Saudade

Saudade de imigrante é assim, não tem hora para bater e, às vezes, vem em horas tão inesperadas… quando se vê uma estampa colorida, um cheiro, um gosto “que parece com”, alguém que pergunta de onde você é e, de repente, de algo de lá que conhece. Ou então quando lembramos de quem “se era” no país de origem, tanto nos laços afetivos, na rotina como na identidade profissional.

Ela vem quando é uma data super querida e nossa família liga com a mesa farta e mostra quem está ao seu redor.

Ela vem quando os sobrinhos questionam “tia, quando é que você vem?”.

Ela nos visita quando estamos diante de situações desafiadoras do lado de cá e a gente pensa “ah, eu só queria estar no aconchego da minha língua, dos meus pares”.

A saudade também nos traz, por outro lado, um gosto maravilhoso quando a gente revê quem amamos. Ela também nos movimenta para achar jeitos de estar presente, mesmo com muitos quilômetros de distância. Isso pode ser feito com chamadas de vídeo para conversar, para mostrarmos a eles a neve ou para eles nos mostrarem a praia. Pode ser por mensagens, por cartas, pelas encomendas que amigos levam para as pessoas que amamos e que trazem para a gente matar saudade.

E a música “Sonho Meu”, de Delcio Carvalho e Yvonne Lara, retrata bem esse desejo de estar onde se está, mesmo sem perder a vontade de ir para perto dos nossos conterrâneos, do sol, de lugares e atividades que gostamos.

“Sonho meu, sonho meu

Vá buscar quem mora longe

Sonho meu

Sonho meu, sonho meu

Vá buscar quem mora longe

Sonho meu

Vá mostrar essa saudade

Sonho meu

Com a sua liberdade

Sonho meu”

Vá, sonho meu, “com a sua liberdade”, una esses dois lares que temos e as dualidades dos nossos sentimentos! Por favor, nos ensine a trazer um pouco de Brasil nas músicas que ouvimos em casa, nas receitas que aprendemos, nas corridas dos mercadinhos típicos e nas intermináveis conversas lá com o Brasil ou com os nossos conterrâneos que vivem aqui. E, sonho meu, traga aquele sorriso de canto de boca de quando a gente arruma a mala – cheia de lembrancinhas – com destino a Guarulhos. Ah, sonho meu, “traz a pureza de um samba / Sentido, marcado de mágoas de amor / Samba que mexe o corpo da gente/ Vento vadio embalando a flor”.

*Por Daniele Stivanin

Imagem de S. Hermann & F. Richter por Pixabay*

*Artista: Bunksy

Pausa para cuidar da família

Um dos maiores fantasmas da vida da pessoa que migra é como lidar com situações de urgência com a família no país de origem. O pensamento de que algo pode vir a acontecer a nossos pais e familiares quando estamos longe, sem que tenhamos a possibilidade de rapidamente estar perto deles, acompanha a vida de muitas pessoas migrantes como uma espécie de sombra constante em todos os momentos da vida fora de nosso país de origem. Todas nós, pessoas migrantes, aceitamos a possibilidade de não podermos estar presentes em momentos decisivos das vidas de nossos familiares e amigos. Temos ciência de que não participaremos de todos os aniversários, nascimentos, formaturas e que talvez, ao chegarmos, seja tarde demais para um último adeus.

Por isso, para a pessoa que migra, ter a possibilidade de voltar para o país de origem quando se tem vontade, saudade ou quando alguma emergência exige, é uma grande oportunidade que a maioria de nós agarra mesmo, sem titubear. Recentemente, o Continuidade se viu diante de uma dessas situações. O que fazer quando uma pessoa da família está gravemente doente e precisa de nós? Essas situações geralmente nos pegam de surpresa e, na migração, a surpresa vem acompanhada da pressão do tempo.

Durante uma pandemia, então, é a pressão do tempo mais as incertezas relacionadas a todo o resto. De repente, tudo fica urgente e a pessoa migrante trava uma corrida contra o tempo para organizar a burocracia e encarar uma viagem de volta ao país de origem, dessa vez deixando para trás as pessoas no país de acolhida para se reorganizarem com a lacuna súbita que foi deixada. Grande parte da vida de migrante consiste em administrar as ausências e faltas.

Pedimos compreensão com esse nosso momento de lidar com a lacuna repentina deixada por Cris, que teve de encarar essa turbulenta e incerta viagem de volta ao Brasil para estar perto de sua mãe que está internada com COVID. Nós, que desta vez somos a família que ficou, estamos aqui nos reorganizando para poder, em breve, voltar a produzir conteúdo para vocês.

*Por Cris Oliveira

Imagem de destaque: Free Foto by Pixabay

História de Migração: Stela Zaleski

Olá, eu sou a Stela, tenho 35 anos e nasci em um dos lugares mais lindos do mundo: Maceió, Alagoas, Brasil.

Aos 17 anos vim morar na Alemanha, que era meu sonho desde quando estive aqui pela primeira vez, com 7 aninhos. Com 12 anos, vim mais uma vez visitar o país que se tornaria um dia meu lar. Minha mãe já tinha vindo quase 2 anos antes de mim para morar. Quando ela veio, eu fiquei no Brasil pra concluir a escola e vir logo depois.

Chegando aqui tive duas experiências que me marcaram muito. Primeiro, que apesar da minha mãe viver e estar casada na Alemanha, eu não tive direito a um visto permanente. Durante um ano, ia a cada três meses buscar um visto de turista, sempre com medo de não receber e ser mandada de volta. Não queria ficar mais longe da minha mãe. Outra coisa que também foi muito difícil foi não ter amigos e não me sentir pertencente a um grupo.

Bom, tudo isso passou. Consegui, então, um visto de um ano, fiz estágios em dois lugares. No meu primeiro estágio, percebi bem rápido que não era minha praia. Já no segundo, logo vi que adorava trabalhar com gente. Isso é mais a minha cara. E assim foi. Fiz um ano de estágio e fui contratada pra fazer um “Ausbildung” (curso profissionalizante) que tinha duração de três anos. Com isso, consegui mais três anos de visto e eu sabia também que, se depois eu fosse contratada, tendo um emprego fixo, poderia ficar.

A minha primeira amiga aqui na Alemanha foi e é minha irmã e comadre também, Cris Oliveira. Fizemos amizade muito rápido no curso de alemão, mas lá ainda não sabíamos que nos tornaríamos irmãs 😘. Nossa história é um caso à parte. Fazer amigos aqui na Alemanha não foi nada fácil e se sentir pertencente a um grupo, diria que “danou-se”.

Depois de doze anos vivendo aqui, frequentando festas que minha comadre sempre me levava, e onde normalmente também estavam as mesmas pessoas, ainda assim não conseguia fazer conexões para além das festas, apesar de me dar bem com todo mundo. Pelo menos era o que sentia. Até que um dia abri meu e-mail e vi um convite pessoal de um deles me chamando para ir a uma festa na sua casa (onde provavelmente eu iria sem convite mesmo, levada por minha comadre🤣🤣🤣).

Como já falei, eu provavelmente iria de qualquer jeito, mas ter sido convidada daquela forma me deu uma sensação de ser pertencente a um grupo. Não sei explicar exatamente porque, mas essa experiência particularmente me marcou bastante.

Toda minha história aqui, na verdade, me enche de orgulho. Cheguei, tive alguns probleminhas com meu visto e o fato de não ter meus amigos por perto. Na época também não existia WhatsApp, Skype e etc. Isso teria facilitado bastante a minha vida. Conheci meu namorado assim que cheguei na Alemanha. Com ele, casei, tive três filhos, construímos uma casa e durante quatorze anos fomos um casal.

Durante todo esse tempo, eu fui e fiz diversas coisas aqui. Em 2016, passei a trabalhar como autônoma. Foi bom enquanto durou e ano passado resolvi, a princípio, parar com um pequeno salão de estética no qual eu atendia. Em 2017 um novo capítulo se iniciou na minha vida. Me separei, e agora dou outros rumos à minha vida.

Só posso dizer que fui e sou muito feliz aqui. Continuo morando com meus 3 pequenos homens na casa em que construí com o pai deles e isso facilita minha vida em vários aspectos. O que mais me alegra é ter a certeza de que, mesmo vivendo num país que não é o meu de origem, hoje sei que existiu e existem pessoas deste país que sempre me ajudaram a construir minha história aqui. E eu sou muito grata a cada uma delas.😉

No momento, imagino várias coisas para meu futuro, porém nada ainda muito concreto. Tenho vontade de voltar a estudar, mas no momento isso ainda não tem como se tornar uma prioridade.

Se meu filhos resolvessem migrar um dia, eu acho que eu diria a eles pra terem paciência e a correrem atrás daquilo que querem conquistar ao mesmo tempo. Que dominar o idioma do lugar escolhido é quase que um grito de independência e que eles não devem se concentrar em um único caminho, pois, como sabemos, vários caminhos nos levam a Roma. Diria que também respeitem os valores do lugar escolhido para migrar.

A primeira coisa que eu faço quando volto de férias a meu país de origem é comer, comer e comer. 😂 Isso, além de visitar lugares que me trazem algumas boas recordações, com pessoas que fazem parte da história. 😉 Apesar de ser dificil de eleger o que há de melhor para fazer em Maceió, uma coisa é certa: vai ter praia no roteiro. Tem muitos lugares lindos como as dunas de Marapé, a praia de Paripoeira, as piscinas naturais da Pajuçara, a praia do Francês, a Barra de São Miguel, a Praia do Gunga, São Miguel dos Milagres, Maragogi, a Foz do Rio São Francisco e os Cânions do Rio São Francisco. Esses lugares são lindos demais, e tem praias pra todo gosto. Sem falar nas comidas, que são de comer rezando. 😂

Se eu pudesse voltar no tempo para o dia em que resolvi migrar pela primeira vez, os conselhos que eu diria para mim mesma seriam: aprenda a língua do lugar o mais rápido que você puder, não se desespere, tenha paciência, vá com calma, mas vá em frente. Mas também pare, respire fundo e deixe fluir aquilo que não está sob o seu controle.

Daqui a dez anos eu quero estar falando inglês fluentemente, para poder me comunicar por onde eu passar. Pretendo passear por muito lugares do mundo, mas sempre voltar pra casa, a Alemanha. 😉 Eu acho que ter vivido no Brasil e depois ter vindo pra cá foi uma das melhores experiências que eu poderia ter. Construí uma base sólida e aprendi muitas coisas com essas duas culturas.

Eu sou Stela Zaleski e essa é a minha história de migração. Qual é a sua?

*Por Stela Zaleski

Ser Mulher

Nesta semana comemoramos o Dia Internacional das Mulheres. Além das famosas rosas que são entregues nesta data, este dia nos lembra a luta de muitas mulheres que vieram antes de nós, as dores, os avanços e os papéis que podemos e queremos desempenhar, inclusive na imigração.

O dia 08 de março relembra a luta de mulheres operárias, que antes tinham poucas possibilidades de ter um papel social e laboral fora de casa. Quando elas foram para as fábricas, se depararam com horas exaustivas de trabalho e condições muito precárias para exercê-lo. Ao reivindicarem melhorias e direitos, tiveram uma forte resistência, inclusive com uma represália que causou a morte de muitas delas. Esse fato tornou a data um dia mundial de lembrar as lutas que tanto desejamos e o quão necessárias elas são.

Tiveram lutas antes, como por exemplo, de ter concepções ou habilidades diferentes, e serem consideradas “bruxas” ou “loucas”. Depois disso, tiveram que lutar para votar (e em alguns lugares, isso é um direito recente ou ainda não é concedido), de escolherem seus rumos sobre os relacionamentos, sobre ter filhos (quando e se querem tê-los), de serem aquelas que dizem o que pode ou não ser feito com os seus corpos (e serem escutadas) e de desejarem ser quem quiserem (e da forma que quiserem).

Huelga Feminista Madrid, 8 de Março de 2020 | Foto: Lali Souza

Nestas mudanças, desejos, dores e lutas, muito foi conquistado, embora ainda tenhamos muito de construir em um caminho de mais equidade nas empresas, na política e em casa, no respeito e na diminuição dos índices de violência contra a mulher. Enquanto isso somamos a este turbilhão de sentimentos, desejos e realidade, as representações sobre o que é ser mulher, que fomos aprendendo desde o que era falado e autorizado nas nossas famílias de origem e nas nossas comunidades, e o que aprendemos em seguida nos diversos grupos que participamos. Inclusive no contato com uma nova cultura, no caso da imigração.

A imigração pode trazer formas diferentes de ver o ser mulher, se comparado com o país de origem, com ampliação dos direitos ou ainda mais restrições. A vida no interior da casa também pode ser alterada, quando, por exemplo, um do casal vem empregado e o outro precisa construir habilidades com a língua e validar a sua experiência profissional, para se inserir no mercado de trabalho ou nos estudos no novo país. E isso sem contar com as redes de suporte que antes conhecia. Neste momento, pode vir o medo de estar “dando passos para atrás” ao ser “responsável” pelas casas e pelos filhos ou não ter atividade remunerada. E isso é ser menos mulher?

Nós, aqui, consideramos que ser mulher autêntica é ser a mulher que lhe faz sentido, que cabe ao seu momento e que pode ser tão valioso como ser nomeada CEO de uma empresa. Por exemplo, se a escolha é desprender os esforços em cuidar do seu filho, que representa cuidar de um novo cidadão ou nova cidadã, isso não é um papel e tanto? Dar um tempo para se adaptar no novo país, considerando as condições financeiras da família, também pode ser uma opção de respeito consigo. E muitos outros exemplos que vocês e nós poderíamos citar aqui, sem julgamento ou avaliando com olhos de quem classifica o que é válido ou vale mais.

As lutas feministas aconteceram e acontecem para que o poder de escolha seja real, validado e autêntico para cada um. E é isso que desejamos a nós todas neste dia: que a gente continue caminhando, pessoalmente e como comunidade, para garantir o direito de ser quem se é e da forma que desejar, e ser respeitada (e respeitar). Que todas nós possamos completar a nossa apresentação “brasileira (ou do país que for), imigrante e …” com tranquilidade e sendo acolhida e valorizada da forma que somos (inclusive por nós mesmas). 

*Por Daniele Stivanin

Imagem de destaque: Aryl Irudayam

Giro pelo Mundo: Buenos Aires

Ao falar de Buenos Aires, começo pela minha avenida preferida: Corrientes. As primeiras quadras, especialmente as que estão entre as Avenidas 9 de Julio e Callao, são cheias de cafés, livrarias e cinemas. Quando chegar no cruzamento da Corrientes e 9 de Julio, verá o Obelisco, importante símbolo da cidade. Interessante que não é o centro geográfico de Buenos Aires, mas é o centro social, por assim dizer. Dali, é muito fácil mover-se, pois tem acesso a várias linhas de metrô e ônibus, é só escolher o seu destino e embarcar!

É possível desbravar Buenos Aires caminhando e isso é muito agradável! A maioria das ruas têm calçadas largas e são muito arborizadas. Além disso, como a cidade é basicamente plana, andar não cansa muito.  

Fim de semana

Vem passar um fim de semana em Buenos Aires? No sábado, uma boa pedida é o Palermo. Hoje em dia, é uma espécie de “shopping a céu aberto” com um monte de coisas pelos “zói da cara”, mas é um passeio legal mesmo assim, porque, além das lojas, tem bares, restaurantes, cafés e feirinhas de jovens designers e artesãos. O bairro em si é super agradável, combina arquitetura antiga e moderna, e fica bem movimentado. Qualquer dia à noite, na Plaza Serrano e seu entorno, vale a pena conhecer os bares, alguns com mesas na calçada. Durante a noite fica bastante movimentado, especialmente nos fins de semana (antes da pandemia, é claro).

Ainda em Palermo, tem o jardim botânico, que é lindo. Ele é cheio de árvores e gatos e fica bem no meio da cidade. Tem também os bosques de Palermo, onde fica o planetário (que parece um disco voador), o Rosedal (uma praça com rosas de todo tipo e espécie!), o jardim japonês (andava meio decadente quando eu fui, não sei como está agora). Esses são passeios bem tranquilos, coisas de caminhar e ver, sentar pra comer um sanduíche ou, como os argentinos, tomar um mate (chimarrão).

San Telmo, Buenos Aires / Foto:  Luis Petrini

No domingo, eu recomendaria um passeio em San Telmo. Nos fins de semana, acontecem feiras de antiguidade pelo bairro e está sempre cheio de gente, argentinos e turistas. Não tem muita coisa para comprar, a ideia é ver o movimento mesmo. Na Plaza Dorrego, depois que desarmam a feira (por volta das 17h), rola um show de tango e um monte de velhinhos vão dançar alíi mesmo, no meio da praça. É lindo de ver! Você também pode ir a La boca pela manhã e depois seguir pra lá, que é pertinho.

Gastronomia

Se for a La Boca, sugiro aproveitar para comer um choripan comprado na rua mesmo! Choripán é o cachorro-quente argentino: uma linguiça de churrasco cortada ao meio dentro de um pão francês! Geralmente se coloca um molho chamado chimi-churri, que é uma delícia!    

Choripan / Foto: Amigos Foods.

Já sobre restaurantes, a melhor dica que eu posso dar é: preste atenção se o lugar é frequentado por argentinos e não só por turistas. Os argentinos gostam de comer bem. Se o restaurante estiver cheio deles, a comida deve ser boa!

Ah! Se for comer uma das tradicionais pizzas, peça também uma fainá: massa de grão de bico. Aqui é o único lugar do mundo onde eu vi alguém comer pizza com acompanhamento, então, vale a pena pedir para conhecer! Faz assim: come um pedaço de cada ao mesmo tempo! Algumas pizzarias até  servem a fainá já em cima da pizza.

Outra dica importante, ainda no tema gastronômico: vá a uma sorveteria.Os sorvetes argentinos são maravilhosos! A sorveteria mais famosa da cidade é a Pérsico, seguida da Freddo, mas tem milhares de sorveterias artesanais espalhadas pela cidade. Se prefere uma dica mais “local”, eu recomendo uma sorveteria de bairro, chamada La Gruta. O sabor dulce de leche granizado é um clássico daqui.

Falando em doce de leite, cabe lembrar que os argentinos sentem muito orgulho pelos doces de leite deles. E com razão! Apesar dos alfajores Havanna serem os mais famosos, há outros tão ou mais gostosos – e mais baratos – em qualquer kiosko. Como boa amante de um doce, não posso deixar de recomendar os havanettes, que são uns cones de chocolate recheados de doce de leite. Uma delícia!

Tango

Vamos falar de tango? Uma boa dica é decidir com antecedência se vai querer ir a um dos shows tradicionais, como os que servem jantar antes do show, porque é necessário reservar. Esses são bem como uma peça de teatro, tipo Broadway, geralmente com cantores e banda ao vivo, além dos bailarinos. Tem de todos os preços, a depender do luxo da comida e do espetáculo, claro. Nunca provei, mas ouvi dizer que a comida não costuma ser lá grande coisa.

San Telmo, Buenos Aires / Foto:  Luis Petrini

 Se a ideia é dançar, uma boa opção são as casas de milonga, como La Viruta (http://www.lavirutatango.com/). São salões frequentados por gente que gosta de dançar, quase como uma espécie de “boate de tango”. Elas oferecem aulas de tango também.

Para os amantes do tango, recomendo também o boteco “Lo de Roberto”. Lá, você vai ouvir uns senhores cantando tango a plenos pulmões, acompanhados de violões. É uma experiência super interessante e todos escutam como se estivessem numa missa. É de arrepiar!  

Museu

O museu que eu mais gosto é o Malba, de arte latino-americana. O Abaporu, de Tarsila do Amaral, faz parte do acervo permanente.

Outro museu que amo e recomendo a visita é o Bellas Artes. Ele tem entrada gratuita e uma excelente coleção de arte moderna no segundo andar. De lá, ainda dá para caminhar em direção à Recoleta, onde está o famoso cemitério com o corpo de Evita Perón, além de uma feira de artesanato aos domingos.

Centro

Ah! Pra finalizar, não esqueça de visitar também a parte mais central de Buenos Aires, onde está Casa Rosada, e de caminhar pela Avenida de Mayo até a Praça do Congresso. Essa região é linda! As fachadas são incríveis, então, sugiro dar uma olhada para cima e conferir toda a beleza. É nessa região que fica o famoso Café Tortoni, que é mesmo muito bonito, mas já adianto: atendimento péssimo e muito caro.

Você já foi a Buenos Aires? Compartilhe com a gente as suas dicas imperdíveis para curtir a cidade!

*Por Silvia Ornelas

*Editado e revisado por Cris Oliveira, Daniele Stivanin e Lali Souza

Imagem de destaque: julian zapata por Pixabay.

O que fazer enquanto o visto de trabalho não sai? 4 dicas para aproveitar o tempo e acalmar a ansiedade.

Em muitos países para onde migramos, não é possível começar a trabalhar imediatamente por vários motivos. Muitas vezes, o novo país tem uma língua oficial diferente da nossa e as oportunidades de trabalho podem ser fortemente ligadas ao domínio do idioma local. Em muitos casos, também, nossos diplomas e qualificações do país de origem precisam passar por um processo de reconhecimento oficial antes que possamos, realmente, nos aventurarmos na busca de emprego. Além de tudo isso, outras vezes ainda precisamos esperar sair algum tipo de autorização de trabalho.

Todos esses processos, por serem muito burocráticos, podem demandar bastante tempo, o que acaba se tornando um grande desafio para a pessoa imigrante: ter paciência para esperar as coisas acontecerem. Isso pode ser ainda mais difícil para pessoas que migram em busca de melhores condições de trabalho, de carreira ou de estudos.

Sabemos que essa espera pode ser angustiante. Muita gente fica com a impressão de estar “parada” no tempo. Uma forma de controlar essa ansiedade é tentar uma mudança de perspectiva e lançar o olhar para uma série de coisas que podemos fazer enquanto esperamos.

Neste texto, trazemos algumas sugestões do que fazer enquanto as situações burocráticas ainda não se resolveram. Eperamos que, com isso, possamos dar uma controlada na sensação de estagnação que essa fase da migração pode gerar.

– Faça cursos.

Imagem: StockSnap por Pixabay

Existe uma oferta infinita de cursos online que podemos aproveitar. Muitos até são gratuitos! Enquanto a gente espera nosso visto sair, é possível nos especializarmos, mudar o foco e aprender coisas novas. A oferta é tão ampla que, hoje em dia, a maior dificuldade é escolher que curso fazer. A plataforma Coursera, por exemplo, tem centenas de cursos em parceria com diversas universidades internacionais, nas mais diversas áreas do conhecimento. Você pode fazer os cursos simplesmente para ampliar seus conhecimentos, como também para receber um certificado. Vale a pena dar uma olhada em seu catálogo.

Faça algum trabalho voluntário.

Você sempre pensou em se enagajar em alguma causa social ou política e nunca teve tempo? Enquanto você espera seu visto sair, pode ser o momento perfeito para você fazer isso. Além de te dar um outro foco, isso vai te proporcionar vivências e uma oportunidade valiosa de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. Busque associações, ONGS e causas locais para se engajar. A experiência é valiosa e ainda é uma forma de você entrar em contato com a comunidade que te acolhe e de criar vínculos no novo país.

– Aprenda a língua local ou algum outro idioma.

Aprender a língua local pode ser um desafio importante, que possibilitará maior independência e uma participação na vida da cidade de forma mais ampla. Além disso, nos próprios cursos que você fizer, pode conhecer outras pessoas e histórias de migração e, assim, constituir os seus primeiros vínculos no novo local. Isso também vai te ajudar a ampliar a perspectiva sobre os desafios e desejos que te conectam com o lugar onde você está.

– Conheça a cultura local.

Nos nossos novos lugares, podemos lançar um olhar atento a como são os hábitos, os valores e costumes locais. Podemos fazer descobertas belas e inusitada! Por exemplo, em Hamburgo, saber que todo sábado tem uma das maiores feirinhas de orgânicos do mundo debaixo de um viaduto (Isemarkt) ou então que uma comida de rua super típica da cidade é um sanduíche de peixe cru, com pele e tudo (Fischbrötchen)!

Sorrir e se surpreender ao conhecer o diferente ou reconhecer semelhanças podem ajudar a aumentar a sensação de pertencimento por perceber onde se está (e quando ligar para familiares ou receber amigos, poder contar “onde eu moro é assim”).

Aproveite para passear, visitar museus, andar por aí sem destino admirando as paisagens. Assim que o seu visto sair, a situação pode mudar e esses momentos de simples conexão com o lugar, um dia-a-dia leve, podem se tornar raros.

Esperamos que essas dicas sirvam de inspiração para vocês. No entanto, precisamos relembrar da dica mais importante de todas: tenha paciência.

O fato de que é possível ocupar nosso tempo com atividades diferentes como forma de controlar nossa ansiedade, não significa que a gente deva fazer isso o tempo todo. Lembre-se de que, na primeira fase da migração, essa pressão que sentimos para absorver tudo e a necessidade de nos ocuparmos o tempo inteiro é real. Porém, nossa psique também precisa de um descanso e espaço livre para se organizar. O ideal é encontrar um equilíbrio: nos mantermos em atividade, mas também preservarmos um espaço para deixar que as coisas aconteçam em seu tempo.

Neste processo de esperar por algo que não está nas nossas mãos, podemos sentir receio de não dar certo. Por isso, pode ser difícil nos envolvermos em novas atividades e relacionamentos, além de sermos guiados pela premissa: “depois que der certo, eu vou…”. Isso pode ser uma condicional dura e que inviabiliza apreciar e valorizar os pequenos passos diários de descobertas e superações.

Dito isto, finalizamos esse texto com um trecho que Guimarães Rosa escreveu em seu último livro publicado em vida: “a felicidade se acha em horas de descuido”. Durante a espera, pode haver vida, conexão, esperança e a brincadeira. Aproveite cada instante!

*Por Dani Stivanin

*Revisado por Cris Oliveira e Lali Souza

Imagem de destaque: Pexels por Pixabay

Canções de Migração: Retrovisor

Quem conhece o Continuidade, sabe que as Canções de Migração são temas que a gente adora trazer por aqui. Hoje, essa reflexão é ainda mais especial, porque vamos falar de uma música composta por amigos queridos. Retrovisor é uma criação de Têco Lopes, Eduardo Lubisco e Daniel Castelani, e nos faz pensar sobre as idas e vindas na vida do migrante, seja de pessoas ou até mesmo de sentimentos.

Quando ouvi Retrovisor pela primeira vez, pensei: “eu poderia ter escrito essa música”. Ela reflete exatamente como me sinto ao pensar nas coisas e nas pessoas que ficaram lá em casa, depois que eu decidi viver em outro pais. É uma nostalgia gostosa, que faz brotar um sorriso só de pensar nas tantas histórias vividas.

Pessoas pela vida afora

Algumas passam

E outras ficam

Tenho saudades até das brigas

Pessoas pela vida adentro

Algumas chatas

Já outras, exatas

Guardo no peito, pessoas amigas

A música segue e vem o aconchego de pensar que, apesar da saudade, tanta coisa (e tanta gente) boa veio junto com o novo lar. É importante não se deixar cegar pela saudade. Como eu disse, a nostalgia é até gostosa, mas ela deve somar com que é novo e não te prender ao passado (que muitas vezes nem era tão perfeito assim, né?).

Há lugares desconhecidos por nós dois, e eu corto a estrada

Tantas vidas, tantos rumos e eu não vejo nada

Ser imigrante também é juntar os caquinhos e seguir adiante. É encontrar força para continuar, mesmo quando a vontade de voltar para o quentinho do quarto é gigantesca. Por isso, o meu conselho é: busque essa força nos alicerces que você tem, mas siga adiante. Olhar para trás é uma excelente forma de aprender, mas é para frente que a vida anda.

A voz rouca de um velho amigo

Raras chegadas, e tantas partidas

Acelero mais, olho pra trás

No retrovisor, tantas despedidas

Depois do falatório vem a parte mais legal: curtir o som! Clica no link abaixo para ouvir Retrovisor e conhecer o time massa que fez essa música acontecer.

*Por Lali Souza

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FICHA TÉCNICA RETROVISOR

Composição:

Daniel Castelani, Eduardo Lubisco e Têco Lopes

Músicos:

Têco Lopes: voz e guitarras base

Lali Souza: voz

Luiz Caldas: guitarra solo

Luciano Leães: órgão hammond

Eduardo Lubisco: violão

Maul Beisl: baixo

Peu Deliege: bateria

Mixado e masterizado por Irmão Carlos no Estúdio Caverna do Som

Histórias de Migração: Daniele Stivanin

Olá! Moin Moin! (como dizemos de forma bem simpática e cantada aqui no Norte da Alemanha!).  Eu sou Daniele Stivanin, sou mineira de Poços de Caldas e estou morando em Hamburg, na Alemanha, há 02 anos. Nós aterrissamos aqui depois de muito pensar e desejar vivenciar outros estilos de vida e de uma boa oportunidade profissional que nos deu a possibilidade de escolher as terras germânicas como novo lar.

Colocamos dentro da mala, as nossas expectativas, ansiedades, dores e sonhos e mais algumas coisas queridas que nos lembrariam da nossa casa e dos nossos trabalhos no Brasil. Com uma saudade já antecipada, eu e meu esposo nos demos as mãos, e sentimos que não estamos entrando em um avião, mas sim topando pular de paraquedas.  Lá vamos nós!

Chegando aqui, encontramos uma rede de brasileiros, primeiramente da própria empresa (eram 05 casais), com os quais podíamos dividir as novas descobertas (como alugar um apartamento e dar conta dos documentos com tantos nomes diferentes). Juntos fizemos declarações de amor à IKEA, somamos os braços para carregar e montar os novos móveis, dividimos os receios e as saudades, e nos reunimos para brindar, conversar e cozinhar.  Encontramos amparo para iniciar a nossa caminhada e não nos sentirmos sós. E destes amigos, vieram outros tão queridos. A internet também nos ajudou muito a encontrar novos grupos e projetos por aqui. E como isso tem nos fortalecido!

O Continuidade foi um grande apoio, com as falas no podcast que me acompanhavam nas minhas caminhadas, ampliando o meu foco e me ajudando a nomear os inúmeros sentimentos e pensamentos.  Em seguida, vieram as trocas no workshop entre mulheres imigrantes, que me ajudaram a ampliar demais as minhas perspectivas e o meu aconchego. Seguimos juntas através do grupo de whatsapp e de outras trocas virtuais (que espero que em breve sejam presenciais também!). E agora, com uma felicidade sem fim, me somo à equipe!

Com essas redes  de apoio, me senti mais fortalecida para vivenciar alguns desafios, como não saber como as coisas funcionam, os costumes, não conhecer a língua e ver o alcance de se comunicar, opinar, e se explicar muito limitados, assim como algumas possibilidades de lazer que gostava tanto (como cinema, teatro, etc). Porém, tudo bem, hoje já conheço um pouco mais o funcionamento das coisas (embora tenha muito ainda para aprender) e com o tempo vamos nos desenvolvendo na língua e na participação social aqui.

Acho que já somos felizes e gratos por já ter aprendido tanto, por ver as nossas habilidades sociais e emocionais e o conhecimento de mundo (externo e interno) sendo refinados com essas experiências. Eu revi tantas coisas nestes últimos dois anos, de valores, história e perspectivas, que eu já não sou mais a mesma. Isso é um ganho permanente da imigração para mim!

Tanto que me sinto conectada com aqui, talvez porque me conectei aqui dentro. Espero estar aqui por um bom tempo, viver a vida, sabe, e cada vez mais pegando o jeito, escorregando no alemão, em alguns combinados sociais e culturais que não conheço, mas seguindo em frente. E no caminho, desejo encontrar satisfações, resiliência, condições de me desenvolver, de ter segurança no espaço público e ter um estilo de vida mais simples e orgânico, de me reencontrar profissionalmente e ampliar a minha rede de contato social. Desejo me sentir vivendo e participando da sociedade em que vivo. Sempre acompanhada da minha rede do Brasil, dessa terra que me tornou quem eu sou. E agora com refinamentos e com o coração já dividido entre os dois lares que temos, um brasileiro e um alemão!

Se precisasse usar uma única palavra para resumir a minha história de migração, acho que seria esperança. Acho que ela aquece o meu coração desde o primeiro frio na barriga da possibilidade de vir e quando acordo todas as manhãs aqui e escuto “ Moiinn” cantandinho!

Eu sou Daniele e essa é a minha história de migração. Qual é a sua?

As Capitais do Nordeste

Na semana do aniversário da cidade de São Paulo, a revista Veja, em sua edição local, apareceu com uma capa que acabou não homenageando paulistas e ofendendo nordestinos. A reportagem, que tentou fazer uma reverência às contribuições de uma nova geração de migrantes nordestinos à maior capital do Brasil, terminou por deixar um gosto amargo em sua ação ao fazer um retrato do Nordeste que o próprio nordestino não reconhece e por falhar em reconhecer a diversidade real da região que tentaram galantear. Isso revelou, no entanto, uma valiosa oportunidade de refletirmos sobre estereótipos, preconceitos e migração dentro de nosso próprio país.

Antes mesmo de ler a reportagem, a gente já consegue se chocar pela capa. O título da reportagem “A capital do Nordeste” já demonstra uma falta de reconhecimento à grande diversidade da região Nordeste. Falar de Nordeste como se fosse uma coisa só é tão problemático quanto falar da África como se fosse um único país. É impressionante como esse discurso ainda está impregnado na nossa forma de falar.

Nos episódios 7 e 9 da segunda temporada do Continuidade Podcast, falamos justamente sobre estereótipos e preconceitos na migração.

Clica pra ouvir: Episódio 7 – Parte I / Episódio 9 – Parte 2

O Nordeste é uma região plural e diversa, que ocupa 18% da extensão territorial do país e que incorpora 9 estados muito distintos entre si. O nordestino é rural, sertanejo, praieiro e urbano. A região abriga costumes, ritmos, culinárias, climas e falares diferentes em seus estados (e também dentro deles!). Cada um tem a sua cultura e a sua capital, das quais seus habitantes têm orgulho e que os diferencia dos demais. Tentar definir uma capital para essa região – pior ainda se essa cidade está fora dela – é ignorar toda a diversidade que ela tem dentro de si. É anular o seu protagonismo dentro da sua própria identidade.

Mas esse não é o único problema dessa “homenagem”. A reportagem se baseia em um modelo de “migração que deu certo”. Quem são os nordestinos e as nordestinas que aparecem nessa capa? Pessoas de “sucesso”, donas de startups, chefs, empresárias. Todas são pessoas, atualmente, ocupam um lugar de prestígio social e, em sua maioria, de pele clara.

É grave passar a mensagem de que esse é o tipo de migração que deu certo. Onde estão os nordestinos assalariados que vivem nas periferias da cidade? Onde estão os operários e as operárias que trabalham duro para manter a metrópole funcionando? O nordeste representado na capa não corresponde à maioria migrante dessa região. E mais: alcançar riqueza material não deve ser o único caminho para o sucesso, para “dar certo”.

Antes de se autointitular “A Capital do Nordeste”, seria interessante saber quantos nordestinos de fato se sentem em casa nessa “sua” capital. Será que a cultura local é tão receptiva e acolhedora a ponto de fazer com que essas pessoas tenham um sentimento de pertencimento ao local? Será que o ser nordestino pode encontrar reconhecimento na sua capital do Sudeste mesmo que ele não seja empresário e que não tenha tanta escolaridade? A interculturalidade pode ser uma coisa maravilhosa e enriquecedora, mas, para isso, pressupõe uma troca, uma via de mão dupla e um conhecimento mais profundo de todas as culturas envolvidas. Quanto ao Sudeste, ele realmente conhece o Nordeste?

*Por Cris Oliveira

*Revisão e contribuições de conteúdo: Daniele Stivanin e Lali Souza

Imagem de destaque: site Amigos Nordestinos