O que fazer enquanto o visto de trabalho não sai? 4 dicas para aproveitar o tempo e acalmar a ansiedade.

Em muitos países para onde migramos, não é possível começar a trabalhar imediatamente por vários motivos. Muitas vezes, o novo país tem uma língua oficial diferente da nossa e as oportunidades de trabalho podem ser fortemente ligadas ao domínio do idioma local. Em muitos casos, também, nossos diplomas e qualificações do país de origem precisam passar por um processo de reconhecimento oficial antes que possamos, realmente, nos aventurarmos na busca de emprego. Além de tudo isso, outras vezes ainda precisamos esperar sair algum tipo de autorização de trabalho.

Todos esses processos, por serem muito burocráticos, podem demandar bastante tempo, o que acaba se tornando um grande desafio para a pessoa imigrante: ter paciência para esperar as coisas acontecerem. Isso pode ser ainda mais difícil para pessoas que migram em busca de melhores condições de trabalho, de carreira ou de estudos.

Sabemos que essa espera pode ser angustiante. Muita gente fica com a impressão de estar “parada” no tempo. Uma forma de controlar essa ansiedade é tentar uma mudança de perspectiva e lançar o olhar para uma série de coisas que podemos fazer enquanto esperamos.

Neste texto, trazemos algumas sugestões do que fazer enquanto as situações burocráticas ainda não se resolveram. Eperamos que, com isso, possamos dar uma controlada na sensação de estagnação que essa fase da migração pode gerar.

– Faça cursos.

Imagem: StockSnap por Pixabay

Existe uma oferta infinita de cursos online que podemos aproveitar. Muitos até são gratuitos! Enquanto a gente espera nosso visto sair, é possível nos especializarmos, mudar o foco e aprender coisas novas. A oferta é tão ampla que, hoje em dia, a maior dificuldade é escolher que curso fazer. A plataforma Coursera, por exemplo, tem centenas de cursos em parceria com diversas universidades internacionais, nas mais diversas áreas do conhecimento. Você pode fazer os cursos simplesmente para ampliar seus conhecimentos, como também para receber um certificado. Vale a pena dar uma olhada em seu catálogo.

Faça algum trabalho voluntário.

Você sempre pensou em se enagajar em alguma causa social ou política e nunca teve tempo? Enquanto você espera seu visto sair, pode ser o momento perfeito para você fazer isso. Além de te dar um outro foco, isso vai te proporcionar vivências e uma oportunidade valiosa de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. Busque associações, ONGS e causas locais para se engajar. A experiência é valiosa e ainda é uma forma de você entrar em contato com a comunidade que te acolhe e de criar vínculos no novo país.

– Aprenda a língua local ou algum outro idioma.

Aprender a língua local pode ser um desafio importante, que possibilitará maior independência e uma participação na vida da cidade de forma mais ampla. Além disso, nos próprios cursos que você fizer, pode conhecer outras pessoas e histórias de migração e, assim, constituir os seus primeiros vínculos no novo local. Isso também vai te ajudar a ampliar a perspectiva sobre os desafios e desejos que te conectam com o lugar onde você está.

– Conheça a cultura local.

Nos nossos novos lugares, podemos lançar um olhar atento a como são os hábitos, os valores e costumes locais. Podemos fazer descobertas belas e inusitada! Por exemplo, em Hamburgo, saber que todo sábado tem uma das maiores feirinhas de orgânicos do mundo debaixo de um viaduto (Isemarkt) ou então que uma comida de rua super típica da cidade é um sanduíche de peixe cru, com pele e tudo (Fischbrötchen)!

Sorrir e se surpreender ao conhecer o diferente ou reconhecer semelhanças podem ajudar a aumentar a sensação de pertencimento por perceber onde se está (e quando ligar para familiares ou receber amigos, poder contar “onde eu moro é assim”).

Aproveite para passear, visitar museus, andar por aí sem destino admirando as paisagens. Assim que o seu visto sair, a situação pode mudar e esses momentos de simples conexão com o lugar, um dia-a-dia leve, podem se tornar raros.

Esperamos que essas dicas sirvam de inspiração para vocês. No entanto, precisamos relembrar da dica mais importante de todas: tenha paciência.

O fato de que é possível ocupar nosso tempo com atividades diferentes como forma de controlar nossa ansiedade, não significa que a gente deva fazer isso o tempo todo. Lembre-se de que, na primeira fase da migração, essa pressão que sentimos para absorver tudo e a necessidade de nos ocuparmos o tempo inteiro é real. Porém, nossa psique também precisa de um descanso e espaço livre para se organizar. O ideal é encontrar um equilíbrio: nos mantermos em atividade, mas também preservarmos um espaço para deixar que as coisas aconteçam em seu tempo.

Neste processo de esperar por algo que não está nas nossas mãos, podemos sentir receio de não dar certo. Por isso, pode ser difícil nos envolvermos em novas atividades e relacionamentos, além de sermos guiados pela premissa: “depois que der certo, eu vou…”. Isso pode ser uma condicional dura e que inviabiliza apreciar e valorizar os pequenos passos diários de descobertas e superações.

Dito isto, finalizamos esse texto com um trecho que Guimarães Rosa escreveu em seu último livro publicado em vida: “a felicidade se acha em horas de descuido”. Durante a espera, pode haver vida, conexão, esperança e a brincadeira. Aproveite cada instante!

*Por Dani Stivanin

*Revisado por Cris Oliveira e Lali Souza

Imagem de destaque: Pexels por Pixabay

Histórias de Migração: Daniel Castelani

Olá. Meu nome é Daniel Castelani. Sou brasileiro, nascido em Campinas, interior de São Paulo, e editor deste podcast. E não, não é uma “carteirada” eu dizer logo de cara que edito o Continuidade. Na verdade, isto é importante pra caramba, pois foi tendo o privilégio de ouvir todos os episódios em primeiríssima mão que me dei conta do quão migrante sou e de quantas fases eu já vivi e revivi sem nem sentir. Mas deixe-me contar um pouco sobre minha história de migração.

Como disse lá em cima, sou natural de Campinas, onde vivi os primeiros 6 anos de minha vida. Meu pai recebeu, em 1982, uma oferta de emprego em Salvador, na Bahia, sua terra natal, e a família toda se mudou para terras soteropolitanas: eu, minha irmã de 3 para 4 anos, minha mãe, uma paulista de Valinhos, e meu pai, o baiano expatriado que já era mais paulista que nada.

Cresci em Salvador, onde cultivei amizades, aprendi a ser gente e recebi toda sorte de contribuições culturais, mas, no fundo, sempre me senti um “outsider”. Em casa, éramos paulistas e essa dicotomia sempre me acompanhou.

Fui pai muito cedo, aos 18 anos. Minha namorada, a Fran, também tinha um histórico de migração em sua família. Filha de pai gaúcho e mãe do interior da Bahia, foi levada para morar, com apenas dois aninhos, em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Voltou com 6 anos para Salvador e acredito que sofreu da mesma dificuldade que eu: uma sensação de não pertencimento.

Após 3 anos de casados, resolvi fazer o caminho inverso de meu pai e voltar para Campinas. Fomos eu, Fran e Bia, minha filha que, com 3 anos, saía de sua terra natal para viver na minha (incrível como repetimos padrões de nossos pais mesmo que de forma inconsciente).

Vivemos por seis anos em Campinas e foram anos mágicos. A cidade é muito gostosa e nos sentimos pela primeira vez como uma família de verdade. Foi um tempo de crescimento e reafirmação para todos nós, mas, um dia, recebi um telefonema com uma proposta de trabalho irrecusável em Salvador. Após uma reunião familiar, decidimos voltar.

Mais 10 anos de Salvador, tempo em que obtive crescimento profissional, construímos uma casa, nos endividamos, enfim, a vida aconteceu.

No final de 2014, após uma série de acontecimentos que culminaram em desemprego e desespero, resolvemos tentar a vida em Santa Catarina, mais precisamente em Timbó, local de onde escrevo este texto para o site do Continuidade.

Estou convicto de que estas mudanças de estado e cidade moldaram boa parte de minha personalidade. Por vezes, me pego pensando em como seria se tivesse vivido na mesma cidade, no mesmo bairro, na mesma casa, como tantas pessoas que conheço. Como seria minha vida?

Mas sabe de uma? Com certeza não teria as experiências que tive, os sotaques que experimentei, nem a diversidade de pensamento e tolerância com o diferente que tenho hoje. De quebra, ainda acho que transmiti para minha filha este gosto por viver em cidades diferentes.

Sou, hoje, fruto das minhas vivências e escolhas e a migração, sem dúvida, faz parte de quem eu sou.

Eu sou Daniel Castelani e esta é minha história de migração, qual é a sua?

*Por Daniel Castelani