As perdas na migração: como lidar com elas?

Deixar o seu lugar de origem e começar uma nova vida num outro local, ao mesmo tempo que abre inúmeras portas, também fecha muitas outras. E agora? Como lidar com a dor da perda? É possível conviver com a saudade e ser feliz mesmo estando longe?

Neste post, compilamos algumas reflexões de Flora Regis Campe, psicóloga sistêmica e co-host do Continuidade Podcast, sobre as perdas que envolvem o processo de migração e como podemos lidar com elas.

Identifique o problema

Com as perdas na migração, é provável que surjam sentimentos de tristeza e até questionamentos sobre a escolha de morar fora do país. Você sabia que enquanto essas perdas não forem elaboradas, elas podem ocasionar alguns sintomas psicossomáticos como dores de cabeça constantes, insônia, dores de estômago, entre outros?


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Como a terapia e o aconselhamento sistêmico focado na solução podem te auxiliar no seu processo de morar fora do país?

A terapia sistêmica breve e focada em soluções, juntamente com toda experiência na área da migração e dos aspectos psicossociais, oferece as ferramentas necessárias para ressignificar as perdas causadas pelo processo migratório, assim como descobrir as chances que a migração oferece para se viver inteiramente essa escolha de vida.

Se você está morando fora de seu país ou seus pais são originalmente de outro lugar, se está passando por situação de dificuldade em alguma área da sua vida, saiba que o trabalho focado na sua história de migração, juntamente com o olhar sistêmico nas soluções dos problemas, se mostra como método eficaz no desenvolvimento de novas estratégias para lidar com suas dificuldades.

ElisaRiva por Pixabay

Mas o que é “Terapia sistêmica focada na busca de soluções”?

A terapia sistêmica está interessada nas relações interpessoais do indivíduo, que estão envolvidas na origem e na manutenção de seus problemas. Esses mesmos vínculos interpessoais são também importantes para os processos de mudança e solução das dificuldades do cliente.

A terapia sistêmica focada na solução baseia-se no pressuposto de que cada pessoa carrega consigo todos os recursos e competências necessárias para dar os passos relevantes a fim de solucionar impasses em diferentes situações conflitantes. Ela dá ênfase nas potencialidades e nos passos para ação que o cliente precisa dar.

Diante de todos os desafios que enfrentamos na migração, a sensação de solidão pode ser uma dos mais difíceis de superar. É por isso que ter uma rede de apoio que te conecte à sua identidade pode ser tão importante.

Pensando nisso, o Continuidade vai realizar o seu primeiro Workshop online: Cuidando do Sentimento de Identidade na Migração. Vamos falar sobre as referências que trazemos dos nossos países de origem e como a perda de uma parte delas pode influenciar na nossa vida e no nosso bem-estar.

Serão 3 horas de trocas, conversas, dinâmicas e, principalmente, muita empatia e acolhimento!

Nosso encontro será no dia 6/3/21, das 10:00 às 13:00h (Horário de Berlim) e o valor da inscrição é de €15.

Para se inscrever, mande um e-mail para continuidadepodcast@gmail.com ou preencha o formulário de inscrição, clicando aqui. Corre que as vagas são limitadas!
Contamos com você!

Quer participar, mas não tem como pagar? Fala com a gente! O valor da inscrição não deve ser um impedimento para a sua participação.

*Por Flora Regis Campe

*Organizado e revisado por Cris Oliveira, Daniele Stivanin e Lali Souza

*Imagem de destaque: Michal Jarmoluk por Pixabay

As Fases da Migração

No Continuidade Podcast falamos muito sobre como o processo de migração é composto por algumas fases comuns à maioria das pessoas. Decidimos revisitar e registrar aqui também as nossas reflexões sobre quais são essas fases e como elas influenciam na adaptação dos imigrantes no país de acolhida.

A primeira fase está ligada aos emaranhados psicológicos que vivemos ao chegar no novo país e tudo o que envolve o início dessa adaptação. Nesta fase, revisitamos o nosso sentimento de identidade, lidamos com as perdas e com o luto que elas trazem.

Somos fruto de nossa história de vida e cada um de nós tem a sua bagagem cultural. Ao mudar de país, muitas vezes nos deparamos com uma cultura totalmente diferente da nossa, o que pode levar algum tempo até nos acostumarmos. É neste processo que enfrentamos dificuldades relacionadas ao nosso sentimento de identidade, afinal é preciso compreender os hábitos locais e estabelecer uma relação com eles.

Adaptar-se não significa negar suas origens, mas aprender a conviver com a cultura local. Quando nos sentimos bem onde vivemos, estabelecemos relações mais saudáveis não somente com o lugar em si, mas também com as pessoas que nos cercam.

A migração é uma despedida e as perdas são inerentes a ela. Perdemos, por exemplo, o convívio com os amigos e a família que ficaram no país de origem, os lugares onde costumávamos ir, as comidas, as festividades e, com o tempo, até mesmo as nossas referências e alguns vínculos.

É preciso estar alerta para as consequências que essas perdas podem causar à nossa psique, como a tendência de responsabilizar os outros, a culpa e a negação da dor. É importante reconhecer que a dor existe para entender como lidar com ela. Estabelecer novos vínculos afetivos com pessoas e com o lugar de acolhida pode ajudar muito no enfrentamento dessas dores. Aprender o idioma local também auxilia na construção da sensação de pertencimento.

Ao enfrentar essas perdas, entramos na fase de processamento dos lutos migratórios. Nesta fase, é comum que haja uma desorganização da nossa psique, que se reflete numa necessidade urgente de reaver o que deixamos para trás. Podemos incorrer numa romantização do nosso passado, do lugar de origem, e, até mesmo, passar a negar o país de acolhida.

Mas como saber se estamos passando por uma fase de luto? O desligamento emocional das pessoas à sua volta, passar a enxergar apenas o lado ruim da nova vida, estabelecer grandes barreiras entre si e o novo são sinais claros dessa fase. Se você se encontra nesse momento, não tenha medo de vivê-lo. Passar pelo luto faz parte do processo de recuperar o sentimento de continuidade da própria vida.[INSERIR IMAGEM INTEGRATION]

Aproveite esse período mais reflexivo para encontrar estratégias de como se sentir melhor. Buscar abrigo emocional com pessoas que passaram (ou estão passando) pelo mesmo processo que você costuma ser uma ótima ideia.

Processar o luto é fundamental para atingir a multiculturalidade. Aqui, usamos este termo para tratar da fase em que já estamos bem no nosso novo lar. É quando, finalmente, nos sentimos em casa e conseguimos estabelecer uma relação equilibrada entre o passado e o presente.

Uma coisa muito importante é saber que essas fases não seguem uma linha reta. O processo migratório é muito complexo e podemos, ao longo da vida, entrar e sair dessas fases várias vezes. Entender as diferentes fases da migração e saber reconhecer o lugar onde estamos nos ajuda a olhar com clareza a realidade à nossa volta e a traçar as estratégias necessárias para seguir adiante, em busca de uma vida mais feliz.

E nem precisamos dizer que você pode contar com a gente nessa sua jornada, né? Se você tem alguma dúvida ou apenas gostaria de compartilhar o seu momento, a sua história, manda uma mensagem para a gente e faremos o possível para te ajudar. Estamos juntos!

*Por Lali Souza

Imagens: Gerd Altmann por Pixabay.