Saudade

Saudade de imigrante é assim, não tem hora para bater e, às vezes, vem em horas tão inesperadas… quando se vê uma estampa colorida, um cheiro, um gosto “que parece com”, alguém que pergunta de onde você é e, de repente, de algo de lá que conhece. Ou então quando lembramos de quem “se era” no país de origem, tanto nos laços afetivos, na rotina como na identidade profissional.

Ela vem quando é uma data super querida e nossa família liga com a mesa farta e mostra quem está ao seu redor.

Ela vem quando os sobrinhos questionam “tia, quando é que você vem?”.

Ela nos visita quando estamos diante de situações desafiadoras do lado de cá e a gente pensa “ah, eu só queria estar no aconchego da minha língua, dos meus pares”.

A saudade também nos traz, por outro lado, um gosto maravilhoso quando a gente revê quem amamos. Ela também nos movimenta para achar jeitos de estar presente, mesmo com muitos quilômetros de distância. Isso pode ser feito com chamadas de vídeo para conversar, para mostrarmos a eles a neve ou para eles nos mostrarem a praia. Pode ser por mensagens, por cartas, pelas encomendas que amigos levam para as pessoas que amamos e que trazem para a gente matar saudade.

E a música “Sonho Meu”, de Delcio Carvalho e Yvonne Lara, retrata bem esse desejo de estar onde se está, mesmo sem perder a vontade de ir para perto dos nossos conterrâneos, do sol, de lugares e atividades que gostamos.

“Sonho meu, sonho meu

Vá buscar quem mora longe

Sonho meu

Sonho meu, sonho meu

Vá buscar quem mora longe

Sonho meu

Vá mostrar essa saudade

Sonho meu

Com a sua liberdade

Sonho meu”

Vá, sonho meu, “com a sua liberdade”, una esses dois lares que temos e as dualidades dos nossos sentimentos! Por favor, nos ensine a trazer um pouco de Brasil nas músicas que ouvimos em casa, nas receitas que aprendemos, nas corridas dos mercadinhos típicos e nas intermináveis conversas lá com o Brasil ou com os nossos conterrâneos que vivem aqui. E, sonho meu, traga aquele sorriso de canto de boca de quando a gente arruma a mala – cheia de lembrancinhas – com destino a Guarulhos. Ah, sonho meu, “traz a pureza de um samba / Sentido, marcado de mágoas de amor / Samba que mexe o corpo da gente/ Vento vadio embalando a flor”.

*Por Daniele Stivanin

Imagem de S. Hermann & F. Richter por Pixabay*

*Artista: Bunksy

Pausa para cuidar da família

Um dos maiores fantasmas da vida da pessoa que migra é como lidar com situações de urgência com a família no país de origem. O pensamento de que algo pode vir a acontecer a nossos pais e familiares quando estamos longe, sem que tenhamos a possibilidade de rapidamente estar perto deles, acompanha a vida de muitas pessoas migrantes como uma espécie de sombra constante em todos os momentos da vida fora de nosso país de origem. Todas nós, pessoas migrantes, aceitamos a possibilidade de não podermos estar presentes em momentos decisivos das vidas de nossos familiares e amigos. Temos ciência de que não participaremos de todos os aniversários, nascimentos, formaturas e que talvez, ao chegarmos, seja tarde demais para um último adeus.

Por isso, para a pessoa que migra, ter a possibilidade de voltar para o país de origem quando se tem vontade, saudade ou quando alguma emergência exige, é uma grande oportunidade que a maioria de nós agarra mesmo, sem titubear. Recentemente, o Continuidade se viu diante de uma dessas situações. O que fazer quando uma pessoa da família está gravemente doente e precisa de nós? Essas situações geralmente nos pegam de surpresa e, na migração, a surpresa vem acompanhada da pressão do tempo.

Durante uma pandemia, então, é a pressão do tempo mais as incertezas relacionadas a todo o resto. De repente, tudo fica urgente e a pessoa migrante trava uma corrida contra o tempo para organizar a burocracia e encarar uma viagem de volta ao país de origem, dessa vez deixando para trás as pessoas no país de acolhida para se reorganizarem com a lacuna súbita que foi deixada. Grande parte da vida de migrante consiste em administrar as ausências e faltas.

Pedimos compreensão com esse nosso momento de lidar com a lacuna repentina deixada por Cris, que teve de encarar essa turbulenta e incerta viagem de volta ao Brasil para estar perto de sua mãe que está internada com COVID. Nós, que desta vez somos a família que ficou, estamos aqui nos reorganizando para poder, em breve, voltar a produzir conteúdo para vocês.

*Por Cris Oliveira

Imagem de destaque: Free Foto by Pixabay

As perdas na migração: como lidar com elas?

Deixar o seu lugar de origem e começar uma nova vida num outro local, ao mesmo tempo que abre inúmeras portas, também fecha muitas outras. E agora? Como lidar com a dor da perda? É possível conviver com a saudade e ser feliz mesmo estando longe?

Neste post, compilamos algumas reflexões de Flora Regis Campe, psicóloga sistêmica e co-host do Continuidade Podcast, sobre as perdas que envolvem o processo de migração e como podemos lidar com elas.

Identifique o problema

Com as perdas na migração, é provável que surjam sentimentos de tristeza e até questionamentos sobre a escolha de morar fora do país. Você sabia que enquanto essas perdas não forem elaboradas, elas podem ocasionar alguns sintomas psicossomáticos como dores de cabeça constantes, insônia, dores de estômago, entre outros?


Procure ajuda

Como a terapia e o aconselhamento sistêmico focado na solução podem te auxiliar no seu processo de morar fora do país?

A terapia sistêmica breve e focada em soluções, juntamente com toda experiência na área da migração e dos aspectos psicossociais, oferece as ferramentas necessárias para ressignificar as perdas causadas pelo processo migratório, assim como descobrir as chances que a migração oferece para se viver inteiramente essa escolha de vida.

Se você está morando fora de seu país ou seus pais são originalmente de outro lugar, se está passando por situação de dificuldade em alguma área da sua vida, saiba que o trabalho focado na sua história de migração, juntamente com o olhar sistêmico nas soluções dos problemas, se mostra como método eficaz no desenvolvimento de novas estratégias para lidar com suas dificuldades.

ElisaRiva por Pixabay

Mas o que é “Terapia sistêmica focada na busca de soluções”?

A terapia sistêmica está interessada nas relações interpessoais do indivíduo, que estão envolvidas na origem e na manutenção de seus problemas. Esses mesmos vínculos interpessoais são também importantes para os processos de mudança e solução das dificuldades do cliente.

A terapia sistêmica focada na solução baseia-se no pressuposto de que cada pessoa carrega consigo todos os recursos e competências necessárias para dar os passos relevantes a fim de solucionar impasses em diferentes situações conflitantes. Ela dá ênfase nas potencialidades e nos passos para ação que o cliente precisa dar.

Diante de todos os desafios que enfrentamos na migração, a sensação de solidão pode ser uma dos mais difíceis de superar. É por isso que ter uma rede de apoio que te conecte à sua identidade pode ser tão importante.

Pensando nisso, o Continuidade vai realizar o seu primeiro Workshop online: Cuidando do Sentimento de Identidade na Migração. Vamos falar sobre as referências que trazemos dos nossos países de origem e como a perda de uma parte delas pode influenciar na nossa vida e no nosso bem-estar.

Serão 3 horas de trocas, conversas, dinâmicas e, principalmente, muita empatia e acolhimento!

Nosso encontro será no dia 6/3/21, das 10:00 às 13:00h (Horário de Berlim) e o valor da inscrição é de €15.

Para se inscrever, mande um e-mail para continuidadepodcast@gmail.com ou preencha o formulário de inscrição, clicando aqui. Corre que as vagas são limitadas!
Contamos com você!

Quer participar, mas não tem como pagar? Fala com a gente! O valor da inscrição não deve ser um impedimento para a sua participação.

*Por Flora Regis Campe

*Organizado e revisado por Cris Oliveira, Daniele Stivanin e Lali Souza

*Imagem de destaque: Michal Jarmoluk por Pixabay