Bilinguismo sem estresse

Oferecer uma educação bilíngue às suas crianças é o sonho de muitas famílias. De fato, falar mais de uma língua pode abrir muitas portas na vida de uma pessoa. Há vagas de empregos, cursos universitários, eventos culturais, viagens e muitas outras oportunidades que só são possíveis para pessoas que falam mais de um idioma. Por esse motivo, muitos pais e mães se ocupam bastante com diversas formas de garantir que seus filhos e filhas aprendam a falar outros idiomas o quanto antes.

Para famílias migrantes, isso é, na maioria das vezes, uma condição natural. Crianças nascem e frequentam a escola em um país no qual a língua local é diferente da que é falada pelos seus pais e, com isso, vão crescendo com dois ou mais idiomas. No entanto, para muitas dessas famílias o caminho do bilinguismo não é assim tão fácil. Existem questões muito delicadas que envolvem o multilinguismo, sobre as quais refletimos bem pouco ou quase nada.

  1. A educação bilíngue exige muita paciência e comprometimento por parte dos pais.

Quase sempre, por trás de crianças bilíngues super habilidosas, estão pais e mães extremamente determinados e pacientes. São pais e mães que conseguem esperar a ânsia de responder logo que uma pergunta é feita no idioma local, ao invés do seu, para que as crianças tenham a oportunidade de repetir a pergunta, por exemplo. Ou que tem a tranquilidade de, muitas vezes, falar a mesma coisa duas vezes, cada vez em um idioma diferente, para garantir que a criança receba estímulos linguísticos em diversos idiomas. Esses processos exigem calma e dedicação, o que para muitos é difícil ter no dia a dia. Por isso, é importante avaliar se esse tipo de educação se encaixa com a realidade de sua família. Você é paciente? O seu dia a dia permite esse tipo de comprometimento? Se não for o caso, vale a pena reavaliar até que ponto esse tipo de educação faz sentido. Sem persistência e consistência, será mais difícil da criança se acostumar com o uso da língua de herança.

  1. A educação bilíngue não deve excluir a leveza e a naturalidade da convivência

A educação bilíngue não deveria ser almejada a qualquer custo, virando fonte geradora de estresse e comprometendo a qualidade das interações familiares. Crianças bilíngues, muitas vezes, se recusam a falar a língua de herança. Isso pode acontecer porque a língua local ocupa naturalmente uma parcela muito grande e importante no cérebro da criança. Além disso, a criança não pensa nas línguas que fala em termos de utilidade e nem de apego sentimental. Para elas, a importância da língua está diretamente associada à utilidade que o idioma tem para intermediar a atividade mais importante de suas vidas: brincar. Ou seja, quanto mais oportunidades de se divertir e cultivar relacionamentos a criança tiver em um determinado idioma, mais envolvimento ela terá com ele. Isso irá consequentemente aumentar a sua disposição para tentar se comunicar através dele. Ao invés de tentar impor que a criança fale a nossa língua, cabe a nós, adultos, pensarmos em alternativas que levem as crianças a quererem falar aquele idioma. Isso pode ser feito através do lúdico e das conexões pessoais. 

Se ainda assim a criança resistir ao uso da língua de herança, pode ser que seja interessante dar um tempo e reavaliar nossas próprias expectativas com relação ao bilinguismo. Muitas vezes, esse desejo de querer falar a língua dos pais vem aos poucos e é preciso aprender a respeitar o tempo da criança nesse aspecto também. Não podemos deixar de lembrar que existe uma série de valores importantes que precisam ser vividos e passados para elas. Educação linguística é apenas uma parte da educação de forma mais ampla e, na migração, precisamos cuidar para que a tentativa de multilinguismo a qualquer custo não acabe gerando ressentimentos com relação à língua dos pais.

  1. Fale o idioma que seja mais natural para você

No passado, era muito comum ouvir professores e professoras dizendo que uma criança precisaria, primeiro, aprender o idioma local para depois começar a aprender outros. Levados por essa falácia, muitos pais e mães migrantes faziam um verdadeiro esforço para falar com seus filhos e filhas na língua local para que eles aprendessem o idioma dominante o quanto antes. Hoje em dia, já sabemos que é desnecessário nos preocuparmos com isso. Desde muito pequenas, as crianças são capazes de aprender duas ou mais línguas simultaneamente, sendo necessário para isso apenas serem expostas e terem interações significativas nesses idiomas. Ou seja, fale com seu filho ou sua filha no idioma que você se sente à vontade e tenha segurança. A exposição a modelos linguísticos de qualidade é muito importante na fase de desenvolvimento da linguagem. O idioma local poderá ser aprendido facilmente depois que a criança entrar em contato com outras crianças na creche ou escola.

Em resumo, crescer com duas ou mais línguas é um enorme privilégio que deve ser conquistado com leveza, paciência e afetuosidade. Através das línguas que falamos aprendemos a decodificar o mundo à nossa volta e isso pode ser conquistado de forma tranquila e respeitando o tempo e os limites da criança e da família. O bilinguismo, assim como qualquer outra coisa na educação infantil, deve ser um meio de estabelecer laços afetuosos na família e de apoiar no desenvolvimento da criança. Isso tudo deve ser encarado com leveza e naturalidade e não ser implementado de forma rígida, que venha a comprometer a estabilidade e os vínculos familiares. Educação bilíngue, sim! Mas sem culpa, sem pressão e sem estresse.

Quer saber mais sobre esse tema? Escute o nosso novo episódio! Clique aqui pra ouvir.

Por Cris Oliveira

Foto de destaque: B Marra @ Flickr

Pausa para cuidar da família

Um dos maiores fantasmas da vida da pessoa que migra é como lidar com situações de urgência com a família no país de origem. O pensamento de que algo pode vir a acontecer a nossos pais e familiares quando estamos longe, sem que tenhamos a possibilidade de rapidamente estar perto deles, acompanha a vida de muitas pessoas migrantes como uma espécie de sombra constante em todos os momentos da vida fora de nosso país de origem. Todas nós, pessoas migrantes, aceitamos a possibilidade de não podermos estar presentes em momentos decisivos das vidas de nossos familiares e amigos. Temos ciência de que não participaremos de todos os aniversários, nascimentos, formaturas e que talvez, ao chegarmos, seja tarde demais para um último adeus.

Por isso, para a pessoa que migra, ter a possibilidade de voltar para o país de origem quando se tem vontade, saudade ou quando alguma emergência exige, é uma grande oportunidade que a maioria de nós agarra mesmo, sem titubear. Recentemente, o Continuidade se viu diante de uma dessas situações. O que fazer quando uma pessoa da família está gravemente doente e precisa de nós? Essas situações geralmente nos pegam de surpresa e, na migração, a surpresa vem acompanhada da pressão do tempo.

Durante uma pandemia, então, é a pressão do tempo mais as incertezas relacionadas a todo o resto. De repente, tudo fica urgente e a pessoa migrante trava uma corrida contra o tempo para organizar a burocracia e encarar uma viagem de volta ao país de origem, dessa vez deixando para trás as pessoas no país de acolhida para se reorganizarem com a lacuna súbita que foi deixada. Grande parte da vida de migrante consiste em administrar as ausências e faltas.

Pedimos compreensão com esse nosso momento de lidar com a lacuna repentina deixada por Cris, que teve de encarar essa turbulenta e incerta viagem de volta ao Brasil para estar perto de sua mãe que está internada com COVID. Nós, que desta vez somos a família que ficou, estamos aqui nos reorganizando para poder, em breve, voltar a produzir conteúdo para vocês.

*Por Cris Oliveira

Imagem de destaque: Free Foto by Pixabay

Histórias de Migração: Daniele Stivanin

Olá! Moin Moin! (como dizemos de forma bem simpática e cantada aqui no Norte da Alemanha!).  Eu sou Daniele Stivanin, sou mineira de Poços de Caldas e estou morando em Hamburg, na Alemanha, há 02 anos. Nós aterrissamos aqui depois de muito pensar e desejar vivenciar outros estilos de vida e de uma boa oportunidade profissional que nos deu a possibilidade de escolher as terras germânicas como novo lar.

Colocamos dentro da mala, as nossas expectativas, ansiedades, dores e sonhos e mais algumas coisas queridas que nos lembrariam da nossa casa e dos nossos trabalhos no Brasil. Com uma saudade já antecipada, eu e meu esposo nos demos as mãos, e sentimos que não estamos entrando em um avião, mas sim topando pular de paraquedas.  Lá vamos nós!

Chegando aqui, encontramos uma rede de brasileiros, primeiramente da própria empresa (eram 05 casais), com os quais podíamos dividir as novas descobertas (como alugar um apartamento e dar conta dos documentos com tantos nomes diferentes). Juntos fizemos declarações de amor à IKEA, somamos os braços para carregar e montar os novos móveis, dividimos os receios e as saudades, e nos reunimos para brindar, conversar e cozinhar.  Encontramos amparo para iniciar a nossa caminhada e não nos sentirmos sós. E destes amigos, vieram outros tão queridos. A internet também nos ajudou muito a encontrar novos grupos e projetos por aqui. E como isso tem nos fortalecido!

O Continuidade foi um grande apoio, com as falas no podcast que me acompanhavam nas minhas caminhadas, ampliando o meu foco e me ajudando a nomear os inúmeros sentimentos e pensamentos.  Em seguida, vieram as trocas no workshop entre mulheres imigrantes, que me ajudaram a ampliar demais as minhas perspectivas e o meu aconchego. Seguimos juntas através do grupo de whatsapp e de outras trocas virtuais (que espero que em breve sejam presenciais também!). E agora, com uma felicidade sem fim, me somo à equipe!

Com essas redes  de apoio, me senti mais fortalecida para vivenciar alguns desafios, como não saber como as coisas funcionam, os costumes, não conhecer a língua e ver o alcance de se comunicar, opinar, e se explicar muito limitados, assim como algumas possibilidades de lazer que gostava tanto (como cinema, teatro, etc). Porém, tudo bem, hoje já conheço um pouco mais o funcionamento das coisas (embora tenha muito ainda para aprender) e com o tempo vamos nos desenvolvendo na língua e na participação social aqui.

Acho que já somos felizes e gratos por já ter aprendido tanto, por ver as nossas habilidades sociais e emocionais e o conhecimento de mundo (externo e interno) sendo refinados com essas experiências. Eu revi tantas coisas nestes últimos dois anos, de valores, história e perspectivas, que eu já não sou mais a mesma. Isso é um ganho permanente da imigração para mim!

Tanto que me sinto conectada com aqui, talvez porque me conectei aqui dentro. Espero estar aqui por um bom tempo, viver a vida, sabe, e cada vez mais pegando o jeito, escorregando no alemão, em alguns combinados sociais e culturais que não conheço, mas seguindo em frente. E no caminho, desejo encontrar satisfações, resiliência, condições de me desenvolver, de ter segurança no espaço público e ter um estilo de vida mais simples e orgânico, de me reencontrar profissionalmente e ampliar a minha rede de contato social. Desejo me sentir vivendo e participando da sociedade em que vivo. Sempre acompanhada da minha rede do Brasil, dessa terra que me tornou quem eu sou. E agora com refinamentos e com o coração já dividido entre os dois lares que temos, um brasileiro e um alemão!

Se precisasse usar uma única palavra para resumir a minha história de migração, acho que seria esperança. Acho que ela aquece o meu coração desde o primeiro frio na barriga da possibilidade de vir e quando acordo todas as manhãs aqui e escuto “ Moiinn” cantandinho!

Eu sou Daniele e essa é a minha história de migração. Qual é a sua?

As Capitais do Nordeste

Na semana do aniversário da cidade de São Paulo, a revista Veja, em sua edição local, apareceu com uma capa que acabou não homenageando paulistas e ofendendo nordestinos. A reportagem, que tentou fazer uma reverência às contribuições de uma nova geração de migrantes nordestinos à maior capital do Brasil, terminou por deixar um gosto amargo em sua ação ao fazer um retrato do Nordeste que o próprio nordestino não reconhece e por falhar em reconhecer a diversidade real da região que tentaram galantear. Isso revelou, no entanto, uma valiosa oportunidade de refletirmos sobre estereótipos, preconceitos e migração dentro de nosso próprio país.

Antes mesmo de ler a reportagem, a gente já consegue se chocar pela capa. O título da reportagem “A capital do Nordeste” já demonstra uma falta de reconhecimento à grande diversidade da região Nordeste. Falar de Nordeste como se fosse uma coisa só é tão problemático quanto falar da África como se fosse um único país. É impressionante como esse discurso ainda está impregnado na nossa forma de falar.

Nos episódios 7 e 9 da segunda temporada do Continuidade Podcast, falamos justamente sobre estereótipos e preconceitos na migração.

Clica pra ouvir: Episódio 7 – Parte I / Episódio 9 – Parte 2

O Nordeste é uma região plural e diversa, que ocupa 18% da extensão territorial do país e que incorpora 9 estados muito distintos entre si. O nordestino é rural, sertanejo, praieiro e urbano. A região abriga costumes, ritmos, culinárias, climas e falares diferentes em seus estados (e também dentro deles!). Cada um tem a sua cultura e a sua capital, das quais seus habitantes têm orgulho e que os diferencia dos demais. Tentar definir uma capital para essa região – pior ainda se essa cidade está fora dela – é ignorar toda a diversidade que ela tem dentro de si. É anular o seu protagonismo dentro da sua própria identidade.

Mas esse não é o único problema dessa “homenagem”. A reportagem se baseia em um modelo de “migração que deu certo”. Quem são os nordestinos e as nordestinas que aparecem nessa capa? Pessoas de “sucesso”, donas de startups, chefs, empresárias. Todas são pessoas, atualmente, ocupam um lugar de prestígio social e, em sua maioria, de pele clara.

É grave passar a mensagem de que esse é o tipo de migração que deu certo. Onde estão os nordestinos assalariados que vivem nas periferias da cidade? Onde estão os operários e as operárias que trabalham duro para manter a metrópole funcionando? O nordeste representado na capa não corresponde à maioria migrante dessa região. E mais: alcançar riqueza material não deve ser o único caminho para o sucesso, para “dar certo”.

Antes de se autointitular “A Capital do Nordeste”, seria interessante saber quantos nordestinos de fato se sentem em casa nessa “sua” capital. Será que a cultura local é tão receptiva e acolhedora a ponto de fazer com que essas pessoas tenham um sentimento de pertencimento ao local? Será que o ser nordestino pode encontrar reconhecimento na sua capital do Sudeste mesmo que ele não seja empresário e que não tenha tanta escolaridade? A interculturalidade pode ser uma coisa maravilhosa e enriquecedora, mas, para isso, pressupõe uma troca, uma via de mão dupla e um conhecimento mais profundo de todas as culturas envolvidas. Quanto ao Sudeste, ele realmente conhece o Nordeste?

*Por Cris Oliveira

*Revisão e contribuições de conteúdo: Daniele Stivanin e Lali Souza

Imagem de destaque: site Amigos Nordestinos

Perspectivas para 2021

Depois da surpresa impactante que 2020 nos trouxe, devemos ter muita cautela com os planos e a empolgação com os projetos para 2021. Ainda assim, sabemos que a esperança é um elemento central na migração e, por isso, não podemos deixar de sonhar, planejar e projetar algumas expectativas para esse ano. Vamos com cuidado, mas vamos!

É nesse clima que compartilhamos com vocês alguns de nossos planos e desejos para 2021:

  • O ano passado nos obrigou a buscar formas diferentes de nos conectarmos. Sendo assim, aulas e eventos online passaram a fazer parte da normalidade. Claro que nós não poderíamos ficar de fora e também temos pensado em eventos que podemos oferecer este ano para nos mantermos conectadas com vocês, ouvintes e leitoras/es. Isso nos leva diretamente para o segundo ponto.

Nos mantermos conectadas é fundamental para superarmos as dificuldades, sejam elas geradas pela migração ou por uma pandemia inesperada. O fato de ainda termos que ter cautela e manter o distanciamento social fisicamente não nos impede de nos mantermos juntas/os através das tecnologias que estão disponíveis para nós. Mas nos conectarmos com quem? Há tanta gente produzindo conteúdo de qualidade sobre migração que, muitas vezes, esse pessoal acaba passando despercebido pelo nosso radar. Criar uma rede para indicar pessoas, grupos ou associações e ajudar a divulgar os trabalhos desses profissionais é uma das nossas missões para 2020. Assim, esperamos fazer com que cada vez mais pessoas consigam o apoio que melhor se encaixa aos seus perfis e necessidades.

Imagem: Gerd Altmann por Pixabay.
  • Outro plano do Continuidade para este ano é chegar ainda mais perto de vocês, que nos acompanham. Queremos ouvir e ler suas histórias, saber quais temas lhes interessam, incomodam e despertam a curiosidade. Que tal nos escrever sugerindo temas para os episódios e para o nosso site?  Com certeza, todo mundo vai sair ganhando com essa troca. Eis aqui algumas formas de participar:

– Conte sua história de migração.

– Indique intituições e projetos que lidam com a temática da migração e do empoderamento de pessoas migrantes.

– Sugira temas relacionados à migração.

– Indique filmes, livros, músicas, séries, cursos, palestras e eventos que tratem dessa temática.

  • Queremos fazer do Continuidade um espaço nosso, coletivo. Um acalanto para pessoas migrantes com as suas mais diversas biografias. Para isso, também esperamos fazer muitas parcerias durante este ano, para que possamos chegar a novas pessoas. E nós contamos com o seu apoio para amplificar nossas vozes, compartilhando nosso conteúdo e espalhando as palavras do Continuidade por aí.

No final das contas, o maior desejo do Continuidade para este ano, o desejo que está na base de tudo, é que a gente consiga ter um ano com muita saúde, informação e leveza. Vem fazer o Continuidade junto com a gente!

*Por Cris Oliveira

Imagem de destaque: Free-Photos por Pixabay.

10 perguntas para reavaliar seu ano e seguir em frente

Escrevi esse texto no início de 2019, quando nem sonhava com as reviravoltas e os desafios que 2020 traria! E ele segue tão atual que resolvi compartilhá-lo por aqui também. Espero que essas dicas sejam úteis para o seu ano novo. Boa leitura!

Mais um ano vem aí e promete ser conturbado. Todo ano faço questão de fazer meus rituais para alimentar em mim mesma a motivação de encarar os novos 365 dias como um ciclo cheio de oportunidades de crescimento. Ao longo dos anos, desenvolvi (tanto sozinha como com um grupo de amigas) uma série de exercícios para o final e início de ano que me ajudam a me manter focada durante o ano inteiro. Este ano resolvi primeiro fazer um balanço do que passou para melhor conseguir seguir em frente. Já vinha pensando nisso há um tempinho, quando um podcast me ofereceu uma ferramenta espetacular para realizar essa reflexão.

Imagem: Pixabay

O podcast Happy, Holy and Confident, que, apesar do nome em inglês, é em alemão, trata de temas relacionados à espiritualidade, equilíbrio emocional e desenvolvimento pessoal. Sua criadora, a coach Laura Malina Seiler, conta que uma amiga lhe ensinou este ritual que ela sempre realiza no dia de seu aniversário. Ele consiste em 10 perguntas que o membro mais velho da família faz ao aniversariante, que, por sua vez, tenta responder da forma mais sincera possível.

Eu achei a ideia fantástica, por isso fiz umas pequenas adaptações e agora acho que ele pode ser aplicado ao início de qualquer novo ciclo para relembrar e refletir sobre o que passou e determinar novos objetivos. Sendo assim, aqui estão 10 perguntas que podem nos ajudar a fazer uma avaliação pessoal de nosso 2020 e nos ajudar a ter clareza de para onde devemos dirigir nossa atenção em 2021. Eu sugiro que você pegue papel e caneta e anote suas respostas. Assim sempre poderá voltar a elas quando sentir que está perdendo o foco à medida que o ano for avançando.

Imagem: Pixabay

10 Perguntas para avaliar 2020 e achar sua direção para 2021

1. Quais foram minhas constatações mais importantes no ano que passou?
2. Pelo que eu posso agradecer?
3. Do que eu posso me orgulhar? 
4. Quais foram minhas decisões mais importantes?
5. Como foi meu relacionamento comigo e com as pessoas?
6. O que eu faria diferente se pudesse?
7. O que eu desejo para o novo ano?
8. Para o que eu quero contribuir este ano?
9. Para que eu gostaria de ter mais tempo?
10. O que eu gostaria de aprender?

Respire fundo e reserve tempo para responder com calma. Se for difícil, responda uma pergunta por dia para que você não se sinta sobrecarregada ou sobrecarregado com tanta reflexão de uma só vez. Se, com o passar do tempo, você se lembrar de mais coisas que não lhe ocorreram no início, não faz mal, simplesmente adicione o que lembrou à sua resposta. Você não precisa mostrar isso a ninguém já que se trata de um guia pessoal para começar o ano com o foco em seu próprio desenvolvimento. Encare suas respostas como um diálogo íntimo com você mesma ou com você mesmo e divirta-se com isso. 

Eu adoro rituais de fim de ano e de ano novo. Vocês tem algum? Como é? Me contem aí?

Pra quem entende alemão, aqui vai o podcast de Laura Malina Seiler. É uma injeção de ânimo e inspiração: https://lauraseiler.com/

*Por Cris Oliveira

*Este texto foi revisado por Marina Hatty e adaptado para 2020/2021 por Lali Souza.

*Imagem de destaque:  Free-Photos por Pixabay

Pessoas Migrantes: Antoni Porowski

Antoni Porowski é um dos protagonistas da série-reality da Netflix Queer Eye. Essa série vai fazer você sorrir e se emocionar com os cinco hilários e queridíssimos Karamo, Bobby, Johnathan, Tan e Antoni. Os cinco têm a missão de passar uma semana acompanhando uma pessoa (previamente indicada por algum/a amigo/a, familiar ou outra pessoa próxima) e ajudando-a em um processo de transformação.

Durante esse tempo, os Fab Five, como eles mesmo se identificam, ajudam a pessoa indicada a entrar num processo de autoconhecimento, lhe dão um banho de loja, fazem uma mudança no visual com corte de cabelo e os escambáu, reformam sua casa e lhe dão dicas de como se alimentar melhor e preparar um jantar bacana para a pessoa que o/a indicou. É nessa parte que Antoni Porowski, nossa pessoa migrante da vez, mostra seu talento.

Antoni, o especialista em culinária e vinhos da série, tem pais migrantes, assim como ele também é. Sua mãe polonesa e seu pai belga migraram para o Canadá antes de seu nascimento. Com isso, ele acabou sendo o primeiro da sua família a nascer e crescer fora da Europa. Nascido no Canadá em 1984, ele cresceu falando inglês, francês e polonês em casa. Essas habilidades linguísticas, que hoje em dia geralmente seriam vistas com admiração, foram motivo para estranhamento na escola quando ele se mudou com a família para os Estados Unidos. Isso foi o que ele descobriu quando estava no sétimo ano na escola e sua família resolveu migrar da cosmopolita cidade de Montreal, no Canadá, para uma cidade pequena da conservadora West-Virginia, nos Estados Unidos.

Antoni Porowski / Imagem: Instagram

Antoni conta que suas habilidades linguísticas eram vistas com estranheza pelos colegas de escola e até pela professora, que sempre perguntava porque que ele não podia simplesmente falar apenas inglês como os demais adolescentes. Essa não era a única diferença que seus colegas de escola não toleravam. Eles também faziam muitas piadas xenofóbicas e basicamente não tinham tolerância para as diferenças culturais que eles detectavam nos comportamentos e hábitos de Antoni. Até os lanches que ele levava para a escola eram motivo de piadas e comentários preconceituosos. Em uma entrevista, ele contou que a imagem que as pessoas daquele estado e naquela época tinham sobre imigrantes era realmente muito limitada. Para eles, ser imigrante significava automaticamente ser um refugiado fugindo de calamidades, guerras ou pobreza. Era como se não houvesse outra possibilidade.

Essa falta de compreensão e o sentimento de não pertencimento causados por ser constantemente excluído por causa de sua origem fez com que Antoni vivesse uma grande crise com sua identidade cultural. Por muito tempo ele desejou ter um nome diferente, mais americano, como Porter ou Portman. Quando ele estava começando a se aventurar na carreira de ator, chegou a considerar seriamente trocar de nome. Ele revela que fazer parte dos Fab Five do programa Queer Eye também o ajudou a se sentir mais tranquilo com sua identidade cultural. Hoje em dia, ser um homem com um sobrenome polonês, com sexualidade fluída e em um relacionamento homossexual, faz com que ele receba milhares de mensagens de jovens gays poloneses agradecendo pela visibilidade que o status de celebridade dele ajuda a dar à causa na Polônia, país onde a homossexualidade ainda é um enorme tabu.

Hoje em dia, Antoni celebra a mistura de culturas que compõem a sua identidade e sempre as mostra e tematiza com muito orgulho em entrevistas e episódios de Queer Eye.

*Por Cris Oliveira

Imagem de destaque: Paul Brissman / The Times

Fonte: https://www.thelist.com/134951/the-untold-truth-of-antoni-porowski/

Sexta-feira 13 – Xô azar!

Hoje é sexta-feira 13. Essa data é internacionalmente conhecida como um dia de mau agouro, no entanto, culturas diferentes têm formas distintas de lidar com a carga pesada que esse dia traz consigo.

Surperstições são comuns em culturas diversas. Independente do dia da semana e do lugar do mundo, seres humanos tendem a querer assumir o controle de seus destinos e tentar se precaver ante o desconhecido. Como é difícil saber o que pode nos trazer sorte de verdade, o melhor é estarmos atentos/as sobre como nos precaver em diversas partes do mundo.

Por isso, nesta sexta-feira 13, o Continuidade vai trazer alguns fatos sobre esse dia que tanto alimenta as nossas imaginações e dicas de como evitar urucubacas pelo mundo afora.

  1. Mas como foi que a sexta-feira treze passou a ser associada a maus presságios? Alguns historiadores dizem que o dia pegou essa fama infame no século 19. Muitos outros atribuem a origem assombrada dessa data à tradição católica: na Santa Ceia, haviam 13 homens à mesa – os 12 apóstolos e Jesus Cristo. Bem, a gente sabe como aquele jantar terminou, né?

2. A história desse repudiado dia é mais complicada do que parece. Em muitos países hispânicos é a quinta-feira – e não a sexta – que é considerada um dia de azar. Sabe o que é ainda mais interessante? Muitos historiadores acreditam que o último jantar de Cristo com seus apóstolos tenha acontecido em uma quinta e não na sexta. Tão sentindo a relação lá com o fato numero 1? O negócio é começar a se ligar já na noite da quinta e manter o alerta até a sexta acabar!

3. Se você estiver na dúvida se é melhor usar todos os seus amoletos na quinta ou na sexta-feira, a coisa se complica um pouco se você estiver na Itália. Lá, azar mesmo só se for dia 17 e uma sexta-feira. O número 13, por sua vez, pode te trazer até sorte. Independente do dia, no entanto, evite a cor lilás, que no geral é associada a funerais e, por isso, pode te trazer um baita azar.

4. E quando a criança nasce no dia treze? Terá uma vida marcada por azar? Não na  Inglaterra, que encontrou logo uma solução definitiva pra coisa. Antigamente, bebês nascidos nessa data eram rapidamente colocados em cima de uma bíblia para afastar a má sorte de uma vez por todas. Problem solved!

5. A Finlândia foi direto ao assunto e batizou logo a sexta-feira 13 como o “Dia Nacional dos Acidentes.”

6. Os venezuelanos têm uma forma mais fofa de lidar com a sexta-feira 13. Apesar de haver um consenso nacional de que não se deve casar, viajar ou sair de casa nesse dia, o povo que se encontra pela rua nessa ocasião fica brincando uns com os outros repetindo o seguinte versinho: “El viernes 13 ni te cases ni te embarques ni vayas a ninguna parte.” Cuidado!

7. Evitar viagens e casamentos no dia do azar é comum também na Espanha e em muitos outros países latinos. No entanto, na Espanha, o dia a ser evitado é mesmo a terça-feira 13 e não a sexta.

8. A má fama da sexta-feira 13 é levada tão a sério nos Estados Unidos que o país chega a registrar uma baixa de milhões de dólares em negócios neste dia porque pessoas se recusam a viajar ou tomar grandes decisões nessa data.

Imagem: Patrick Pascal Schauß @Pixabay

E como se precaver do azar? Melhor ficar atentas/os a essa superstições:

9. Na Polônia, presentear alguém com objetos perfurocortantes como faca ou tesouras pode trazer um baita azar. Para quebrar esse efeito, só mesmo transformando o presente em venda. A pessoa presenteada tem de “comprar” o presente por um valor simbólico. A quantia não importa muito. Pode ser até 1 centavo, mas o importante é pagar pra se livrar do perrengue que pode surgir com isso.

10. Na Turquia, eles resolvem esse problema colocando o presente em cima da mesa para outra pessoa pegar. Nada de entregar direto em mãos ou a amizade pode ser cortada.

11. Não invente de parabenizar uma pessoa alemã antes do dia do seu aniversário. Mesmo que seus desejos de felicidades sejam dados às 23:55h, o/a aniversariante vai se recusar a receber. O negócio é que é possível que demônios bisbilhoteiros estejam escutando e podem querer fazer qualquer coisa para impedir que os desejos de aniversário se realizem. Como dizemos na Bahia: lá ele!

12. A pior coisa que você pode fazer a uma pessoa do Brasil é ver que a sandália dela está com a sola virada pra cima e deixá-la assim. Quem presencia uma cena dessas na casa de um/a brasileiro/a deve consertar a posição do calçado imediatamente. Com isso, a morte da  mãe do/a dono/a da sandália pode ser evitada. Uma atitude simples que pode salvar vidas.

13. Quando você for à Suécia, preste bem atenção às tampas dos bueiros. Essa tampas podem ser marcadas por um “K” ou um “A”. Nunca pise em uma que esteja marcada com um “A”. Em suéco, existes várias pragas diferentes que começam com a letra “A” e que podem te pegar se você cometer esse deslize. Eu, hein?

Se você leu até aqui. Não se preocupe. O Continuidade funciona como um amuleto e é mais poderoso que pé de coelho ou trevo de quatro folhas. Pode ficar tranquilo/a que sexta-feira 13 aqui é só dia de leveza e de se divertir.

*Por Cris Oliveira

Continuidade Indica: Um Brasileiro em Berlim

Em 1990, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro foi convidado por um programa de intercâmbio de artistas do DAAD (Deutscher Akademischer Austauschdienst; em português, Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) para passar uma temporada de aproximadamente um ano na capital alemã. Nesse período, ele assinava uma coluna no jornal Frankfurter Rundschau, que, posteriormente, se tornaria seu livro de crônicas “Um Brasileiro em Berlim”.

Em “Um Brasileiro em Berlim”, João Ubaldo consegue, de forma muito leve e divertida, expressar todo o estranhamento que sente enquanto brasileiro numa uma cultura – em muitos sentidos – tão diferente da sua. Nesse período, a Alemanha também estava passando por mudanças sociais muito profundas decorrentes da recente queda do muro de Berlim e da reestruturação dos países do leste europeu. Ubaldo Ribeiro retrata bem não só a sua experiência de estrangeiro tentando encontrar o seu lugar naquela nova cultura, como também faz uma interessante análise da sociedade alemã. Seu olhar curioso, cheio do humor e ironia típicos de sua escrita, faz de “Um Brasileiro em Berlim” um livrinho super leve e agradável. Você vai ler em uma sentada e ter vários momentos de risos e reflexão.

Boa leitura!

*Por Cris Oliveira

Crescer entre duas culturas

Crescer entre duas culturas é um privilégio incrível. Uma das grandes maravilhas da qual podemos desfrutar quando a vida nos oferece essa chance é a de crescermos falando duas ou mais línguas, mas as oportunidades que acessamos ao crescer entre duas culturas vão muito além do bilinguismo.

Uma pessoa que cresce com duas ou mais culturas desenvolve, de forma muito natural, a habilidade de entender o mundo de um jeito mais flexível e de aceitar mais facilmente a diversidade das pessoas. Isso é uma qualidade fundamental para a construção de uma sociedade mais tolerante e aberta às diferenças. Infelizmente, as coisas se complicam um pouco quando os adultos envolvidos na formação dessas crianças não têm uma relação muito bem equilibrada com essa multiculturalidade.

Quando adultos comparam, julgam, e desqualificam as culturas que fazem parte da identidade de uma criança, acabam contribuindo para gerar conflitos de lealdade na cabeça dela. Muitas vezes a gente alimenta esses conflitos com atitudes banais e impensadas do dia a dia, sem nem nos darmos conta de seus potenciais destrutivos. Isso acontece, por exemplo, quando insistimos em perguntar às crianças se elas se sentem mais “isso” ou “aquilo”, quando perguntamos de onde elas são e desacreditamos suas respostas (de onde você é? Mas de onde você é mesmo?) ou quando falamos mal de uma das culturas às quais ela pertence.

Imagem: Brad Dorsey por Pixabay

Crianças gostam de se sentirem pertencentes, de fazer parte do grupo e não de destoar dele. Por isso, numa sociedade que supervaloriza a monoculturalidade, uma criança que pertence a duas culturas pode se sentir envergonhada de uma elas, caso essa cultura não tenha grande aceitação e reconhecimento positivo dentro da sociedade majoritária. Cabe aos adultos responsáveis pela educação e formação dessas crianças mostrarem a elas que pertencerem a culturas diferentes é um presente e uma oportunidade e não motivo de se envergonhar.

A melhor forma de conseguir fazer com que a multiculturalidade seja uma coisa natural, ao invés de representar um peso para as crianças, é trabalhar os nossos sentimentos em relação à nossa própria pluralidade e também à pluralidade dos outros. Crianças aprendem através dos modelos que damos a elas. Quando elas perceberem que seus pais celebram a própria multiculturalidade, que identificam nelas as suas potencialidades e as encaram com o mesmo respeito e aceitação, há grandes chances de as crianças se espelharem em seus exemplos.

Imagem: edsavi30 por Pixabay

*Por Cris Oliveira

Imagem de Destaque: Alexas_Fotos por Pixabay