Canções de Migração: Na Volta Que o Mundo Dá

A canção Na Volta Que o Mundo Dá, que conhecemos na voz da cantora Vânia Abreu, parece ter sido feita para o Continuidade. A letra é linda e faz quase que um resumo das fases da migração, das quais a gente tanto falou nos primeiros episódios do nosso podcast.

A música retrata uma migração voluntária e começa falando daquele sentimento que, muitas vezes, não sabemos muito bem de onde vem. É aquele “chamado”, uma vontade de experimentar viver em outro lugar.

Um dia eu senti um desejo profundo

De me aventurar nesse mundo

Pra ver onde o mundo vai dar

Ao chegar no destino, é comum vivermos uma euforia deliciosa com as novas experiências. O novo pode ser bastante sedutor e a sensação de realizar um sonho é mesmo muito gostosa.

Pisei muito porto de língua estrangeira

Amei muita moça solteira

Fiz muita cantiga por lá

Varei cordilheira, geleira e deserto

O mundo pra mim ficou perto

E a terra parou de rodar

Passada a euforia inicial, vêm as dificuldades. É quando a realidade bate na porta e, muitas vezes, traz consigo a vontade de voltar para o que nos é familiar. Nesta fase, sempre alertamos sobre a importância de ter atenção aos nossos sentimentos e de buscar ajuda, se necessário. Mesmo que a tristeza seja algo normal e parte da vida, lembre-se que você não precisa enfrentar o mundo sozinha(o).

Com o tempo

Foi dando uma coisa em meu peito

Um aperto difícil da gente explicar

Saudade, não sei bem de quê

Tristeza, não sei bem por que

Vontade até sem querer de chorar

O luto na migração, como já vimos, pode vir de muitas formas. A dor de se sentir não pertencente a lugar nenhum pode ser uma delas. A gente fica meio perdido porque ainda não se sente em casa no país de acolhida, mas também percebe que já não se encaixa no lugar de onde viemos.

Angústia de não se entender

Um tédio que a gente nem crê

Anseio de tudo esquecer e voltar

Com o tempo (e com ajuda!) a gente espera que essas dores melhorem e que a gente possa, finalmente, chamar de lar o lugar onde escolhemos viver. Mesmo que esse lugar seja o mundo inteiro.

Agora aprendi por que o mundo dá volta

Quanto mais a gente se solta

Mais fica no mesmo lugar

Na Volta que o Mundo dá é uma canção de autoria de Vicente Barreto e Paulo César Pinheiro e, em 1988, foi gravada pela cantora Mônica Salmaso no seu disco Trampolim. A versão de Vânia Abreu foi gravada em 1999 e faz parte do disco Seio da Bahia.

Aperta o play pra ouvir Vânia Abreu cantando Na Volta Que o Mundo Dá!

Morar Fora: Expectativa x Realidade

Migrar exige muita cautela, preparação e vai além dos aspectos apenas burocráticos. Cuidar de nossos documentos e das questões legais para viabilizar essa empreitada é apenas uma parte de algo bem maior. É muito importante, também, cuidar de nosso emocional. Muito desse cuidado vem de aprender a equilibrar a nossa expectativa e a realidade que estamos prestes a encontrar.

No segundo episódio do nosso podcast (Esperanças e Expectativas no Processo Migratório) falamos de como, na primeira fase da migração, as expectativas altas podem levar a grandes decepções. Quanto mais idealizamos a vida no novo país, mais difícil fica aceitar a realidade quando, finalmente, conseguimos percebê-la. O autocuidado, sob a forma de reflexão constante e atenção com nós mesmas(os), pode nos ajudar a mantermos a conexão com a realidade.

De forma semelhante, devemos atentar para certas comparações que fazemos. No processo de migração, a busca por informação é fundamental, mas nos compararmos com outras pessoas pode também atrapalhar. Sabe aquela sua conhecida que aprendeu a falar o idioma local rapidinho e já arrumou um emprego? Aquele seu conterrâneo que conseguiu tirar a cidadania em tempo recorde? Ficar se atormentando e procurando as razões pelas quais você ainda não conseguiu chegar ao mesmo patamar não vai ajudar em nada o seu processo.

Na migração, as pessoas podem até passar por processos psíquicos semelhantes (o estranhamento, as decepções, a euforia, a saudade, entre tantos outros), mas não podemos esquecer que, ainda assim, temos histórias de vida próprias e nossas trajetórias na imigração também são influenciadas por nossas individualidades.

Uma sugestão: se você está pensando em emigrar, ou já está morando fora, evite comparar sua trajetória com a de outras pessoas e qualificar suas conquistas de acordo com os marcos da vida dos outros.  Ao invés disso, procure se informar bastante, focando sua atenção nos aspectos práticos que, de fato, são relevantes para você (por exemplo, saber como deve ser um currículo de profissional da sua área, onde há cursos de idiomas, etc).  

Paralelo a isso, crie o hábito de refletir e de entrar em contato com você mesma(o). Você tem respeitado a sua maneira de resolver as coisas? Como você está se sentindo em meio a tudo isso? Você consegue pedir ajuda se precisar?

Deixar tudo para trás e se aventurar em outro país nos leva para dentro de um emaranhado burocrático e emocional. Olhar para dentro de si, nesse processo, ajuda a trilhar um caminho do seu jeito, sem pressão, evitando que você se perca. Sob essa perspectiva mais amorosa, a migração também pode te proporcionar uma gratificante viagem de autoconhecimento.

Clica aqui pra ouvir o episódio “Esperanças e Expectativas no Processo Migratório”.

*Por Cris Oliveira