Você fala Deutschguês?

Depois do meu Termin fui tomar um sol no Balcão. Aí peguei meu Handy e liguei para uma amiga.

Que frase é essa, Continuidade? Enlouqueceram, foi?

Imagem: what? By Nebraska Department of Education @Pixabay

Calma, gente! Essa frase é um exemplo de Deutschuguês, uma mistura entre alemão e português, muito falada pela brasileirada na Alemanha. Traduzindo isso aí para o português padrão, ficaria assim:

Depois de meu compromisso, fui tomar um sol na varanda. Peguei meu celular e liguei para uma amiga.

O Deutschguês, não é a única “língua” híbrida que existe no mundo bilíngue. Tem gente que fala portunhol, deutschnhol, danglish, spanglish e por aí vai. Quando falamos dois ou mais idiomas fluentemente, as chances são grandes de que, em algum momento, eles acabem se misturando em uma frase ou outra. Isso é um fenômeno natural do bilinguismo chamado code-switching. Nós falamos um pouco sobre isso no episódio 14 da primeira temporada.

De forma bastante resumida, o code-switching é uma solução rápida que nosso cérebro encontra quando estamos falando com pessoas que compartilham os mesmos códigos (idiomas) que a gente. Ou seja, se eu sei que a pessoa com quem eu estou falando entende tanto o português quanto o alemão, o meu cérebro se sente à vontade para buscar vocabulário e estruturas dessas duas línguas para nos comunicarmos. É um fenômeno do bilinguismo que não significa ter menor fluência numa determinada língua.

Imagem: Brain by @elisa_riva  @ Pixabay

É muito interessante notar que crianças bilíngues não fazem code-switching quando falam com pessoas que elas sabem que não dominam os dois códigos. No entanto, se você convive com crianças em fase de desenvolvimento da linguagem (até os 4 anos de idade), vale a pena prestar atenção à forma como você se comunica com elas, já que essas crianças vão desenvolver suas habilidades linguísticas através dos exemplos gerados pela interação entre vocês.

É importante que observar também como sua linguagem se adequa às diversas situações que você vivencia. Por exemplo, é tranquilo deixar sua fala rolar como ela bem quiser quando você estiver no churrasco com seus amigos e amigas, mas é uma boa ideia prestar atenção para não ficar misturando as línguas quando estiver numa entrevista de emprego ou quando falar com algum professor na faculdade.

That’s all! Se quiser falar mais com a gente sobre isso, manda uma mensagem aqui nos comentários. Tchüss!

*Por Cris Oliveira

Histórias de Migração: Clarisse Och

Irmã mais nova de uma família de 3 irmãos, nasci em João Pessoa, na Paraíba. A minha história de migração começou desde muito cedo e sempre fez parte da minha vida.

Aos 4 anos de idade, fui morar no Canadá. O meu pai, professor universitário, fez doutorado na área de Engenheira Biomédica numa província de difícil pronuncia: Saskatchewan. Apesar de muito nova, ainda consigo lembrar que, quando chegamos em casa depois de uma longa viagem, eu pedi para ligar a TV e colocar nos Trapalhões.

Foram quase 5 anos morando no Canadá. Na adolescência, eu sentia uma vontade enorme – até hoje, para mim, inexplicável – de morar fora novamente. Vivia insistindo para meus pais bancarem um intercâmbio, mas não rolava. Até que comecei a vida universitária e encontrei um leque de opções de intercâmbios. Munida de argumentos, conversei com meus pais, que autorizaram (e financiaram) a minha ida para Bremen, na Alemanha, para fazer um curso superior de Global Management durante um ano. Este ano foi muito intenso, conheci pessoas incríveis que fazem parte da minha vida até hoje.

Voltei ao Brasil, terminei o meu curso de Administração, comecei a trabalhar e quem disse que aquela vontade de morar fora tinha passado? Muito pelo contrário, piorou! A oportunidade apareceu: fui selecionada para uma bolsa de estudos na mesma universidade que tinha feito o intercâmbio em Global Management, mas, agora, para fazer um mestrado.

O tempo do mestrado também foi vivido com muita intensidade. E foi nessa época que conheci a Cris e a Flora. Tudo ia muito bem, concluí o mestrado e estava fazendo um estágio em Marketing. Com quase 3 anos morando na Alemanha, muito feliz com as minhas conquistas, eu conheci quem seria o meu futuro marido. E sabe o que ele me pediu? Não, não foi em casamento. Pediu para morar no Brasil! Era tudo o que eu NÃO queria, mas avaliei que, se estávamos querendo construir uma vida juntos, seria bom para o relacionamento se ele aprendesse a minha língua e a minha cultura.

Estava bem claro para todas as partes que a nossa ida ao Brasil seria temporária e lá vivemos por 8 anos. Ele se integrou bem, tínhamos estabilidade e nasceram ali os nossos 2 filhos. Mas eu ainda queria morar fora do Brasil, esse sentimento nunca tinha me largado. Colocamos todos os prós e contras no papel e decidimos que seria mesmo tempo de voltar para a Alemanha.

Há 5 anos voltamos à Bremen, a cidade onde nos conhecemos e onde temos amigos. A chegada foi tranquila, aos pouco as coisas foram se moldando e se estabilizando.

Atualmente, trabalho como Sales Manager com foco principal no mercado Brasileiro. Além disso, dedico uma parte do meu tempo com muito amor e carinho como colaboradora do Continuidade Podcast, este projeto maravilhoso de autoria de minhas amigas Cris e Flora. A minha responsabilidade é tratar de assuntos comerciais, assim como a criação dos posts para as redes sociais. Eu fico ansiosa para ouvir os novos episódios e adoro quando eles estão cheios de reflexões.

Eu me sinto muito em casa na Alemanha, apesar da saudade que sinto dos familiares, dos amigos e, especialmente, das festividades no Brasil, como a virada de ano na praia, o Carnaval e o São João.

Eu sou Clarisse Och e essa é a minha história de migração. Qual é a sua?