o som! Clica no link abaixo para ouvir Retrovisor e conhecer o time massa que fez essa música acontecer.

*Por Lali Souza

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FICHA TÉCNICA RETROVISOR

Composição:

Daniel Castelani, Eduardo Lubisco e Têco Lopes

Músicos:

Têco Lopes: voz e guitarras base

Lali Souza: voz

Luiz Caldas: guitarra solo

Luciano Leães: órgão hammond

Eduardo Lubisco: violão

Maul Beisl: baixo

Peu Deliege: bateria

Mixado e masterizado por Irmão Carlos no Estúdio Caverna do Som

Histórias de Migração: Daniele Stivanin

Olá! Moin Moin! (como dizemos de forma bem simpática e cantada aqui no Norte da Alemanha!).  Eu sou Daniele Stivanin, sou mineira de Poços de Caldas e estou morando em Hamburg, na Alemanha, há 02 anos. Nós aterrissamos aqui depois de muito pensar e desejar vivenciar outros estilos de vida e de uma boa oportunidade profissional que nos deu a possibilidade de escolher as terras germânicas como novo lar.

Colocamos dentro da mala, as nossas expectativas, ansiedades, dores e sonhos e mais algumas coisas queridas que nos lembrariam da nossa casa e dos nossos trabalhos no Brasil. Com uma saudade já antecipada, eu e meu esposo nos demos as mãos, e sentimos que não estamos entrando em um avião, mas sim topando pular de paraquedas.  Lá vamos nós!

Chegando aqui, encontramos uma rede de brasileiros, primeiramente da própria empresa (eram 05 casais), com os quais podíamos dividir as novas descobertas (como alugar um apartamento e dar conta dos documentos com tantos nomes diferentes). Juntos fizemos declarações de amor à IKEA, somamos os braços para carregar e montar os novos móveis, dividimos os receios e as saudades, e nos reunimos para brindar, conversar e cozinhar.  Encontramos amparo para iniciar a nossa caminhada e não nos sentirmos sós. E destes amigos, vieram outros tão queridos. A internet também nos ajudou muito a encontrar novos grupos e projetos por aqui. E como isso tem nos fortalecido!

O Continuidade foi um grande apoio, com as falas no podcast que me acompanhavam nas minhas caminhadas, ampliando o meu foco e me ajudando a nomear os inúmeros sentimentos e pensamentos.  Em seguida, vieram as trocas no workshop entre mulheres imigrantes, que me ajudaram a ampliar demais as minhas perspectivas e o meu aconchego. Seguimos juntas através do grupo de whatsapp e de outras trocas virtuais (que espero que em breve sejam presenciais também!). E agora, com uma felicidade sem fim, me somo à equipe!

Com essas redes  de apoio, me senti mais fortalecida para vivenciar alguns desafios, como não saber como as coisas funcionam, os costumes, não conhecer a língua e ver o alcance de se comunicar, opinar, e se explicar muito limitados, assim como algumas possibilidades de lazer que gostava tanto (como cinema, teatro, etc). Porém, tudo bem, hoje já conheço um pouco mais o funcionamento das coisas (embora tenha muito ainda para aprender) e com o tempo vamos nos desenvolvendo na língua e na participação social aqui.

Acho que já somos felizes e gratos por já ter aprendido tanto, por ver as nossas habilidades sociais e emocionais e o conhecimento de mundo (externo e interno) sendo refinados com essas experiências. Eu revi tantas coisas nestes últimos dois anos, de valores, história e perspectivas, que eu já não sou mais a mesma. Isso é um ganho permanente da imigração para mim!

Tanto que me sinto conectada com aqui, talvez porque me conectei aqui dentro. Espero estar aqui por um bom tempo, viver a vida, sabe, e cada vez mais pegando o jeito, escorregando no alemão, em alguns combinados sociais e culturais que não conheço, mas seguindo em frente. E no caminho, desejo encontrar satisfações, resiliência, condições de me desenvolver, de ter segurança no espaço público e ter um estilo de vida mais simples e orgânico, de me reencontrar profissionalmente e ampliar a minha rede de contato social. Desejo me sentir vivendo e participando da sociedade em que vivo. Sempre acompanhada da minha rede do Brasil, dessa terra que me tornou quem eu sou. E agora com refinamentos e com o coração já dividido entre os dois lares que temos, um brasileiro e um alemão!

Se precisasse usar uma única palavra para resumir a minha história de migração, acho que seria esperança. Acho que ela aquece o meu coração desde o primeiro frio na barriga da possibilidade de vir e quando acordo todas as manhãs aqui e escuto “ Moiinn” cantandinho!

Eu sou Daniele e essa é a minha história de migração. Qual é a sua?