A imigração japonesa no Brasil

A maior comunidade Japonesa fora do Japão está no Brasil. No entanto, pouco se fala sobre esse 1,6 milhão de pessoas no território brasileiro. Quando falamos na comunidade japonesa no Brasil, a primeira associação que se faz é o bairro da Liberdade, em São Paulo. Além disso, pensa-se também em comidas e bebidas como Sushi e Sakê, que ganharam muita popularidade nas cenas urbanas das grandes cidades brasileiras. Mas você sabe como se deu a imigração japonesa para o Brasil?

Depois de uma brasileira de descendência japonesa contar sua história para gente no segundo episódio da segunda temporada do nosso podcast (clica aqui pra ouvir!), decidimos que precisávamos saber mais sobre a comunidade japonesa no Brasil.

A emigração Japonesa teve início em 1868, tendo sempre pontos altos nos períodos pós-guerra. No Brasil, ela chegou apenas em 1908, em consequência das políticas emigratórias japonesas e de mudanças sociais no Brasil.

Para o Japão da época, fazia sentindo estimular uma nova política migratória, com objetivo amenizar tensões sociais que surgiam devido à escassez de terras e endividamento de trabalhadores rurais. O Brasil, por sua vez, buscava trabalhadores estrangeiros para substituir a mão-de-obra das pessoas escravizadas, depois da abolição da escravatura.

No início do século XX os Estados Unidos, que eram o destino preferido dos japoneses, vetaram a entrada desses imigrantes em seu território. Com isso, o Brasil acabou recebendo um fluxo ainda maior de pessoas vindas da Terra do Sol Nascente.

“Sakura”, a flor de cerejeira, é linda e muito típica do Japão.

A comunidade japonesa, no entanto, ao contrário dos emigrantes europeus, foram alvo de grande preconceito ao pisar em solo brasileiro. Não podemos esquecer que, nessa época, havia uma política de embranquecimento da população brasileira e os japoneses enfrentavam grande resistência vinda da sociedade local por serem considerados exóticos demais.

No Brasil reinava a ideia racista de que os asiáticos eram impossíveis de se adaptarem devido às diferenças étnicas, físicas e culturais e sua presença era sempre vista com desconfiança e restrições sistemáticas. Os desdobramentos da Segunda-Guerra Mundial também foram responsáveis por gerar um sentimento de grande hostilidade contra imigrantes japoneses pelo mundo.

Apesar dessa história meio conturbada, Brasil e Japão têm uma longa história de migração em ambas as direções. Hoje em dia, brasileiros são maior grupo étnico “não-asiático” dentro do Japão e a migração de descentes de japoneses para o Japão é ainda bastante expressiva.

*Por Cris Oliveira

Fonte: https://brasil500anos.ibge.gov.br/territorio-brasileiro-e-povoamento/japoneses/a-identidade-japonesa-e-o-abrasileiramento-dos-imigrantes.html

Continuidade Indica: filme Casamento Grego

Casamento Grego é um filme independente de comédia lançado em 2002, que trata de uma relação romântica intercultural entre a grega Toula (Nia Vardalos, que também escreveu o longa) e o “não-grego branco anglo-saxão protestante” Ian (John Corbett). O pai de Toula sonha em vê-la casada com um homem também grego. Já imagina que deu ruim, né?

Eu não vou falar muitos detalhes do filme, porque a intenção aqui não é fazer uma crítica nem, muito menos, dar spoiler, mas queria aproveitar o gancho da indicação para refletir um pouquinho sobre as tais relações interculturais que até já foram tema de episódio no nosso podcast (ainda não ouviu? Clica aqui!). No filme, o tema é tratado com muito bom humor, mas na vida real nem sempre é assim.

Ian (John Corbett) e Toula (Nia Vardalos) no filme O Casamento Grego

Os relacionamentos interculturais podem trazer grandes desafios não somente para as partes diretamente envolvidas (o casal), mas também para as suas famílias. Ainda usando como exemplo a história de Toula, a sua família relutou muito em aceitar que ela se casasse com um homem de uma cultura diferente da sua, como se essa atitude significasse um rompimento com a sua gente a sua origem.

Por outro lado, há também as dificuldades entre o par em questão, por terem que lidar no dia a dia com uma pessoa de costumes muito diferentes dos seus. Em Casamento Grego, Ian se viu diante de um grande obstáculo: convencer a família de Toula de que ele era digno de casar-se com ela – mesmo não tendo a mesma nacionalidade – e o de se adaptar aos costumes e aos valores dessa nova cultura.

É preciso muito respeito e cuidado para encontrar o equilíbrio e a harmonia numa relação intercultural. Um bom exercício é entender que o outro é apenas diferente de vocês, o que não significa que essa pessoa está errada. Muitas vezes, as diferenças até ajudam a alimentar o amor e a trazer dinâmica para as relações. Porém, se está muito difícil e você se sente mais triste do que feliz, acenda o sinal vermelho de alerta repense se vale a pena seguir ou não nesse relacionamento. Se precisar de ajuda, já sabe: conta com a gente!

Por fim, Casamento Grego é uma comédia romântica muito leve e divertida, ótima pedida para uma tarde de domingo. O sucesso foi grande tão grande que a história ganhou uma continuação, lançada em 2016: Casamento Grego 2.

Assista e conte pra gente o que achou!

*Por Lali Souza

Fontes:
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-45569/
https://pt.wikipedia.org/wiki/My_Big_Fat_Greek_Wedding

Mulheres Migrantes: Anousheh Ansari

O Mulheres Migrantes de hoje é dedicado a Anousheh Ansari. A fama da empresária veio depois de sua ida ao espaço, para uma estada de nove dias a bordo da Estação Espacial Internacional em 2006. Ansari, mesmo não sendo a primeira mulher a sair da atmosfera terrestre, é considerada a primeira mulher a visitar o espaço como turista, já que foi ela mesma quem pagou pela sua passagem para fora do planeta Terra.

Anousheh Ansari nasceu e foi criada no Irã. Por ser um país com estudos limitados para meninas, a sua família a enviou para viver nos Estados Unidos com uma tia, aos 16 anos, para que pudesse seguir seus estudos na área da Ciência. Hoje, Anousheh fala fluentemente inglês e francês, além do seu primeiro idioma, o persa. Ela se formou em eletrônica e engenharia da computação, seguido de um mestrado em engenharia elétrica, ambos na Universidade George Washington. Ela ainda tem um doutorado honorário da International Space University.

Ansari foi naturalizada estadunidense e se tornou uma grande empresária no ramo digital. Para ajudar a impulsionar a comercialização da indústria espacial, Anousheh e sua família patrocinaram o Ansari X Prize, um prêmio em dinheiro de US$ 10 milhões para a primeira organização não governamental a lançar uma espaçonave tripulada reutilizável ao espaço por duas vezes no intervalo de duas semanas.

Imagem: Divulgação

Segundo a sua biografia, Anousheh é membro do Círculo de Visão da Fundação X Prize, bem como de seu Conselho de Curadores. Ela é membro vitalício da Association of Space Explorers e do conselho consultivo do projeto Teacher’s in Space. Ela já recebeu vários prêmios ao longo de sua carreira e, hoje, dedica-se também a capacitar empreendedores sociais para a promoção de mudanças radicais em todo o mundo.

Olhando para toda a sua história de vida e conquistas, quando perguntada pelo portal Entrepreneur Middle East sobre que conselho daria às meninas e mulheres do oriente médio que têm sonhos tão grandiosos como os dela, disse: “nunca desista, porque o resto você dá um jeito. Se você desistir, nunca vai saber”.

*Por Lali Souza

Imagem de destque: X Prize

FONTES:

http://www.anoushehansari.com/about/

https://www.entrepreneur.com/article/339408

https://pt.wikipedia.org/wiki/Anousheh_Ansari

Que língua é essa? 5 dicas para aprender Espanhol

Aprender a língua local é um dos primeiros desafios que o imigrante encontra no seu país de destino. Acabou de chegar num país hispano falante? Pois pode soltar um suspiro aliviado: esse post é para você.

A professora espanhola Mari Paz separou umas dicas sensacionais, práticas e aplicáveis no dia a dia, que vão te ajudar muito no aprendizado do idioma castelhano.

Pega papel e caneta ou se prepare para os prints! Vamos lá?

1. Mude o idioma de equipamentos e aplicativos para o Espanhol

Essa é uma forma muito eficiente de inserir o novo idioma no seu dia a dia, além de aprender palavras e expressões úteis. O celular e o computador são ótimos para isso, pois você já sabe onde estão as coisas e não vai se confundir. O mesmo vale para o GPS, que pode ser usado mesmo em caminhos que já conhece, assim não vai se perder e ainda aprenderá vocabulário relacionado a receber e dar direções, por exemplo.

2. Escreva a lista de compras em Espanhol

Não precisa nem dizer o quanto essa dica é útil para aprender um vasto vocabulário sobre alimentos, itens de limpeza e tudo o mais que se pode encontrar num supermercado, né? É uma oportunidade não só de aprender e buscar palavras novas, mas também de praticar a escrita.

Imagem: Tolu Bamwo por Nappy.

3. Dedique um tempinho do seu dia para pensar em Espanhol

Essa dica demanda algum nível mínimo do idioma, claro, mas você pode fazer isso com as palavras que conhece. A ideia é: todos os dias, nem que seja por cinco minutos, pare um pouquinho para pensar em Espanhol. Pense, por exemplo, no que você fez naquele dia ou quais são seus planos para o fim de semana. O tema é livre e essa prática ajuda muito (e sem medo de errar). Ah! Se sentir falta de alguma palavra para completar o raciocínio, essa é a deixa para pesquisar e aprender ainda mais.

Pode ser até enquanto toma um sorvete. Boa ideia, hein? | Imagem: Tolu Bamwo por Nappy.

4. Invista tempo em ler e assistir séries, filmes e televisão em Espanhol

Parece óbvio, mas a verdade é que muita gente não dá o devido valor a essa dica. Lendo em espanhol, é possível aprender novas palavras e também se familiarizar com a sua grafia. Ler e escrever são duas habilidades totalmente conectadas.

Já os filmes, séries e programas de TV vão te ajudar muito na compreensão do idioma em sua forma oral. Colocar legendas em espanhol também pode ajudar a identificar aquela palavra que você não entendeu bem ou ainda aprender como se escreve. Anote as palavras e expressões desconhecidas para depois pesquisar o seu significado.

Imagem: Michal Jarmoluk por Pixabay.

5. Evite decorar listas extensas de palavras soltas

Um idioma não é puramente um monte de palavras, é preciso conhecer a forma de usá-las. Uma boa dica para aprender vocabulário é colocar as palavras dentro de um contexto. Pense nelas numa frase ou pequeno diálogo, assim fica muito mais fácil não só aprender a palavra (por conseguir chegar nela através de associações de ideias), mas também saber como e quando utilizá-la.

Esperamos que essas dicas sejam úteis no seu aprendizado. Se você tem mais alguma dica infalível para ajudar no aprendizado do castelhano, compartilha aqui com a gente nos comentários, ok? Até a próxima!

*Por Lali Souza

Imagem de Destaque: Cindy Parks por Pixabay.

Histórias de Migração: Mariana Riccio

Nascida e criada em terras soteropolitanas, apesar de ser bisneta de italiano, minha história de migração começou mesmo com uma pergunta que minha mãe me fez: “filha, por que você não faz um intercambio? ”

Até 2006, nunca havia pensando em sair do país, muito menos de Salvador. Na minha familia até tinha alguns casos de migração, mas eu vivia a vida tranquilamente, tinha questões internas em relação à cidade e a mim mesma, mas não era nada demais.  Adentrei 2007 embarcando para minha primeira viagem internacional e completamente sozinha, fui fazer um interncambio de 6 semanas em Malta.

Posso dizer que foi a partir daí que uma formiguinha me picou e a sensação de “preciso viver mais disso e conhecer mais lugares” nunca mais parou de coçar. Em 2008, me formei em jornalismo e, dois meses depois, embarquei para um novo intercambio, desta vez de um ano, em São Francisco, California. 

Depois que retornei ao Brasil, fiquei pingando de emprego em emprego, de cidade em cidade. Cheguei em Salvador, depois morei em São Paulo, passei um período no Rio procurando emprego, voltei pra Salvador, fiz campanha política no interior da Bahia.

Quando arranjei um emprego fixo, entrei em um ritmo de vida mais estável na minha cidade natal. Mas sabe aquela coceirinha? Continuava ali.  Comecei a pesquisar sobre migrar para a Califórnia, já que tinha feito grandes amigos por lá e conhecia bem o local. Depois, cheguei a estudar francês pensando em migrar para o Canadá. Enfim, pesquisava aqui e acolá, mas nada se concretizava.

E foi num show do Maroon 5, em março de 2016, que minha melhor amiga me disse que estava pensando em migrar para Portugal através dos estudos (confira o relato dela aqui). Quando ela acabou de falar qual era a sua ideia, eu disse sem dúvida alguma: “também vou”.

Neste mês de setembro, completo 4 anos em Portugal. Honestamente, posso dizer que tem sido uma relação agridoce. Aqui conheci pessoas muito especiais, ganhei o título de mestre pela Universidade do Porto, aprendi mais sobre pertencer, sobre como é díficil criar laços depois dos 30, passei o pão que o diabo amassou para consegui um emprego, bati de frente com as burocracias da migração e do dia-a-dia, ouvi muito “não sei como é no Brasil, mas aqui…”.

Mas também foi aqui, bem no inicio da minha aventura em terras lusitanas, que conheci um português muito tímido e gentil, que entrou na minha vida e fez tudo ficar mais leve e fácil. Hoje somos casados e estamos prestes a receber o nosso primeiro filho.

Eu sou Mariana Riccio e essa é a minha história de migração. Qual é a sua?


*Por Mariana Riccio

Continuidade Indica: Two Caravans, de Marina Lewycka

A dica de hoje é de uma leitura leve, emocionante e muito divertida: Two Caravans, de Marina Lewycka.

Marina Lewycka é uma escritora de origem ucraniana que nasceu em um campo de refugiados em Kiel, na Alemanha, e que, ainda criança, migrou para a Inglaterra com sua família. Em seus livros, ela sempre incorpora elementos da cultura ucraniana e até mesmo de sua história familiar. Suas personagens são sempre figuras peculiares, muito humanas e cheias de humor.

Two Caravans conta a história de imigrantes do leste europeu que vão trabalhar na Inglaterra, na colheita de morangos. A história retrata encontros, desilusões, mal-entendidos e muitas idas e vindas de personagens que deixaram seus lares para trás e foram em busca de seus sonhos em um lugar desconhecido.

Two Caravans é o segundo livro de Lewycka e, infelizmente, ainda não tem tradução para o português. Mas, se você consegue ler em inglês, vale muito a pena! Esta história vai te emocionar, fazer rir e surpreender.

Boa leitura!

*Por Cris Oliveira

Um ano de Continuidade!

Foram as caminhadas matinais ouvindo podcasts, que despertaram em mim, Flora, o desejo de ter o meu próprio. Para Cris, foi a necessidade de, literalmente, colocar sua voz em algum projeto criativo. E assim começamos a conversar cada vez mais sobre essas possibilidades e desejos.

Na verdade, desde novembro de 2018 já vínhamos nos sintonizando com o desejo de criar pontes. Há alguns anos, tínhamos feito uma especialização juntas e, desde então, era muito grande em nós duas a necessidade de compartilhar esses conhecimentos com o mundo. Nossas próprias vivências enquanto mulheres migrantes nos qualificavam ainda mais para apoiar outras pessoas que se aventuraram a mudar de país, seja de forma voluntária ou involuntária.

Foram mais de 6 meses de testes, criação de roteiros, construção do nome, testando formatos. E como, se estivéssemos predestinadas para virar podcasters, assim que começamos a falar de forma mais concreta de nosso desejo, amigos nos presentearam com o que a amizade tem de mais especial:  apoiar o outro no seu sonho, seja ele qual for!

Du Conti, amigo de Cris de milhões de anos, compôs nosso lindo jingle. Ele ainda foi além e fez a ponte para Cris retomar o contato com outro grande amigo de infância, Daniel Castelani, que acabou se tornando nosso editor. Foi a filha de Daniel, Beatrice Castelani, que criou nosso logo, dando assim mais uma voltinha nessas linhas intrincadas e contínuas que compõem a vida.

A migração nos ofereceu muitos obstáculos, mas também nos presenteou com muitos amigos e amigas queridas. Uma delas é Clarisse. Ela embarcou na loucura de apoiar duas “analfabetas” digitais a se tornarem influenciadoras e, hoje, deixa nosso Instagram exuberante, além de propor e nos conectar com pessoas que geram parcerias lindas para o Continuidade Podcast.

Para fortalecer ainda mais esse nosso grupo, uma comunicóloca baiana retada também nos ofereceu ajuda ao ficar sabendo de nosso desespero e fomos muito sábias em aceitar. A nossa caçulinha Lali Souza é uma mulher forte, de sorriso contagiante e voz encantadora; Escritora de mão cheia, além de colaborar com nosso site, deixando-o todo especial, ainda nos ajuda também nos assuntos midiáticos. Pense numa equipe iluminada!

Foto: Clarisse Och

O Continuidade Podcast começou como hobby e foi tomando cada vez mais espaço em nossas vidas. É um espaço que cedemos com prazer porque ele acabou se tornando uma missão de vida pra gente. Muitas vezes dizemos que ele é mais que um podcast, já se tornou um canal de cura no nosso processo de desenvolvimento pessoal e profissional.

Através do Continuidade mostramos nossas imperfeições sem vergonha de julgamentos, ressignificando a ideia de que, para sermos aceitas, precisaríamos almejar a perfeição. No campo profissional, alcançamos migrantes que nos ajudam a refletir e empoderá-los nas suas escolhas de construir uma nova versão de si mesmos(as) e de suas identidades culturais.

Que desafio resolvemos encarar! Esse hobby tomou uma dimensão tão grande que, algumas vezes, pensamos em puxar o freio de mão e diminuir… mais aí vêm as reuniões, vem nossa equipe linda com milhões de ideias e parcerias novas – tanto fôlego que não quis parar de gerar conteúdo nem nas férias – para nos lembrar que, uma vez construídas as pontes, elas devem continuar servindo para conectar pessoas.

Feliz aniversário para nós! E rumo à segunda temporada!

*Por Flora Régis Campe

Mulheres Migrantes: Isabel Allende

A escritora Isabel Allende é filha de pais chilenos, mas nasceu no Peru, em 1942. Durante a infância, migrou com sua família para diferentes países por conta do trabalho do seu pai, que era diplomata. No entanto, foi a ditadura de Pinochet, no Chile, que obrigou Isabel a se afastar do seu país, imigrando de forma involuntária para a Venezuela.

Mas as migrações de Isabel não pararam por aí. A escritora premiada também chegou a morar em países da Europa e, depois de mais de uma década vivendo no Estados Unidos, em 1993, recebeu o título de cidadã norte-americana.

Considerada uma revelação da literatura latino-americana na década de 1990, a obra de Isabel Allende é muito marcada, justamente, pela ditadura no Chile. O regime foi implantado a partir do golpe militar que derrubou o governo do presidente Salvador Allende, primo-irmão do pai de Isabel. A carreira de Isabel consagra uma lista vasta de obras, entre peças de teatro, contos e romances – o mais recente é Longa Pétala de Mar (Largo Pétalo de Mar), lançado em 2019.

Imagem: Lori Barra / Divulgação

Em 1995, a escritora criou a Fundação Isabel Allende (Isabel Allende Foundation) com o objetivo de incentivar o empoderamento feminino ao redor do mundo. A Fundação nasceu em homenagem à memória de Paula, filha de Isabel, que morreu prematuramente aos 29 anos, mas dedicou uma parte de sua vida a trabalhos voluntários. Isabel queria continuar o trabalho iniciado pela filha.

“Investimos no poder das mulheres e das meninas para garantir seus direitos reprodutivos, sua independência econômica e proteção contra a violência”.

Isabel Allende

A Kind (Kids in Need of Defense)  é a principal organização beneficiada pela Fundação Isabel Allende. A Kind trabalha dando suporte legal para imigrantes não acompanhados ou crianças refugiadas nos Estados Unidos, oferecendo serviço gratuito de advogados que cuidam dos seus processos, garantindo que recebam o tratamento justo e todos os cuidados necessários, além de auxiliar na reintegração desses menores nas suas comunidades (em caso de deportação/repatriação). A Kind ainda atua ativamente na luta por mudanças nas leis de imigração estadunidenses, em busca de mais direitos e segurança, principalmente para as crianças.

Isabel Allende defende a importância de cuidar do outro além de si e milita pela força e autonomia das mulheres. Segundo ela, só foi possível chegar onde chegou porque teve acesso a educação, controle sobre a própria fertilidade e independência econômica.

Em sua biografia, Isabel divide um pouco de seu desejo de mudar o mundo e ajudar as pessoas: “eu olho para a minha vida e me sinto satisfeita porque houve poucos dias em que eu não tenha, pelo menos, tentado fazer a diferença”.  Obrigada, Isabel!

*Por Lali Souza

Fontes:

Diário de Noticias – https://www.dn.pt/artes/isabel-allende-75-anos-a-saudacao-feliz-ao-inverno-8678534.html

Wikipedia – https://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_Allende#cite_note-dn17-1

Fundação Isabel Allende – https://isabelallende.org/es/mission

Isabel Allende (Site Oficial) – https://www.isabelallende.com/en/bio

Kind – https://supportkind.org/

Imagem de destaque: Lori Barra / Divulgação

Histórias de Migração: Paula Clemente

Desde pequena, algo sempre me dizia que Salvador, onde nasci, não seria onde eu iria morar para sempre.

Talvez isso fosse relacionado, ainda que de uma forma subconsciente, ao fato de correrem nas minhas veias o sangue espanhol. A ditadura de Franco fez com que meu pai saísse de sua cidade natal, Alicante, na Espanha, e fosse se aventurar em terras brasileiras nos anos 70. Ele gostou do clima tropical da Bahia e por ali decidiu ficar. Lá, conheceu minha mãe, que é baiana, e eu nasci dessa união.

A minha vontade de desbravar o mundo também pode se dever ao meu fascínio pela língua inglesa, idioma que sempre tive muita facilidade e gosto por aprender. Comecei a estudar english com 10 anos de idade e era a “nerd” da sala, não nego!

Na verdade, acho que uma soma de diversos fatores contribuiu com essa vontade latente e constante de ir “pra fora”. Por exemplo, gostar Geografia e História; amar aprender sobre diferentes culturas; querer trabalhar na ONU – algo que, diga-se de passagem, não se concretizou (mas quem sabe um dia, né?).  Enfim, só sei que o fato de não me sentir “encaixada” na minha cidade natal alimentava esse desejo profundo de conhecer outras terras.

Quando novinha, costumava passar férias na Espanha, onde tenho família por parte de meu pai, e mais tarde, embarquei para um intercâmbio de 6 meses no Canadá. Foi aí que a minha vida deu um giro de 180º.

Eu escolhi a cidade de Toronto justamente por seu caráter anglo-saxão, mas também por seu grande número de imigrantes. Eu sentia que poderia vivenciar uma experiência realmente internacional, em todos os sentidos, e acabaria conhecendo muitas pessoas interessantes por lá. Isso de fato aconteceu, pois foi onde conheci o meu marido!

Marido este que, por sinal, não era canadense, mas sim inglês! Quando nos conhecemos, lembro que tinha dificuldade de entender seu sotaque, que é naturalmente e “britanicamente” mais fechado, e cheguei a questionar se meu nível de inglês, mesmo após tantos anos de dedicação e estudos, era tão bom quanto eu imaginava! Com o tempo, o incidente do sotaque (ou “accent gate”) foi se resolvendo e eu fui me acostumando também com o senso de humor dele, bem diferente do nosso.

Meu intercâmbio acabou e eu tive que retornar ao Brasil. Precisava concluir a faculdade e continuar o meu estagio em Salvador. Mas o sonho de imigrar persistiu e isto, somado ao fato de que agora me encontrava oficialmente em um relacionamento a distancia, fez com que eu decidisse fazer faculdade fora. Por diversas razões, decidi finalizar meus estudos na Espanha, terra de meu pai e que, desde pequenina, me chamava.

Em Alicante, tornei-me “Licenciada en Publicidad & Relaciones Publicas”. Logo após me formar, engatei um Masters of Science na University of Bristol, na Inglaterra, podendo, finalmente, residir no mesmo país que o meu então namorado (atual marido).

Hoje, sigo morando na Inglaterra, mas no condado de Berkshire. Continuo casada com aquele inglês irreverente que conheci no Canadá e sou mãe de um menino de 4 anos.

Eu sou Paula Clemente e essa é a minha história de migração. Qual é a sua?

Canções de Migração: Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos

A música nos inspira e nos faz viajar pelo tempo. Músicas especiais despertam emoções e são capazes de nos fazer reviver lugares e momentos guardados na memória. No “Canções de Migração” de hoje, vamos falar de uma belíssima composição de Roberto Carlos e Erasmo Carlos que traz muita história junto com ela: Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos.

Essa canção foi composta em 1971, quando o Brasil enfrentava a Ditadura Militar. A música é uma homenagem ao cantor e compositor Caetano Veloso, que foi exilado do país e emigrou para Londres, na Inglaterra.

Caetano e Roberto Carlos. Imagem: Divulgação.

Na canção, Roberto e Erasmo fazem uma projeção do que seria o retorno de Caetano à sua terra natal e, com emoção, descrevem o momento em que o artista pisaria novamente nas areias das praias brasileiras.

“Um dia a areia branca

Seus pés irão tocar

E vai molhar seus cabelos

A água azul do mar”

A música toca, principalmente, por se tratar de uma migração involuntária, já que Caetano deixou o Brasil como exilado, vítima de uma perseguição política que colocava sua vida em risco. A música não apenas fala da alegria de Caetano ao chegar, mas também da felicidade com que a sua terra o receberia, retratando uma saudade recíproca, como se o Brasil também sentisse a sua falta.

“Janelas e portas vão se abrir

Pra ver você chegar

E ao se sentir em casa

Sorrindo vai chorar”

Caetano é retratado na canção através de uma característica marcante de sua juventude: os cabelos cacheados. Apesar de reconhecer que a migração traz aprendizados e muitas histórias também felizes, a música trata claramente de um processo de luto migratório, fruto da migração involuntária, e da vontade constante de voltar para casa.

“Você olha tudo e nada

Lhe faz ficar contente

Você só deseja agora

Voltar pra sua gente

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

Uma história pra contar

De um mundo tão distante

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

Um soluço e a vontade

De ficar mais um instante”

Anos mais tarde, em 1992, o próprio Caetano Veloso gravou a música “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos” no disco do show Circuladô Vivo. É emocionante ouvi-la na voz de Caetano. Sugiro pegar um lencinho antes de apertar o play!

*Por Lali Souza

Fontes:
Centro América FM
Wikipedia
Nova Brasil FM
Discos do Brasil