Crianças Migrantes

Aqui no site e no podcast, nós tecemos nossas “conversas” sobre como se desenvolve a migração a partir dos aspectos emocionais, de como a sentimos, a vivenciamos e caminhamos no novo país de acolhida. Os nossos passos podem ser largos, calmos ou temerosos. Muitas vezes, somos acompanhados por passos pequeninos, curiosos ou ressabiados: os passos das crianças que nos acompanham nesta nova trilha de línguas, costumes e gostos. E nós, preocupados em andar para frente, muitas vezes não percebemos como são estes movimentos das nossas crianças e os seus olhares. Hoje, vamos dar o palco a elas! Se aconchegue!

A percepção da criança da “nova casa” ou do lar que fala duas línguas e que se divide em voos emocionados para outro país onde parte da sua família está, pode ser construída e influenciada pela fase de desenvolvimento que ela se encontra (e da compreensão cognitiva e emocional que pode ser possível em cada idade), pelas características de personalidade que está se desenvolvendo (o jeitinho tão característico de cada um), pelas características familiares e pelos estilos parentais de educação (como são geralmente as condutas dos pais no dia a dia). Além disso, podemos somar outros ingredientes na nossa “poção mágica” da vida de migrante, que são os aspectos que motivaram a migração, as expectativas dos cuidadores das crianças frente ao novo país e como ele pode impactar na vida do filho, por exemplo, na possibilidade de uma melhor educação e no tão sonhado multilinguismo. Faltaram alguns ingredientes? Então vamos colocar a receptividade e as características do país de morada. Que poção e tanto!

Foto: Mauricio de Paula (Flickr)

Uma coisa é certa: essa poção será única para cada família e para cada fase em que se encontra. As crianças podem sentir ansiedade e estranhamento diante dessa combinação, de tantas mudanças ou frente à agitação dos adultos, que também estão se acostumando à nova sociedade e à própria tarefa de serem pais dessa criança que muda tanto (não é se reaprende a ser pai em cada fase?!). As crianças podem estranhar também os novos sons da língua e como é fazer amizades e brincar usando outras palavras e outros códigos sociais. E neste momento podem vir pedidos como “eu queria ir para a casa”, referindo-se ao país de origem, solicitações de ajuda com o idioma e com expressões emocionais de que algo incomoda ou mexe, como dificuldade para dormir, episódios de choro, de irritabilidade e uma maior necessidade de estar perto dos pais ou das pessoas que falam a língua materna. É preciso observar e construir o conhecimento sobre o que os comportamentos e as emoções estão dizendo sobre a sua criança e o que será que ela está precisando neste momento, como acolhimento, pisar no freio ou de um bom incentivo e também de boas parcerias com o entorno (com a escola, outros mães e pais e quem mais puder se juntar nesta rede de cuidado). 

Por outro lado, as crianças podem nos relatar encantamentos com os seus olhos atentos e curiosos de quem observa, escuta e está construindo a sua forma de ver o mundo. Com os olhos menos embaçados que os nossos, elas podem nos apontar para constâncias das ruas que nunca percebemos, mesmo estando ali todos os dias. Podem gostar logo de cara de sabores novos e pedir para repeti-los com a maior carinha boa. Podem nos fazer falar com outras famílias de nacionalidades diferentes, porque as crianças resolveram espontaneamente que aquele era o momento de brincar (e de conhecer este mundo!). 

E o que elas estão querendo dizer com as suas facilidades ou com suas inquietações? Preparem bem os ouvidos e os olhos, como se tivessem assistindo o ápice de uma peça de teatro, onde os nossos pequenos gigantes irão contracenar em grande e bom tom um manifesto: “ei, escutem a gente! Temos muito o que falar e somar! Sabemos de tanta coisa!”. E ousamos complementar e incentivar a importância de ouvir a voz da criança e dar a oportunidade dela nos contar o seu olhar! Nós podemos nos surpreender – e falamos aqui, com o sorriso no canto da boca, lembrando de situações sábias que eles nos ensinaram. Podemos incentivá-los, com isso, a se desenvolverem entrando em contato com as suas emoções, expressando-as, mesmo que de forma desajeitada (aliás, nós também fazemos muitas vezes assim, não é?!) e sentindo que têm voz e que são cuidadas, quando isso for preciso. É difícil, para eles e para nós – mas é um caminho tão promissor! 

No próximo episódio, vamos dar o microfone às nossas crianças, para que elas possam contar a sua história de migração. O protagonismo será delas! E esperamos que aí, durante a conversa na sala de estar, na cozinha, antes de dormir ou no caminho para o supermercado, aconteça o compartilhar de sensações, emoções e pensamentos! 

“Água é uma gota de chuva

É uma gota de nuvem

É uma gota de água para viver”

(Palavra Cantada – De Gotinha em gotinha) 

Por Daniele Stivanin

Imagem de destaque: GraceOda_ (Flickr)

Bilinguismo sem estresse

Oferecer uma educação bilíngue às suas crianças é o sonho de muitas famílias. De fato, falar mais de uma língua pode abrir muitas portas na vida de uma pessoa. Há vagas de empregos, cursos universitários, eventos culturais, viagens e muitas outras oportunidades que só são possíveis para pessoas que falam mais de um idioma. Por esse motivo, muitos pais e mães se ocupam bastante com diversas formas de garantir que seus filhos e filhas aprendam a falar outros idiomas o quanto antes.

Para famílias migrantes, isso é, na maioria das vezes, uma condição natural. Crianças nascem e frequentam a escola em um país no qual a língua local é diferente da que é falada pelos seus pais e, com isso, vão crescendo com dois ou mais idiomas. No entanto, para muitas dessas famílias o caminho do bilinguismo não é assim tão fácil. Existem questões muito delicadas que envolvem o multilinguismo, sobre as quais refletimos bem pouco ou quase nada.

  1. A educação bilíngue exige muita paciência e comprometimento por parte dos pais.

Quase sempre, por trás de crianças bilíngues super habilidosas, estão pais e mães extremamente determinados e pacientes. São pais e mães que conseguem esperar a ânsia de responder logo que uma pergunta é feita no idioma local, ao invés do seu, para que as crianças tenham a oportunidade de repetir a pergunta, por exemplo. Ou que tem a tranquilidade de, muitas vezes, falar a mesma coisa duas vezes, cada vez em um idioma diferente, para garantir que a criança receba estímulos linguísticos em diversos idiomas. Esses processos exigem calma e dedicação, o que para muitos é difícil ter no dia a dia. Por isso, é importante avaliar se esse tipo de educação se encaixa com a realidade de sua família. Você é paciente? O seu dia a dia permite esse tipo de comprometimento? Se não for o caso, vale a pena reavaliar até que ponto esse tipo de educação faz sentido. Sem persistência e consistência, será mais difícil da criança se acostumar com o uso da língua de herança.

  1. A educação bilíngue não deve excluir a leveza e a naturalidade da convivência

A educação bilíngue não deveria ser almejada a qualquer custo, virando fonte geradora de estresse e comprometendo a qualidade das interações familiares. Crianças bilíngues, muitas vezes, se recusam a falar a língua de herança. Isso pode acontecer porque a língua local ocupa naturalmente uma parcela muito grande e importante no cérebro da criança. Além disso, a criança não pensa nas línguas que fala em termos de utilidade e nem de apego sentimental. Para elas, a importância da língua está diretamente associada à utilidade que o idioma tem para intermediar a atividade mais importante de suas vidas: brincar. Ou seja, quanto mais oportunidades de se divertir e cultivar relacionamentos a criança tiver em um determinado idioma, mais envolvimento ela terá com ele. Isso irá consequentemente aumentar a sua disposição para tentar se comunicar através dele. Ao invés de tentar impor que a criança fale a nossa língua, cabe a nós, adultos, pensarmos em alternativas que levem as crianças a quererem falar aquele idioma. Isso pode ser feito através do lúdico e das conexões pessoais. 

Se ainda assim a criança resistir ao uso da língua de herança, pode ser que seja interessante dar um tempo e reavaliar nossas próprias expectativas com relação ao bilinguismo. Muitas vezes, esse desejo de querer falar a língua dos pais vem aos poucos e é preciso aprender a respeitar o tempo da criança nesse aspecto também. Não podemos deixar de lembrar que existe uma série de valores importantes que precisam ser vividos e passados para elas. Educação linguística é apenas uma parte da educação de forma mais ampla e, na migração, precisamos cuidar para que a tentativa de multilinguismo a qualquer custo não acabe gerando ressentimentos com relação à língua dos pais.

  1. Fale o idioma que seja mais natural para você

No passado, era muito comum ouvir professores e professoras dizendo que uma criança precisaria, primeiro, aprender o idioma local para depois começar a aprender outros. Levados por essa falácia, muitos pais e mães migrantes faziam um verdadeiro esforço para falar com seus filhos e filhas na língua local para que eles aprendessem o idioma dominante o quanto antes. Hoje em dia, já sabemos que é desnecessário nos preocuparmos com isso. Desde muito pequenas, as crianças são capazes de aprender duas ou mais línguas simultaneamente, sendo necessário para isso apenas serem expostas e terem interações significativas nesses idiomas. Ou seja, fale com seu filho ou sua filha no idioma que você se sente à vontade e tenha segurança. A exposição a modelos linguísticos de qualidade é muito importante na fase de desenvolvimento da linguagem. O idioma local poderá ser aprendido facilmente depois que a criança entrar em contato com outras crianças na creche ou escola.

Em resumo, crescer com duas ou mais línguas é um enorme privilégio que deve ser conquistado com leveza, paciência e afetuosidade. Através das línguas que falamos aprendemos a decodificar o mundo à nossa volta e isso pode ser conquistado de forma tranquila e respeitando o tempo e os limites da criança e da família. O bilinguismo, assim como qualquer outra coisa na educação infantil, deve ser um meio de estabelecer laços afetuosos na família e de apoiar no desenvolvimento da criança. Isso tudo deve ser encarado com leveza e naturalidade e não ser implementado de forma rígida, que venha a comprometer a estabilidade e os vínculos familiares. Educação bilíngue, sim! Mas sem culpa, sem pressão e sem estresse.

Quer saber mais sobre esse tema? Escute o nosso novo episódio! Clique aqui pra ouvir.

Por Cris Oliveira

Foto de destaque: B Marra @ Flickr

Workshop Online: “Relacionamentos na Migração e as Constelações Familiares”

Estamos super felizes em anunciar que vem aí mais um Workshop do Continuidade! O nosso encontro acontecerá neste sábado, dia 25 de setembro, das das 10:00h às 13:00h (Horário de Berlim). E nem precisa se preocupar em sair de casa, viu? O workshop será online, através do Zoom. A contribuição é de entre 15€ e 20€.

Neste encontro, vamos focar principalmente nas relações familiares e em como elas podem afetar a nossa saúde mental. Através do conhecimento da constelação familiar sistêmica convidamos você a refletir quais aspectos de seus relacionamentos (sejam eles interculturais ou não) são importantes para dar continuidade ao seu processo de desenvolvimento emocional e de cuidado da saúde mental. Esse conhecimento lhe ajudará também no entendimento de comportamentos das gerações familiares futuras: filhos, sobrinhos, netos.

Esse aprendizado pode fazer diferença na forma como lidamos com os desafios nque envolve a relação com a nossa família. Além disso, queremos despertar a sua curiosidade e empatia pela sua própria história intergeracional, assim como pela de quem te cerca.

Vamos descobrir juntos as dinâmicas inconscientes que podem ilustrar os movimentos dos nossos relacionamentos amorosos e migratórios? Vamos aumentar suas possibilidades de ação diante aos desafios de morar fora e formar família?

A gente espera você no sábado, dia 25 de setembro!

Quando: 25/09/21, das 10:00h às 13:00h (Horário de Berlim)
Onde: Pelo Zoom
Contribuição: entre 15-20Euros*
Vagas limitadas!

CLIQUE AQUI PARA FAZER A SUA INCRIÇÃO

*Atenção! Se o seu interesse é grande, mas não pode pagar esse valor no momento, entre em contato com a gente. O valor da contribuição não deve impedir a sua participação.

Você está cuidando de sua saúde mental?

Escutamos com frequência o termo Saúde mental (SM), mas o que ela é de fato? É um conceito que abrange o nosso bem-estar subjetivo, a percepção de ser capaz de realizar as nossas atividades com autonomia e sentir realização no nosso potencial intelectual e emocional (OMS, 2001).  Nada simples, não é? Isso quer dizer que, para a gente se sentir bem, temos que olhar e cuidar de muitos conteúdos nossos.

A Saúde Mental é tão importante que a Organização Mundial da Saúde (aquela organização que orienta o mundo inteiro sobre como preservar e cuidar da saúde dos seus cidadãos), nos diz que “a saúde mental, a saúde física e a social são fios da vida estreitamente entrelaçados e profundamente interdependentes” (Relatório da SM, 2001). Ela ainda dedicou este mês de setembro como um período importante de divulgação de informações e sensibilização sobre a SM.

            E como a nossa saúde mental é constituída? Você vai cair da cadeira ao ver quantos elementos influenciam a nossa forma de ver e sentir o mundo! Novamente, vamos chamar alguém bem gabaritado para nos ajudar: a Organização Panamericana de Saúde (OPAS).

“Os determinantes da saúde mental e transtornos mentais incluem não apenas atributos individuais, como a capacidade de administrar os pensamentos, as emoções, os comportamentos e as interações com os outros, mas também os fatores sociais, culturais, econômicos, políticos e ambientais, como as políticas nacionais, a proteção social, padrões de vida, as condições de trabalho e o apoio comunitário.”

Organização Panamericana de Saúde (OPAS)

           

Acredito que você, lendo aí, pensou nos últimos acontecimentos estressantes que tivemos: pandemia, políticas controversas, situações de discriminação e racismo, de insegurança, e muitas outras situações.

O importante, desafiador e, talvez possamos dizer, o mais bonito dessa história toda é que cada um precisará (re)conhecer como a sua própria Saúde Mental funciona: quais os gatilhos para ela não andar bem, quais os cuidados que funcionam para cada um e quais os sinais de que as coisas estão indo bem ou não. Por exemplo, quando percebemos que estamos desatentos, não dormindo bem, irritados demais, sentindo mais ou menos apetite, o quanto estamos disponíveis ou não para contatos interpessoais, como anda a nossa motivação nas nossas atividades e como estamos nos cuidando.

Tudo isso pode ganhar uma complexidade ainda maior na migração, quando não dispomos de forma tão acessível dos recursos que conhecíamos e tínhamos segurança, como a rede de apoio e a confiança na própria identidade, que estão sendo reconstruídos no novo lugar de moradia. Desta forma, a migração pode ser um fator que pode impactar negativamente a SM, uma vez que traz novos desafios em um novo terreno, onde estamos nos reconhecendo (quem sou e quais recursos trago comigo?).  

Neste percurso, podemos levantar alguns pontos importantes:

  • O refinamento a cada dia do autoconhecimento, para saber a sua forma e o seu tempo de construir a sua história de migração;
  • A identificação do que me faz bem ou não (e isso pode partir da observação de coisas muito simples no dia a dia);
  • A busca de conexões com aspectos importantes para cada um na nova terra. Por exemplo, os valores de vida e as atividades que são essenciais ou prazerosos para que, “enquanto o amanhã não vem” (seja na língua, com novos amigos, nonovo trabalho), exista muita vida – prática e emocional – acontecendo;
  • A construção de limites para se preservar, por exemplo, na comunicação com as pessoas próximas e no quanto aceita de fato fazer ou não algo;
  • O reconhecimento e construção de uma boa rede de suporte, descobrindo com quem contar e em qual momento;
  • Psicoterapia, contando com ajuda de um profissional para falar e cuidar do que dói,
  • Grupos de suporte, com outras pessoas que estão passando pela mesma situação, como grupos de pais, de pessoas que tem o mesmo diagnóstico, de leituras, dentre outros.
  • Práticas de meditação, que buscam conectar com o “aqui e agora”, participando do reconhecimento do próprio corpo, da respiração e por aí vai.
  • Acesso a conteúdo construtivos, como, por exemplo, cursos, estudos sobre comunicação não violenta, relatos de outras pessoas, vídeos e podcasts de seu interesse.
  • E muitas outras estratégias que você pode descobrir!

Lembre-se que não precisamos resolver tudo, muito menos caminhar sozinhos. Bons cuidados aí!

Continue nos acompanhando, que, neste mês, iremos publicar alguns conteúdos sobre esta temática.

Por Daniele Stivanin

Referencias:

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE . Relatório sobre a saúde no mundo 2001: Saúde mental: nova concepção, nova esperança. Genebra: OPAS/OMS, p.1-16, 2001.

https://www.paho.org/pt/topics

Foto de destaque: joseba_p_flickr

Histórias de Migração: Silvana Fernandes

Olá, eu sou Silvana Fernandes e venho de uma cidadezinha perto de São Paulo, chamada Santa Isabel. Santa Isabel não tem tanta coisa, mas tem muitos sítios, natureza e algumas cachoeiras. Na minha família, somos dois irmãos e eu.

Eu vim pra Alemanha em 1988. Dia 08 de maio de 1988. Então, amanhã fará exatmente 33 anos que eu estou na Alemanha. Eu vim pra cá porque  que eu tinha um amiga que estava morando aqui. Eu trabalhava em um banco no Brasil e estava bem. Era sub-gerente e, quando pedi demissão, meu chefe falou: “você está louca? Você vai ficar no meu lugar!”. A ele eu respondi: “não, eu não quero. Eu quero é viajar e conhecer o mundo.” E foi isso que eu fiz. Comprei uma passagem de um ano e vim pra Alemanha.

Nesse meio tempo, conheci um amigo do marido de uma amiga que começou a me escrever e começamos um romance. Eu cheguei aqui, a gente se encontrou, se deu bem e acabamos indo morar juntos. Essa relação durou 19 anos e, dela, eu tenho dois filhos, Maurício e Juliana. Maurício já vai fazer 30 anos em junho e a Juliana vai fazer 25 agora em maio.

Depois do término do meu relacionamento eu comecei a cuidar de mim. A princípio eu me sentia como o bagaço de uma laranja. Eu era a mulher do Torsten, a mãe do Maurício e da Juliana. Daí, eu fui procurar quem que era a Silvana. Foi quando eu comecei a pensar no que que eu ia fazer.

Durante todo esse tempo, eu só trabalhava em gastronomia e decidi fazer uma reorientação profissional. Estudei Comércio Exterior aos 46 anos. Terminei o curso em 2 anos e, poucos dias depois de me formar, já estava assinando o meu primeiro contrato. O que, a princício, era só para cubrir as férias de alguém, acabou se tornando um contrato permanente e eu estou nesta firma até hoje. Comércio exterior era, na verdade, exatamente o que eu queria ter estudado no Brasil. Eu tinha passado no vestibular, mas, na época, eu trabalhava no centro de São Paulo e a faculdade na qual eu tinha passado era em Sao Bernardo e não tinha como eu sair às 6 horas do banco e estar às 7 horas na faculdade. Às vezes, na vida, os nossos sonhos demoram um pouco para se concretizarem, mas eles chegam. Hoje, eu adoro minha profissão.

Quando eu cheguei aqui na Alemanha, eu não tinha muitos amigos brasileiros e, com os alemães, é mais difícil de a gente se entrosar. Apesar disso, eu tenho a Anne, uma amiga alemã daquela época, e nós somos próximas até hoje. No começo, eu não gostava muito da Alemanha. Eu já tinha morado no Brasil entre 1993 e 1994 com meu marido, na época que eu ainda tinha apenas meu primeiro filho. No Brasil, nós abrimos um supermercado, mas a inflação no país estava muito alta e não conseguimos manter o negócio. Desmontamos tudo, vendemos e voltamos pra Alemanha.

Meu marido sempre quis morar fora, então, em 2000, fizemos nossa segunda migração. Fomos para Portugal, desta vez com dois filhos, e vivemos um ano lá. As crianças iam para a escola, mas como eu sempre falei português com meus filhos, elas não tiveram dificuldade. Apesar do português de Portugal ser diferente, eles conseguiam se comunicar.

Mas Portugal também não deu certo. Na mesma época, os meus pais estavam me chamando para voltar pro Brasil porque eles tinha uma padaria e queriam que a gente a gerenciasse, para que eles pudessem se aposentar. Nós voltamos para lá, mas, infelizmente, o meu agora ex-marido não se adaptou à situação e acabou voltando antes.

Eu ainda tentei continuar vivendo no Brasil com as crianças, mas também não deu e acabei voltando para cá em 2002. Neste ano, minha filha mais nova entrou para a escola aqui e, em um determinado momento, me deu um clique e eu pensei: “agora eu vou ser feliz na Alemanha!”.

Parece que funcionou, porque, a partir daquele ponto, eu passei a adorar este país. Eu, por exemplo, sempre quis estudar alemão. Nessa época, já falava a língua, sempre fui me aperfeiçoando e olha… minha decisão de ser feliz aqui deu certo. Eu adoro a Alemanha e gosto muito de morar aqui.

Eu nao lembro de ter tido experiências ruins. Só no começo, quando eu ainda falava inglês. As pessoas me tratavam muito bem nas lojas porque, acredito, achavam que eu era turista, mas quando eu comecei a falar alemão e elas percebiam que eu estava ali para ficar, já me tratavam um pouco diferente. No entanto, sempre tive uma personalidade forte e, mesmo quando as pessoas reagiam mal e gritavam, por exemplo, quando eu trabalhava na gastonomia, eu sempre revidava: “eu não sei falar alemão, mas eu não sou burra!”

Uma das coisas que mais me enchem de orgulho, realmente, é o fato de eu ter me separado, estar aqui na Alemanha e ter lutado, mesmo aos 46 anos, para me reorientar profissionalmente, ter conseguido fazer o que eu gosto.

Quando ainda era casada, meu marido cuidava de todos os papéis e eu, apesar de saber alemão, tinha a escrita bem ruinzinha. Porém, falei pra mim mesma que eu ia me virar e fiz tudo que eu precisava fazer, mesmo com medo. Eu, as vezes, pensava: “ai meu Deus, como é que eu vou estudar economia em alemão?” Mas eu fui lá, fiz e deu tudo certo.

Daqui a dez anos eu gostaria de estar aposentada e, se eu estiver em um relacionamento, de poder continuar morando aqui na Alemanha, mas passar uns três ou quatro meses no Brasil. Eu não tenho certeza se vai ser possível porque a novidade é que agora, também no mês de maio, eu vou ser avó de uma menina. Isso significa que a minha família já vai entrar na segunda geração de migrantes. A namorada de meu filho também nasceu aqui, mas é descendente de chilenos. Vai ser uma bela mistura!

A minha filha tem muito desejo de morar no Brasil. Ela adora e acha que lá é o país dela, muito mais do que aqui. Sempre digo pra ela terminar a sua faculdade, fazer o que ela tiver de fazer e ir pro Brasil tentar sim. Porque não? Eu dou a maior força.

Se eu pudesse voltar o tempo e dar um conselho para mim mesma, diria: “aprenda a língua o mais rápido possível”. Na minha opinião, você só se integra no país onde está morando se souber falar a língua. E mais: “não se rebaixe. Você não é menos do que ninguém, você só não sabe falar o idioma… ainda”.

Eu sou Silvana Fernandes e essa é a minha história de migração. Qual é a sua?

Giro Pelo Mundo: 5 dicas do que fazer no Porto

Em 2020, Portugal ganhou – pelo quarto ano consecutivo – o prêmio internacional World Travel Awards, reconhecendo o país como o melhor destino turístico da Europa naquele ano. O Porto ajudou e muito para isso, arrematando o prêmio de melhor destino europeu para uma escapadela urbana.

A cidade é mesmo encantadora! A vida tranquila do “interior” contrasta com as noites vivas de festa, principalmente marcada pela forte presença de estudantes universitários de todo o mundo. Isso sem falar dos inúmeros miradouros para apreciar a vista do Rio Douro. É de tirar o fôlego!

Passear pela Ribeira é um clássico. Isso todo mundo já sabe, né? Nesse post, vamos um pouco além do Douro e separamos 5 dicas imperdíveis do que fazer no Porto (mas só quando a pandemia acabar, combinado?).

1- Subir na Torre dos Clérigos

Foto: Lali Souza

Um dos principais pontos turísticos da cidade, a igreja e a torre formam parte do Conjunto Arquitetônico dos Clérigos, reconhecido como Monumento Nacional desde 1910. O projeto da torre, criado pelo arquiteto italiano Nicolau Nasoni, foi apresentado em 1753, mas somente 10 anos mais tarde, em 1763, a obra foi dada como finalizada.

A torre tem 75m de altura e, para chegar no topo, é preciso enfrentar 225 degraus.

Se você sofre de algum tipo de claustrofobia, cuidado! Talvez esse passeio não seja para você, pois, conforme vai subindo, a torre fica mais estreia e, no final, só é possível passar uma pessoa por vez. Bem apertado mesmo!

Se esse não é o seu caso, vale a pena vencer o cansaço e subir. A vista da cidade é linda de se ver!

2- Pôr do sol no Jardim do Morro

Jardim do Morro. Foto: Tiago Lopes, para Publico.

Eu sei, falei que iríamos além do Douro, mas não dá para ignorar a presença desse gigante! O Jardim do Morro fica do outro lado da Ponte Luiz I (por sinal, vale a pena cruzá-la por cima e a pé), na cidade vizinha, Vila Nova de Gaia. A vista é das mais lindas do mundo. Vale a pena investir uma horinha para sentar e curtir o pôr do sol, sem pressa.

3- Comer Sanduíche de Pernil com Queijo da Serra da Estrela na Casa Guedes

Foto: Casa Guedes Oficial.

A Casa Guedes nasceu em 1987 e já faz parte da história do Porto. O pedido clássico é uma “sandes de pernil com queijo de ovelha” e vale a pena demais experimentar. O sanduíche é bem molhadinho e o famoso queijo da serra da estrela dá um toque pra lá de especial. Para acompanhar, uma Superbock – a maior cerveja local, orgulho do norte de Portugal – fresquinha!

4- Comer Francesinha no Lado B

Parece inofensivo, mas por baixo desse queijo tem pão, bife bovino, salsicha, linguiça e presunto.
Foto: Lali Souza

O Café Santiago é, talvez, o point mais famoso para comer uma boa Francesinha no Porto. Mas eu gosto mesmo é da comida do vizinho, o Lado B! Ele fica na região da baixa, em frente ao Coliseu. Ah! Além da Francesinha, vale a pena provar os pastéis de bacalhau também. São uma delícia!

5- Passeio na Orla de Matosinhos

A gente já viu o rio, agora, vamos ao mar! A orla de Matosinhos tem um calçadão ótimo para dar um passeio. A praia tem uma faixa de areia larga. Dá para sentar e curtir a brisa do mar ou praticar esportes. Só cuidado na hora de entrar na água, hein? É muito gelada!

É claro que esse é só um “gostinho” do que fazer no Porto, pois a cidade oferece inúmeras outras atrações fantásticas. Isso sem falar na noite agitada, nas festas e bares. O Porto é, com certeza, um destino que você deve incluir na sua lista de desejos.

E ai? Já conhece o Porto? Diz para gente nos comentários qual é a sua dica imperdível sobre a cidade.

Por Lali Souza

*Imagem de destaque: Tim Chelius por Pixabay

*Fontes:
https://www.melhoresdestinos.com.br/premio-turismo-europa.html

http://casaguedes.pt/?l=pt

http://www.torredosclerigos.pt/es

Canções de Migração: Sweet Virginia

Sabe aquele frio na barriga que dá quando a gente decide imigrar? É dessa sensação que a música de hoje me faz lembrar. Aquele medo de sair de casa, somado a toda esperança de que o novo será tão bom quanto, se não melhor.

Sweet Virginia é uma canção de Keith Richards e Mick Jagger. Foi lançada pelos The Rolling Stones em 1972, fazendo parte do álbum Exile on Main St.. Nela, o eu lírico se despede da sua vida na Califórnia para ir rumo a novas vivências no estado da Virginia.

Ainda que a canção não deixe claro se a Califórnia é ou não o seu lugar de origem, era lá onde ele estava. Ele se despede com carinho, agradecendo pelo que foi bom, mas também pelo que não foi assim tão doce.

Thank you for your wine, California
Thank you for your sweet and bitter fruits

Obrigado pelo seu vinho, Califórnia / Obrigado por suas frutas doces e amargas

Na mesma sintonia, ele pede à Virgínia que “venha de mansinho”, na intenção de que essas novas vivências sejam positivas.

But come on come on down Sweet Virginia
Come on honey child I beg of you
Come on come on down you got it in you

Mas aproxime-se, venha de mansinho, Doce Virginia
Venha, querida, eu imploro por você
Aproxime-se, venha de mansinho, você tem isso dentro de você

Aperte o play pra ouvir a música!

Agora é sua vez: qual canção de migração você gostaria de ver por aqui? Conte para a gente nos comentários!

*Por Lali Souza

Mulheres Migrantes: Rupi Kaur

A escritora e poetisa Rupi Kaur nos inspira, não somente pelo seu trabalho, mas pela força com que defende as mulheres e os nossos direitos. Hoje, aproveitamos esse espaço para falar um pouco sobre ela, sua história de migração toda a luta que representa.

Rupi Kaur cresceu no Canadá, onde foi morar com sua família quando ainda tinha 4 anos. Ela nasceu na Índia, na cidade de Panjabe. Dentro do Canadá, chegou a morar em várias cidades diferentes e, hoje, tem residência em Brampton, na província de Ontario.

A sua hstória com as palavras e a literatura começou desde muito nova. Em entrevista ao site El Mundo, ela conta que escrever foi a sua forma de se libertar das dores que sentia por ser uma criança tímida e solitária, que era perseguida na escola.

O seu refúgio saiu do papel e ganhou o mundo online. Foi através de textos publicados em redes sociais que Rupi se tornou conhecida, principalmente pelo cunho feminista de suas palavras. Ela ganhou vizibilidade internacional quando, em 2015, uma fotos publicadas no Instagram, na qual aparece deitada e com a roupa manchada de menstruação, foi excluída duas vezes pela plataforma. A revolta de Rupi viralizou – e a imagem também – resultando na recuperação do post, acompanhado de um pedido de desculpas por parte do Instagram.

Imagem: Rupi Kaur

Rupi Kaur publicou o seu primeiro livro também em 2015: Outros jeitos de usar a boca (título original: Milk and Honey). A antologia fala sobre feminilidade, suas dores, abusos e capacidade de sobrevivência. Ela vendou mais 8 milhões de cópias e foi traduzida para 42 idiomas.

Despois do sucesso do primeiro, a autora já lançou mais dois livros: O que o Sol faz com as flores e Home Body.

Sobre ser uma pessoa imigrante, Rupi Kaur é gente como a gente e destaca que as suas dores são bem comuns àqueles que saem muito novos do seu país de origem. Ela se vê como uma pessoa de duas culturas, não perdeu a sua origem e está muito bem integrada ao local de acolhida. Por isso, diz que que “casa é um conceito complicado”.

“Aqui no Canadá, eles me olham e me veem de forma diferente, não me reconhecem como um deles, porque minha pele escura não se encaixa nos cânones ocidentais. Mas na Índia a mesma coisa acontece comigo, eles também me veem como uma estranha.”

Rupi Kaur em entrevista ao El Mundo, 2017.

*Por Lali Souza

Imagem de destaque: Rupi Kaur Oficial

Fontes:

Rupi Kaur – site otifical
Wikipedia
Fala Universidades
El Mundo

Saudade

Saudade de imigrante é assim, não tem hora para bater e, às vezes, vem em horas tão inesperadas… quando se vê uma estampa colorida, um cheiro, um gosto “que parece com”, alguém que pergunta de onde você é e, de repente, de algo de lá que conhece. Ou então quando lembramos de quem “se era” no país de origem, tanto nos laços afetivos, na rotina como na identidade profissional.

Ela vem quando é uma data super querida e nossa família liga com a mesa farta e mostra quem está ao seu redor.

Ela vem quando os sobrinhos questionam “tia, quando é que você vem?”.

Ela nos visita quando estamos diante de situações desafiadoras do lado de cá e a gente pensa “ah, eu só queria estar no aconchego da minha língua, dos meus pares”.

A saudade também nos traz, por outro lado, um gosto maravilhoso quando a gente revê quem amamos. Ela também nos movimenta para achar jeitos de estar presente, mesmo com muitos quilômetros de distância. Isso pode ser feito com chamadas de vídeo para conversar, para mostrarmos a eles a neve ou para eles nos mostrarem a praia. Pode ser por mensagens, por cartas, pelas encomendas que amigos levam para as pessoas que amamos e que trazem para a gente matar saudade.

E a música “Sonho Meu”, de Delcio Carvalho e Yvonne Lara, retrata bem esse desejo de estar onde se está, mesmo sem perder a vontade de ir para perto dos nossos conterrâneos, do sol, de lugares e atividades que gostamos.

“Sonho meu, sonho meu

Vá buscar quem mora longe

Sonho meu

Sonho meu, sonho meu

Vá buscar quem mora longe

Sonho meu

Vá mostrar essa saudade

Sonho meu

Com a sua liberdade

Sonho meu”

Vá, sonho meu, “com a sua liberdade”, una esses dois lares que temos e as dualidades dos nossos sentimentos! Por favor, nos ensine a trazer um pouco de Brasil nas músicas que ouvimos em casa, nas receitas que aprendemos, nas corridas dos mercadinhos típicos e nas intermináveis conversas lá com o Brasil ou com os nossos conterrâneos que vivem aqui. E, sonho meu, traga aquele sorriso de canto de boca de quando a gente arruma a mala – cheia de lembrancinhas – com destino a Guarulhos. Ah, sonho meu, “traz a pureza de um samba / Sentido, marcado de mágoas de amor / Samba que mexe o corpo da gente/ Vento vadio embalando a flor”.

*Por Daniele Stivanin

Imagem de S. Hermann & F. Richter por Pixabay*

*Artista: Bunksy

Pausa para cuidar da família

Um dos maiores fantasmas da vida da pessoa que migra é como lidar com situações de urgência com a família no país de origem. O pensamento de que algo pode vir a acontecer a nossos pais e familiares quando estamos longe, sem que tenhamos a possibilidade de rapidamente estar perto deles, acompanha a vida de muitas pessoas migrantes como uma espécie de sombra constante em todos os momentos da vida fora de nosso país de origem. Todas nós, pessoas migrantes, aceitamos a possibilidade de não podermos estar presentes em momentos decisivos das vidas de nossos familiares e amigos. Temos ciência de que não participaremos de todos os aniversários, nascimentos, formaturas e que talvez, ao chegarmos, seja tarde demais para um último adeus.

Por isso, para a pessoa que migra, ter a possibilidade de voltar para o país de origem quando se tem vontade, saudade ou quando alguma emergência exige, é uma grande oportunidade que a maioria de nós agarra mesmo, sem titubear. Recentemente, o Continuidade se viu diante de uma dessas situações. O que fazer quando uma pessoa da família está gravemente doente e precisa de nós? Essas situações geralmente nos pegam de surpresa e, na migração, a surpresa vem acompanhada da pressão do tempo.

Durante uma pandemia, então, é a pressão do tempo mais as incertezas relacionadas a todo o resto. De repente, tudo fica urgente e a pessoa migrante trava uma corrida contra o tempo para organizar a burocracia e encarar uma viagem de volta ao país de origem, dessa vez deixando para trás as pessoas no país de acolhida para se reorganizarem com a lacuna súbita que foi deixada. Grande parte da vida de migrante consiste em administrar as ausências e faltas.

Pedimos compreensão com esse nosso momento de lidar com a lacuna repentina deixada por Cris, que teve de encarar essa turbulenta e incerta viagem de volta ao Brasil para estar perto de sua mãe que está internada com COVID. Nós, que desta vez somos a família que ficou, estamos aqui nos reorganizando para poder, em breve, voltar a produzir conteúdo para vocês.

*Por Cris Oliveira

Imagem de destaque: Free Foto by Pixabay