Crianças Migrantes

Aqui no site e no podcast, nós tecemos nossas “conversas” sobre como se desenvolve a migração a partir dos aspectos emocionais, de como a sentimos, a vivenciamos e caminhamos no novo país de acolhida. Os nossos passos podem ser largos, calmos ou temerosos. Muitas vezes, somos acompanhados por passos pequeninos, curiosos ou ressabiados: os passos das crianças que nos acompanham nesta nova trilha de línguas, costumes e gostos. E nós, preocupados em andar para frente, muitas vezes não percebemos como são estes movimentos das nossas crianças e os seus olhares. Hoje, vamos dar o palco a elas! Se aconchegue!

A percepção da criança da “nova casa” ou do lar que fala duas línguas e que se divide em voos emocionados para outro país onde parte da sua família está, pode ser construída e influenciada pela fase de desenvolvimento que ela se encontra (e da compreensão cognitiva e emocional que pode ser possível em cada idade), pelas características de personalidade que está se desenvolvendo (o jeitinho tão característico de cada um), pelas características familiares e pelos estilos parentais de educação (como são geralmente as condutas dos pais no dia a dia). Além disso, podemos somar outros ingredientes na nossa “poção mágica” da vida de migrante, que são os aspectos que motivaram a migração, as expectativas dos cuidadores das crianças frente ao novo país e como ele pode impactar na vida do filho, por exemplo, na possibilidade de uma melhor educação e no tão sonhado multilinguismo. Faltaram alguns ingredientes? Então vamos colocar a receptividade e as características do país de morada. Que poção e tanto!

Foto: Mauricio de Paula (Flickr)

Uma coisa é certa: essa poção será única para cada família e para cada fase em que se encontra. As crianças podem sentir ansiedade e estranhamento diante dessa combinação, de tantas mudanças ou frente à agitação dos adultos, que também estão se acostumando à nova sociedade e à própria tarefa de serem pais dessa criança que muda tanto (não é se reaprende a ser pai em cada fase?!). As crianças podem estranhar também os novos sons da língua e como é fazer amizades e brincar usando outras palavras e outros códigos sociais. E neste momento podem vir pedidos como “eu queria ir para a casa”, referindo-se ao país de origem, solicitações de ajuda com o idioma e com expressões emocionais de que algo incomoda ou mexe, como dificuldade para dormir, episódios de choro, de irritabilidade e uma maior necessidade de estar perto dos pais ou das pessoas que falam a língua materna. É preciso observar e construir o conhecimento sobre o que os comportamentos e as emoções estão dizendo sobre a sua criança e o que será que ela está precisando neste momento, como acolhimento, pisar no freio ou de um bom incentivo e também de boas parcerias com o entorno (com a escola, outros mães e pais e quem mais puder se juntar nesta rede de cuidado). 

Por outro lado, as crianças podem nos relatar encantamentos com os seus olhos atentos e curiosos de quem observa, escuta e está construindo a sua forma de ver o mundo. Com os olhos menos embaçados que os nossos, elas podem nos apontar para constâncias das ruas que nunca percebemos, mesmo estando ali todos os dias. Podem gostar logo de cara de sabores novos e pedir para repeti-los com a maior carinha boa. Podem nos fazer falar com outras famílias de nacionalidades diferentes, porque as crianças resolveram espontaneamente que aquele era o momento de brincar (e de conhecer este mundo!). 

E o que elas estão querendo dizer com as suas facilidades ou com suas inquietações? Preparem bem os ouvidos e os olhos, como se tivessem assistindo o ápice de uma peça de teatro, onde os nossos pequenos gigantes irão contracenar em grande e bom tom um manifesto: “ei, escutem a gente! Temos muito o que falar e somar! Sabemos de tanta coisa!”. E ousamos complementar e incentivar a importância de ouvir a voz da criança e dar a oportunidade dela nos contar o seu olhar! Nós podemos nos surpreender – e falamos aqui, com o sorriso no canto da boca, lembrando de situações sábias que eles nos ensinaram. Podemos incentivá-los, com isso, a se desenvolverem entrando em contato com as suas emoções, expressando-as, mesmo que de forma desajeitada (aliás, nós também fazemos muitas vezes assim, não é?!) e sentindo que têm voz e que são cuidadas, quando isso for preciso. É difícil, para eles e para nós – mas é um caminho tão promissor! 

No próximo episódio, vamos dar o microfone às nossas crianças, para que elas possam contar a sua história de migração. O protagonismo será delas! E esperamos que aí, durante a conversa na sala de estar, na cozinha, antes de dormir ou no caminho para o supermercado, aconteça o compartilhar de sensações, emoções e pensamentos! 

“Água é uma gota de chuva

É uma gota de nuvem

É uma gota de água para viver”

(Palavra Cantada – De Gotinha em gotinha) 

Por Daniele Stivanin

Imagem de destaque: GraceOda_ (Flickr)

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