Ser Mulher

Nesta semana comemoramos o Dia Internacional das Mulheres. Além das famosas rosas que são entregues nesta data, este dia nos lembra a luta de muitas mulheres que vieram antes de nós, as dores, os avanços e os papéis que podemos e queremos desempenhar, inclusive na imigração.

O dia 08 de março relembra a luta de mulheres operárias, que antes tinham poucas possibilidades de ter um papel social e laboral fora de casa. Quando elas foram para as fábricas, se depararam com horas exaustivas de trabalho e condições muito precárias para exercê-lo. Ao reivindicarem melhorias e direitos, tiveram uma forte resistência, inclusive com uma represália que causou a morte de muitas delas. Esse fato tornou a data um dia mundial de lembrar as lutas que tanto desejamos e o quão necessárias elas são.

Tiveram lutas antes, como por exemplo, de ter concepções ou habilidades diferentes, e serem consideradas “bruxas” ou “loucas”. Depois disso, tiveram que lutar para votar (e em alguns lugares, isso é um direito recente ou ainda não é concedido), de escolherem seus rumos sobre os relacionamentos, sobre ter filhos (quando e se querem tê-los), de serem aquelas que dizem o que pode ou não ser feito com os seus corpos (e serem escutadas) e de desejarem ser quem quiserem (e da forma que quiserem).

Huelga Feminista Madrid, 8 de Março de 2020 | Foto: Lali Souza

Nestas mudanças, desejos, dores e lutas, muito foi conquistado, embora ainda tenhamos muito de construir em um caminho de mais equidade nas empresas, na política e em casa, no respeito e na diminuição dos índices de violência contra a mulher. Enquanto isso somamos a este turbilhão de sentimentos, desejos e realidade, as representações sobre o que é ser mulher, que fomos aprendendo desde o que era falado e autorizado nas nossas famílias de origem e nas nossas comunidades, e o que aprendemos em seguida nos diversos grupos que participamos. Inclusive no contato com uma nova cultura, no caso da imigração.

A imigração pode trazer formas diferentes de ver o ser mulher, se comparado com o país de origem, com ampliação dos direitos ou ainda mais restrições. A vida no interior da casa também pode ser alterada, quando, por exemplo, um do casal vem empregado e o outro precisa construir habilidades com a língua e validar a sua experiência profissional, para se inserir no mercado de trabalho ou nos estudos no novo país. E isso sem contar com as redes de suporte que antes conhecia. Neste momento, pode vir o medo de estar “dando passos para atrás” ao ser “responsável” pelas casas e pelos filhos ou não ter atividade remunerada. E isso é ser menos mulher?

Nós, aqui, consideramos que ser mulher autêntica é ser a mulher que lhe faz sentido, que cabe ao seu momento e que pode ser tão valioso como ser nomeada CEO de uma empresa. Por exemplo, se a escolha é desprender os esforços em cuidar do seu filho, que representa cuidar de um novo cidadão ou nova cidadã, isso não é um papel e tanto? Dar um tempo para se adaptar no novo país, considerando as condições financeiras da família, também pode ser uma opção de respeito consigo. E muitos outros exemplos que vocês e nós poderíamos citar aqui, sem julgamento ou avaliando com olhos de quem classifica o que é válido ou vale mais.

As lutas feministas aconteceram e acontecem para que o poder de escolha seja real, validado e autêntico para cada um. E é isso que desejamos a nós todas neste dia: que a gente continue caminhando, pessoalmente e como comunidade, para garantir o direito de ser quem se é e da forma que desejar, e ser respeitada (e respeitar). Que todas nós possamos completar a nossa apresentação “brasileira (ou do país que for), imigrante e …” com tranquilidade e sendo acolhida e valorizada da forma que somos (inclusive por nós mesmas). 

*Por Daniele Stivanin

Imagem de destaque: Aryl Irudayam

Giro pelo Mundo: Buenos Aires

Ao falar de Buenos Aires, começo pela minha avenida preferida: Corrientes. As primeiras quadras, especialmente as que estão entre as Avenidas 9 de Julio e Callao, são cheias de cafés, livrarias e cinemas. Quando chegar no cruzamento da Corrientes e 9 de Julio, verá o Obelisco, importante símbolo da cidade. Interessante que não é o centro geográfico de Buenos Aires, mas é o centro social, por assim dizer. Dali, é muito fácil mover-se, pois tem acesso a várias linhas de metrô e ônibus, é só escolher o seu destino e embarcar!

É possível desbravar Buenos Aires caminhando e isso é muito agradável! A maioria das ruas têm calçadas largas e são muito arborizadas. Além disso, como a cidade é basicamente plana, andar não cansa muito.  

Fim de semana

Vem passar um fim de semana em Buenos Aires? No sábado, uma boa pedida é o Palermo. Hoje em dia, é uma espécie de “shopping a céu aberto” com um monte de coisas pelos “zói da cara”, mas é um passeio legal mesmo assim, porque, além das lojas, tem bares, restaurantes, cafés e feirinhas de jovens designers e artesãos. O bairro em si é super agradável, combina arquitetura antiga e moderna, e fica bem movimentado. Qualquer dia à noite, na Plaza Serrano e seu entorno, vale a pena conhecer os bares, alguns com mesas na calçada. Durante a noite fica bastante movimentado, especialmente nos fins de semana (antes da pandemia, é claro).

Ainda em Palermo, tem o jardim botânico, que é lindo. Ele é cheio de árvores e gatos e fica bem no meio da cidade. Tem também os bosques de Palermo, onde fica o planetário (que parece um disco voador), o Rosedal (uma praça com rosas de todo tipo e espécie!), o jardim japonês (andava meio decadente quando eu fui, não sei como está agora). Esses são passeios bem tranquilos, coisas de caminhar e ver, sentar pra comer um sanduíche ou, como os argentinos, tomar um mate (chimarrão).

San Telmo, Buenos Aires / Foto:  Luis Petrini

No domingo, eu recomendaria um passeio em San Telmo. Nos fins de semana, acontecem feiras de antiguidade pelo bairro e está sempre cheio de gente, argentinos e turistas. Não tem muita coisa para comprar, a ideia é ver o movimento mesmo. Na Plaza Dorrego, depois que desarmam a feira (por volta das 17h), rola um show de tango e um monte de velhinhos vão dançar alíi mesmo, no meio da praça. É lindo de ver! Você também pode ir a La boca pela manhã e depois seguir pra lá, que é pertinho.

Gastronomia

Se for a La Boca, sugiro aproveitar para comer um choripan comprado na rua mesmo! Choripán é o cachorro-quente argentino: uma linguiça de churrasco cortada ao meio dentro de um pão francês! Geralmente se coloca um molho chamado chimi-churri, que é uma delícia!    

Choripan / Foto: Amigos Foods.

Já sobre restaurantes, a melhor dica que eu posso dar é: preste atenção se o lugar é frequentado por argentinos e não só por turistas. Os argentinos gostam de comer bem. Se o restaurante estiver cheio deles, a comida deve ser boa!

Ah! Se for comer uma das tradicionais pizzas, peça também uma fainá: massa de grão de bico. Aqui é o único lugar do mundo onde eu vi alguém comer pizza com acompanhamento, então, vale a pena pedir para conhecer! Faz assim: come um pedaço de cada ao mesmo tempo! Algumas pizzarias até  servem a fainá já em cima da pizza.

Outra dica importante, ainda no tema gastronômico: vá a uma sorveteria.Os sorvetes argentinos são maravilhosos! A sorveteria mais famosa da cidade é a Pérsico, seguida da Freddo, mas tem milhares de sorveterias artesanais espalhadas pela cidade. Se prefere uma dica mais “local”, eu recomendo uma sorveteria de bairro, chamada La Gruta. O sabor dulce de leche granizado é um clássico daqui.

Falando em doce de leite, cabe lembrar que os argentinos sentem muito orgulho pelos doces de leite deles. E com razão! Apesar dos alfajores Havanna serem os mais famosos, há outros tão ou mais gostosos – e mais baratos – em qualquer kiosko. Como boa amante de um doce, não posso deixar de recomendar os havanettes, que são uns cones de chocolate recheados de doce de leite. Uma delícia!

Tango

Vamos falar de tango? Uma boa dica é decidir com antecedência se vai querer ir a um dos shows tradicionais, como os que servem jantar antes do show, porque é necessário reservar. Esses são bem como uma peça de teatro, tipo Broadway, geralmente com cantores e banda ao vivo, além dos bailarinos. Tem de todos os preços, a depender do luxo da comida e do espetáculo, claro. Nunca provei, mas ouvi dizer que a comida não costuma ser lá grande coisa.

San Telmo, Buenos Aires / Foto:  Luis Petrini

 Se a ideia é dançar, uma boa opção são as casas de milonga, como La Viruta (http://www.lavirutatango.com/). São salões frequentados por gente que gosta de dançar, quase como uma espécie de “boate de tango”. Elas oferecem aulas de tango também.

Para os amantes do tango, recomendo também o boteco “Lo de Roberto”. Lá, você vai ouvir uns senhores cantando tango a plenos pulmões, acompanhados de violões. É uma experiência super interessante e todos escutam como se estivessem numa missa. É de arrepiar!  

Museu

O museu que eu mais gosto é o Malba, de arte latino-americana. O Abaporu, de Tarsila do Amaral, faz parte do acervo permanente.

Outro museu que amo e recomendo a visita é o Bellas Artes. Ele tem entrada gratuita e uma excelente coleção de arte moderna no segundo andar. De lá, ainda dá para caminhar em direção à Recoleta, onde está o famoso cemitério com o corpo de Evita Perón, além de uma feira de artesanato aos domingos.

Centro

Ah! Pra finalizar, não esqueça de visitar também a parte mais central de Buenos Aires, onde está Casa Rosada, e de caminhar pela Avenida de Mayo até a Praça do Congresso. Essa região é linda! As fachadas são incríveis, então, sugiro dar uma olhada para cima e conferir toda a beleza. É nessa região que fica o famoso Café Tortoni, que é mesmo muito bonito, mas já adianto: atendimento péssimo e muito caro.

Você já foi a Buenos Aires? Compartilhe com a gente as suas dicas imperdíveis para curtir a cidade!

*Por Silvia Ornelas

*Editado e revisado por Cris Oliveira, Daniele Stivanin e Lali Souza

Imagem de destaque: julian zapata por Pixabay.

Canções de Migração: Retrovisor

Quem conhece o Continuidade, sabe que as Canções de Migração são temas que a gente adora trazer por aqui. Hoje, essa reflexão é ainda mais especial, porque vamos falar de uma música composta por amigos queridos. Retrovisor é uma criação de Têco Lopes, Eduardo Lubisco e Daniel Castelani, e nos faz pensar sobre as idas e vindas na vida do migrante, seja de pessoas ou até mesmo de sentimentos.

Quando ouvi Retrovisor pela primeira vez, pensei: “eu poderia ter escrito essa música”. Ela reflete exatamente como me sinto ao pensar nas coisas e nas pessoas que ficaram lá em casa, depois que eu decidi viver em outro pais. É uma nostalgia gostosa, que faz brotar um sorriso só de pensar nas tantas histórias vividas.

Pessoas pela vida afora

Algumas passam

E outras ficam

Tenho saudades até das brigas

Pessoas pela vida adentro

Algumas chatas

Já outras, exatas

Guardo no peito, pessoas amigas

A música segue e vem o aconchego de pensar que, apesar da saudade, tanta coisa (e tanta gente) boa veio junto com o novo lar. É importante não se deixar cegar pela saudade. Como eu disse, a nostalgia é até gostosa, mas ela deve somar com que é novo e não te prender ao passado (que muitas vezes nem era tão perfeito assim, né?).

Há lugares desconhecidos por nós dois, e eu corto a estrada

Tantas vidas, tantos rumos e eu não vejo nada

Ser imigrante também é juntar os caquinhos e seguir adiante. É encontrar força para continuar, mesmo quando a vontade de voltar para o quentinho do quarto é gigantesca. Por isso, o meu conselho é: busque essa força nos alicerces que você tem, mas siga adiante. Olhar para trás é uma excelente forma de aprender, mas é para frente que a vida anda.

A voz rouca de um velho amigo

Raras chegadas, e tantas partidas

Acelero mais, olho pra trás

No retrovisor, tantas despedidas

Depois do falatório vem a parte mais legal: curtir o som! Clica no link abaixo para ouvir Retrovisor e conhecer o time massa que fez essa música acontecer.

*Por Lali Souza

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FICHA TÉCNICA RETROVISOR

Composição:

Daniel Castelani, Eduardo Lubisco e Têco Lopes

Músicos:

Têco Lopes: voz e guitarras base

Lali Souza: voz

Luiz Caldas: guitarra solo

Luciano Leães: órgão hammond

Eduardo Lubisco: violão

Maul Beisl: baixo

Peu Deliege: bateria

Mixado e masterizado por Irmão Carlos no Estúdio Caverna do Som

As Capitais do Nordeste

Na semana do aniversário da cidade de São Paulo, a revista Veja, em sua edição local, apareceu com uma capa que acabou não homenageando paulistas e ofendendo nordestinos. A reportagem, que tentou fazer uma reverência às contribuições de uma nova geração de migrantes nordestinos à maior capital do Brasil, terminou por deixar um gosto amargo em sua ação ao fazer um retrato do Nordeste que o próprio nordestino não reconhece e por falhar em reconhecer a diversidade real da região que tentaram galantear. Isso revelou, no entanto, uma valiosa oportunidade de refletirmos sobre estereótipos, preconceitos e migração dentro de nosso próprio país.

Antes mesmo de ler a reportagem, a gente já consegue se chocar pela capa. O título da reportagem “A capital do Nordeste” já demonstra uma falta de reconhecimento à grande diversidade da região Nordeste. Falar de Nordeste como se fosse uma coisa só é tão problemático quanto falar da África como se fosse um único país. É impressionante como esse discurso ainda está impregnado na nossa forma de falar.

Nos episódios 7 e 9 da segunda temporada do Continuidade Podcast, falamos justamente sobre estereótipos e preconceitos na migração.

Clica pra ouvir: Episódio 7 – Parte I / Episódio 9 – Parte 2

O Nordeste é uma região plural e diversa, que ocupa 18% da extensão territorial do país e que incorpora 9 estados muito distintos entre si. O nordestino é rural, sertanejo, praieiro e urbano. A região abriga costumes, ritmos, culinárias, climas e falares diferentes em seus estados (e também dentro deles!). Cada um tem a sua cultura e a sua capital, das quais seus habitantes têm orgulho e que os diferencia dos demais. Tentar definir uma capital para essa região – pior ainda se essa cidade está fora dela – é ignorar toda a diversidade que ela tem dentro de si. É anular o seu protagonismo dentro da sua própria identidade.

Mas esse não é o único problema dessa “homenagem”. A reportagem se baseia em um modelo de “migração que deu certo”. Quem são os nordestinos e as nordestinas que aparecem nessa capa? Pessoas de “sucesso”, donas de startups, chefs, empresárias. Todas são pessoas, atualmente, ocupam um lugar de prestígio social e, em sua maioria, de pele clara.

É grave passar a mensagem de que esse é o tipo de migração que deu certo. Onde estão os nordestinos assalariados que vivem nas periferias da cidade? Onde estão os operários e as operárias que trabalham duro para manter a metrópole funcionando? O nordeste representado na capa não corresponde à maioria migrante dessa região. E mais: alcançar riqueza material não deve ser o único caminho para o sucesso, para “dar certo”.

Antes de se autointitular “A Capital do Nordeste”, seria interessante saber quantos nordestinos de fato se sentem em casa nessa “sua” capital. Será que a cultura local é tão receptiva e acolhedora a ponto de fazer com que essas pessoas tenham um sentimento de pertencimento ao local? Será que o ser nordestino pode encontrar reconhecimento na sua capital do Sudeste mesmo que ele não seja empresário e que não tenha tanta escolaridade? A interculturalidade pode ser uma coisa maravilhosa e enriquecedora, mas, para isso, pressupõe uma troca, uma via de mão dupla e um conhecimento mais profundo de todas as culturas envolvidas. Quanto ao Sudeste, ele realmente conhece o Nordeste?

*Por Cris Oliveira

*Revisão e contribuições de conteúdo: Daniele Stivanin e Lali Souza

Imagem de destaque: site Amigos Nordestinos

Perspectivas para 2021

Depois da surpresa impactante que 2020 nos trouxe, devemos ter muita cautela com os planos e a empolgação com os projetos para 2021. Ainda assim, sabemos que a esperança é um elemento central na migração e, por isso, não podemos deixar de sonhar, planejar e projetar algumas expectativas para esse ano. Vamos com cuidado, mas vamos!

É nesse clima que compartilhamos com vocês alguns de nossos planos e desejos para 2021:

  • O ano passado nos obrigou a buscar formas diferentes de nos conectarmos. Sendo assim, aulas e eventos online passaram a fazer parte da normalidade. Claro que nós não poderíamos ficar de fora e também temos pensado em eventos que podemos oferecer este ano para nos mantermos conectadas com vocês, ouvintes e leitoras/es. Isso nos leva diretamente para o segundo ponto.

Nos mantermos conectadas é fundamental para superarmos as dificuldades, sejam elas geradas pela migração ou por uma pandemia inesperada. O fato de ainda termos que ter cautela e manter o distanciamento social fisicamente não nos impede de nos mantermos juntas/os através das tecnologias que estão disponíveis para nós. Mas nos conectarmos com quem? Há tanta gente produzindo conteúdo de qualidade sobre migração que, muitas vezes, esse pessoal acaba passando despercebido pelo nosso radar. Criar uma rede para indicar pessoas, grupos ou associações e ajudar a divulgar os trabalhos desses profissionais é uma das nossas missões para 2020. Assim, esperamos fazer com que cada vez mais pessoas consigam o apoio que melhor se encaixa aos seus perfis e necessidades.

Imagem: Gerd Altmann por Pixabay.
  • Outro plano do Continuidade para este ano é chegar ainda mais perto de vocês, que nos acompanham. Queremos ouvir e ler suas histórias, saber quais temas lhes interessam, incomodam e despertam a curiosidade. Que tal nos escrever sugerindo temas para os episódios e para o nosso site?  Com certeza, todo mundo vai sair ganhando com essa troca. Eis aqui algumas formas de participar:

– Conte sua história de migração.

– Indique intituições e projetos que lidam com a temática da migração e do empoderamento de pessoas migrantes.

– Sugira temas relacionados à migração.

– Indique filmes, livros, músicas, séries, cursos, palestras e eventos que tratem dessa temática.

  • Queremos fazer do Continuidade um espaço nosso, coletivo. Um acalanto para pessoas migrantes com as suas mais diversas biografias. Para isso, também esperamos fazer muitas parcerias durante este ano, para que possamos chegar a novas pessoas. E nós contamos com o seu apoio para amplificar nossas vozes, compartilhando nosso conteúdo e espalhando as palavras do Continuidade por aí.

No final das contas, o maior desejo do Continuidade para este ano, o desejo que está na base de tudo, é que a gente consiga ter um ano com muita saúde, informação e leveza. Vem fazer o Continuidade junto com a gente!

*Por Cris Oliveira

Imagem de destaque: Free-Photos por Pixabay.

Canções de Migração: Na Volta Que o Mundo Dá

A canção Na Volta Que o Mundo Dá, que conhecemos na voz da cantora Vânia Abreu, parece ter sido feita para o Continuidade. A letra é linda e faz quase que um resumo das fases da migração, das quais a gente tanto falou nos primeiros episódios do nosso podcast.

A música retrata uma migração voluntária e começa falando daquele sentimento que, muitas vezes, não sabemos muito bem de onde vem. É aquele “chamado”, uma vontade de experimentar viver em outro lugar.

Um dia eu senti um desejo profundo

De me aventurar nesse mundo

Pra ver onde o mundo vai dar

Ao chegar no destino, é comum vivermos uma euforia deliciosa com as novas experiências. O novo pode ser bastante sedutor e a sensação de realizar um sonho é mesmo muito gostosa.

Pisei muito porto de língua estrangeira

Amei muita moça solteira

Fiz muita cantiga por lá

Varei cordilheira, geleira e deserto

O mundo pra mim ficou perto

E a terra parou de rodar

Passada a euforia inicial, vêm as dificuldades. É quando a realidade bate na porta e, muitas vezes, traz consigo a vontade de voltar para o que nos é familiar. Nesta fase, sempre alertamos sobre a importância de ter atenção aos nossos sentimentos e de buscar ajuda, se necessário. Mesmo que a tristeza seja algo normal e parte da vida, lembre-se que você não precisa enfrentar o mundo sozinha(o).

Com o tempo

Foi dando uma coisa em meu peito

Um aperto difícil da gente explicar

Saudade, não sei bem de quê

Tristeza, não sei bem por que

Vontade até sem querer de chorar

O luto na migração, como já vimos, pode vir de muitas formas. A dor de se sentir não pertencente a lugar nenhum pode ser uma delas. A gente fica meio perdido porque ainda não se sente em casa no país de acolhida, mas também percebe que já não se encaixa no lugar de onde viemos.

Angústia de não se entender

Um tédio que a gente nem crê

Anseio de tudo esquecer e voltar

Com o tempo (e com ajuda!) a gente espera que essas dores melhorem e que a gente possa, finalmente, chamar de lar o lugar onde escolhemos viver. Mesmo que esse lugar seja o mundo inteiro.

Agora aprendi por que o mundo dá volta

Quanto mais a gente se solta

Mais fica no mesmo lugar

Na Volta que o Mundo dá é uma canção de autoria de Vicente Barreto e Paulo César Pinheiro e, em 1988, foi gravada pela cantora Mônica Salmaso no seu disco Trampolim. A versão de Vânia Abreu foi gravada em 1999 e faz parte do disco Seio da Bahia.

Aperta o play pra ouvir Vânia Abreu cantando Na Volta Que o Mundo Dá!

Pessoas Migrantes: Antoni Porowski

Antoni Porowski é um dos protagonistas da série-reality da Netflix Queer Eye. Essa série vai fazer você sorrir e se emocionar com os cinco hilários e queridíssimos Karamo, Bobby, Johnathan, Tan e Antoni. Os cinco têm a missão de passar uma semana acompanhando uma pessoa (previamente indicada por algum/a amigo/a, familiar ou outra pessoa próxima) e ajudando-a em um processo de transformação.

Durante esse tempo, os Fab Five, como eles mesmo se identificam, ajudam a pessoa indicada a entrar num processo de autoconhecimento, lhe dão um banho de loja, fazem uma mudança no visual com corte de cabelo e os escambáu, reformam sua casa e lhe dão dicas de como se alimentar melhor e preparar um jantar bacana para a pessoa que o/a indicou. É nessa parte que Antoni Porowski, nossa pessoa migrante da vez, mostra seu talento.

Antoni, o especialista em culinária e vinhos da série, tem pais migrantes, assim como ele também é. Sua mãe polonesa e seu pai belga migraram para o Canadá antes de seu nascimento. Com isso, ele acabou sendo o primeiro da sua família a nascer e crescer fora da Europa. Nascido no Canadá em 1984, ele cresceu falando inglês, francês e polonês em casa. Essas habilidades linguísticas, que hoje em dia geralmente seriam vistas com admiração, foram motivo para estranhamento na escola quando ele se mudou com a família para os Estados Unidos. Isso foi o que ele descobriu quando estava no sétimo ano na escola e sua família resolveu migrar da cosmopolita cidade de Montreal, no Canadá, para uma cidade pequena da conservadora West-Virginia, nos Estados Unidos.

Antoni Porowski / Imagem: Instagram

Antoni conta que suas habilidades linguísticas eram vistas com estranheza pelos colegas de escola e até pela professora, que sempre perguntava porque que ele não podia simplesmente falar apenas inglês como os demais adolescentes. Essa não era a única diferença que seus colegas de escola não toleravam. Eles também faziam muitas piadas xenofóbicas e basicamente não tinham tolerância para as diferenças culturais que eles detectavam nos comportamentos e hábitos de Antoni. Até os lanches que ele levava para a escola eram motivo de piadas e comentários preconceituosos. Em uma entrevista, ele contou que a imagem que as pessoas daquele estado e naquela época tinham sobre imigrantes era realmente muito limitada. Para eles, ser imigrante significava automaticamente ser um refugiado fugindo de calamidades, guerras ou pobreza. Era como se não houvesse outra possibilidade.

Essa falta de compreensão e o sentimento de não pertencimento causados por ser constantemente excluído por causa de sua origem fez com que Antoni vivesse uma grande crise com sua identidade cultural. Por muito tempo ele desejou ter um nome diferente, mais americano, como Porter ou Portman. Quando ele estava começando a se aventurar na carreira de ator, chegou a considerar seriamente trocar de nome. Ele revela que fazer parte dos Fab Five do programa Queer Eye também o ajudou a se sentir mais tranquilo com sua identidade cultural. Hoje em dia, ser um homem com um sobrenome polonês, com sexualidade fluída e em um relacionamento homossexual, faz com que ele receba milhares de mensagens de jovens gays poloneses agradecendo pela visibilidade que o status de celebridade dele ajuda a dar à causa na Polônia, país onde a homossexualidade ainda é um enorme tabu.

Hoje em dia, Antoni celebra a mistura de culturas que compõem a sua identidade e sempre as mostra e tematiza com muito orgulho em entrevistas e episódios de Queer Eye.

*Por Cris Oliveira

Imagem de destaque: Paul Brissman / The Times

Fonte: https://www.thelist.com/134951/the-untold-truth-of-antoni-porowski/

Canções de Migração: De Volta Pro Meu Aconchego

De Volta Pro Meu Aconchego é uma música de amor, isso não podemos negar. Mas, se a gente olhar com cuidado, é possível interpretar a canção como sendo a fala de uma pessoa migrante que expressa uma sensação de alegria e acolhimento ao voltar pra casa. Isso também é amor.

“De Volta Pro Meu Aconhego” é uma composição de Dominguinhos e Nando Cordel.

Na música, o eu lírico deixa clara a sua felicidade ao voltar “pro seu aconchego” e retrata a saudade que sente do seu lugar de origem. Esse trecho da música leva à interpretação de que, talvez, este retorno seja algo sazonal, não definitivo. Talvez também não seja a primeira vez que acontece.


“É duro ficar sem você, vez em quando

Parece que falta um pedaço de mim

Me alegro na hora de regressar

Parece que eu vou mergulhar

Na felicidade sem fim

No entanto, como já falamos muitas vezes por aqui, voltar pra casa não significa necessariamente negar a vida como imigrante. É possível sentir-se bem no retorno e, ainda assim, gostar e se conectar com o país onde se vive. A migração muitas vezes é uma escolha, o que pode significar uma experiência bastante positiva, apesar dos inúmeros desafios.

Estou de volta pro meu aconchego

Trazendo na mala bastante saudade

Essa saudade que vai na mala pode, sim, ser do país de origem; uma saudade acumulada pelo tempo em que se esteve fora. Mas também pode ser do local de acolhida, que vai junto com o eu lírico nessa viagem, apesar da felicidade latente pelo retorno.

Que bom poder tá contigo de novo

De Volta Pro Aconchego é uma composição de Dominguinhos e Nando Cordel e ficou eternizada na voz da cantora Elba Ramalho. Em 1985, a música foi tema do protagonista Roque (José Wilker) da novela Roque Santeiro.


Clica no play pra curtir essa música tão linda!

*Por Lali Souza

*Imagem de destaque: site oficial Elba Ramalho / divulgação.

Mulheres Migrantes: Liz Claiborne

Hoje, falaremos de um grande nome da moda internacional, que venceu barreiras e fundou sua marca numa indústria, até então, dominada por homens: Liz Claiborne.

Anne Elisabeth Jane Claiborne, mais conhecida como Liz Claiborne, nasceu em Bruxelas. Aos 20 anos, em 1949, imigrou para os Estados Unidos. A primeira cidade que recebeu a jovem foi Nova Orleans, mas ela também chegou a viver em Catonsville e, anos mais tarde, fixou residência em Nova Iorque.

Liz estudou Artes e trabalhou para nomes como Tina Leser e Omar Kiam até que, em 1979, fundou a sua própria empresa, que foi batizada de Liz Claiborne, Inc. Além de ser uma atitude à frente de seu tempo – naquela época havia poucas mulheres donas de seus próprios negócios, Liz ainda inovou no tipo de produto. Suas coleções estavam focadas na mulher trabalhadora. As peças tinham um toque elegante e clássico (mas sempre com um toque atual), a preços acessíveis.

Imagem: Liz Claiborne / Divulgação – https://www.lizclaiborne.com/about/

A Liz Claiborne, Inc. ganhou sucesso e notoriedade. Em 1986, a Liz Claiborne, Inc. se tornou a primeira empresa fundada por uma mulher a entrar na lista das 500 maiores da Fortune. A estilista também foi a primeira CEO mulher de uma empresa Fortune 500.

O negócio cresceu e abraçou também o vestuário masculino (sob a marca CLAIBORNE) e também uma linha de acessórios, com bolsas, sapatos, bijuterias e até um perfume.

Claiborne atribuiu seu senso de estilo à sua educação europeia e seu estudo de arte.

Fonte: Imigration to United States – https://immigrationtounitedstates.org/

Além do trabalho como estilista e dos famosos “terninhos” típicos da marca, Liz Claiborne também era conhecida por defender e lutar por mais espaço para a mulher dentro do mercado da moda.

Depois de algumas decisões ruins, o valor de mercado da Liz Claiborne, Inc. caiu muito e o negócio perdeu seu lugar de destaque no universo da moda. Muitas das marcas da empresa foram vendidas a outras companhias.

Liz Claiborne faleceu aos 78 anos no Hospital Presbiteriano de Manhattan, em Nova Iorque, no verão de 2007, vítima de um câncer contra o qual lutava há mais de uma década. A marca e o legado de Liz Claiborne permanecem vivos.

*Por Lali Souza

Fontes:
Liz Claiborne – Site Oficial
20 minutos
Mundo das Marcas
Imigration to United States

Imagem de Destaque: Liz Claiborne fashion designer |© Sara Krulwich/WikiCommons